Bancos entregam dados em inquérito contra líder de Temer no Congresso

Deputado federal André Moura(PSC) e o senador Eduardo Amorim (PSB) são investigados por suposta compra de votos na campanha de 2014; grampos pegaram filiada ao PSC e um cabo eleitoral discutindo pagamentos para arrecadar eleitores

Luiz Vassallo

06 Julho 2018 | 05h00

Bancos entregaram à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, dados de contas de investigados por suposta compra de votos para as campanhas do líder do governo Michel Temer no Congresso Nacional, André Moura (PSC), do senador Eduardo Amorim (PSDB) e do deputado estadual Luciano Pimentel (PSB) – este último é investigado em primeira instância.

Os ofícios com informações das contas de campanhas e de cabos eleitorais dos parlamentares atendem a ordem da ministra do Supremo, que determinou a quebra de sigilo ao abrir inquérito.

Grampos autorizados pela Justiça Federal de Sergipe, base dos dois parlamentares, pegaram uma filiada ao PSC e um cabo eleitoral do partido em eleições posteriores e empresários em supostas tratativas com eleitores do interior do estado.

A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, autorizou abertura de investigação no dia 2 de março.

As investigações sobre os parlamentares nasceram de um inquérito policial relativo a supostos crimes de pedofilia e prostituição infantil em um bar na região de Itabaiana, interior do Estado, que envolvia bebedeiras e orgias com menores. Com a quebra de sigilo telefônico, a Polícia Civil constatou que investigados também agiam em outras duas cidades sergipanas supostamente para compra de votos.

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Carira, no sertão de Sergipe, tem pouco mais de 21 mil habitantes e representa o 47.º lugar no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano do Estado. No Brasil, está em 4391.º de um total de 5565 cidades à época do Censo de 2010.

Nossa Senhora das Dores, de 26 mil habitantes, é o 37.º IDH de Sergipe e 4196.º do Brasil.

Nestes dois municípios, grampos telefônicos identificaram cabos eleitorais fazendo supostas negociações por votos para o senador e para o deputado federal.

“Os alvos serviam como “intermediários” dos candidatos, recebiam dinheiro, via entrega pessoal ou via conta bancária, sacavam, amealhavam eleitores na cidade de Nossa Senhora de Dores/SE e nos seus Povoados, faziam lista de controle com nomes e valores pagos, quantia entregue juntamente com santinhos contendo a numeração do candidato à governo, à deputado federal e à deputado estadual, mediante o compromisso de voto nos candidatos ‘sugeridos’”, afirma relatório da Polícia Civil do Sergipe.

Em boa parte dos grampos, Amanda Mara Souza Chagas, que chegou a ser candidata a vereadora por Carira, aparece, em meio à campanha de 2014, em conversa com outro investigado, em que diz aguardar dinheiro para a compra de votos. ”

“Robson liga para Amanda e pergunta como estão os votos. Amanda responde não gostar de “trabalhar sem o TODY” (gíria que designa dinheiro). Robson diz que irá chegar (referindo-se ao dinheiro). AMANDA complementa dizendo que “só não sabe de quem vem”, Amanda acha que eles (Luciano Pimentel, André Moura e Eduardo Amorim) não vão gastar, por estarem vendo as pesquisas. Robson diz que não, pois quem estar “no fogo é pra se queimar””, consta no relatório das escutas telefônicas.

Em outra tratativa, a Polícia flagrou suposta negociação por cargos comissionados em troca da arrecadação de votos. “A partir do primeiro minuto de áudio Amanda pergunta a Gabriel se o candidato Luciano Pimentel gostou “dela” (A MANDA). Gabriel responde positivamente. Amanda diz querer um “CC” (cargo em comissão) de Luciano Pimentel. Gabriel diz a Amanda querer falar em particular com ela, para poderem fazer a “LISTA” (de eleitores que receberão dinheiro em troca de votos)”,diz o relatório das interceptações.

Luciano Pimentel permanece investigado no âmbito da Justiça Eleitoral de Sergipe. Já André Moura (PSC) e Eduardo Amorim (PSDB), por terem foro, vão se defender no Supremo Tribunal Federal.

COM A PALAVRA, ANDRÉ MOURA

A reportagem está tentando contato com a assessoria do deputado. Á época em que o inquérito foi tornado público, ele negou irregularidades:

O jornal O Estado de São Paulo publicou nota nesta quinta-feira (16) relacionando o nome do deputado federal André Moura (PSC) a uma investigação em andamento sobre suposta compra de votos nas eleições de 2014. Diante do fato, o parlamentar comunica:

1 – Jamais foi intimado para prestar esclarecimentos sobre tal investigação, acerca da qual não possui qualquer conhecimento. Aliás, a própria matéria reconhece estarem os fatos vinculados a terceiros e não ao deputado diretamente. Neste sentido, não cabe ao parlamentar – ou a quem quer que seja – responder por atos isolados ou conversas praticadas por outras pessoas.

2 – Por não haver cometido ilícitos e confiar no correto trabalho das instituições judiciárias brasileiras, tão logo seja oficialmente comunicado dos fatos, o parlamentar solicitará a mais breve conclusão da investigação e uma análise judicial do vazamento da decisão de um ministro do STF, quando esta sequer encontrava-se disponível no sítio eletrônico daquela Corte ou publicada no Diário Oficial da Justiça.

Em tempo, antecipadamente agradecemos a divulgação deste comunicado.

Brasília, 16 de março de 2018
Assessoria de Comunicação, com informações da Assessoria Jurídica
Gabinete do Deputado Federal André Moura

COM A PALAVRA, EDUARDO AMORIM

A reportagem está tentando contato com a assessoria do sebador. Á época em que o inquérito foi tornado público, ele negou irregularidades:

Em resposta à matéria veiculada no Estadão nesta quinta-feira (15/03) a Assessoria de Imprensa do senador Eduardo Amorim esclarece:

1) A assessoria de imprensa do senador Eduardo Amorim afirma que o parlamentar não é interlocutor em nenhum diálogo interceptado. O senador é apenas citado em uma conversa de terceiros, que aconteceu em ambiente privado, sobre a qual não tem nenhum tipo de controle ou influência.

2) O contexto citado pelo veículo é desconhecido, por completo, pelo parlamentar. Reafirmamos que esse senador não teve conhecimento nem direta, nem indiretamente com o objeto do inquérito e não foi, até o momento, chamado para prestar quaisquer esclarecimentos sobre o assunto;

3) A assessoria de imprensa reitera que durante a sua vida pública jamais teve qualquer envolvimento ou condenação relacionada à compra de votos;

4) Por essas razões, e por acreditar no trabalho do Poder Judiciário, prestará, tão logo seja notificado, os esclarecimentos para que essa investigação tenha um trâmite rápido e ao final seja, no que nos concerne, elucidada.

Assessoria de Imprensa
Senador Eduardo Amorim

COM A PALAVRA, LUCIANO PIMENTEL

A reportagem está tentando contato com a assessoria do deputado. Á época em que o inquérito foi tornado público, ele negou irregularidades:

A propósito da matéria “Grampos pegaram suposta compra de votos para líder de Temer no Congresso”, assinada por vocês dois e postada na edição online do Estadão desta quinta-feira, 15 de março de 2018, às 14h, na qual está dito que o deputado estadual Luciano Pimentel é “outro investigado” e “que permanecerá se defendendo perante a Justiça de Sergipe por não ter foro na Corte máxima”, o parlamentar do PSB tem a dizer o seguinte:

1 – Que, em momento algum, durante a campanha eleitoral de 2014, na qual se elegeu, praticou compra de votos;

2 – Que, além de não ter pessoalmente praticado, jamais autorizou a que alguém em seu nome o fizesse, por ser contrário a esta prática danosa à democracia.

3 – Que não pode ser responsabilizado por qualquer tipo de afirmação feita em seu nome por terceiros em conversas telefônicas grampeadas e que, no mais, está à disposição da Justiça de Sergipe ou de qualquer outra Corte para esclarecer os fatos.

Assessoria de comunicação do mandato do deputado Luciano Pimentel – PSB/SE