Banco Central, acertos e cronograma

Banco Central, acertos e cronograma

Luís Eduardo da Costa Carvalho*

31 de julho de 2021 | 05h00

Luís Eduardo da Costa Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se há uma entidade que merece elogios no nosso país é, sem dúvida, o Banco Central do Brasil. O trabalho desenvolvido pelo BCB tem sido, ao longo dos anos, de uma competência e de uma coerência poucas vezes encontradas, mesmo em seus congêneres de economias mais desenvolvidas. Para ficar em um exemplo, a implantação das agendas BC+ e BC# foi um marco, com uma série de medidas de uma correção irretocável, e que foram fundamentais para adaptar o setor financeiro à nova realidade da economia global.

Conduzidas com maestria nas gestões de Ilan Goldfajn e na atual, de Roberto Campos Neto, essas agendas já são e continuarão sendo muito importantes para a economia brasileira. E reafirmam o histórico de êxitos do Banco Central, que se estende ao longo do tempo e em situações de grande estresse. Foi o caso do Proer, implantado pelo BCB logo depois do anúncio do Plano Real. Na época, o mercado teve que se adaptar a um cenário de inflação baixa, depois de décadas de altas contínuas, e medidas corretas do Banco Central possibilitaram que a difícil transição acontecesse sem que o setor perdesse sua solidez, reconhecida internacionalmente.

Foi essa solidez que possibilitou ao sistema financeiro brasileiro atravessar a grave crise de 2008 mantendo-se como paradigma global no enfrentamento de uma das piores tempestades enfrentadas pelo setor em todos os tempos.

Nos tempos atuais vivemos também um novo cenário ao qual teremos que nos adaptar. No lugar da concentração do setor, que prevalece durante décadas, surgem com velocidade inédita novidades como as fintechs, Sociedades de Crédito Direto (SCDs), Sociedades de Empréstimos entre Pessoas (SEPs). Estamos em meio a esse processo e o Banco Central reconheceu rapidamente a mudança e agiu com a necessária agilidade.

No entanto, há um ponto que chama a atenção nesse processo: o cronograma estabelecido para a implantação das agendas BC+ e BC#. As mudanças a que estamos assistindo são muitas e requerem ações rápidas, reconheça-se, mas pelo que se vê até aqui o “timing” do Banco Central não foi calibrado da melhor maneira. Adaptar-se é mais do que necessário, mas a uma velocidade adequada, para que não se ponha a perder esse conjunto tão importante de medidas por conta de prazos inexequíveis.

Não se trata aqui de um problema exclusivo das instituições financeiras. O próprio BCB se impôs prazos audaciosos que, na prática, muitas vezes não tem conseguido cumprir, a não ser que sacrifique a eficiência necessária diante de medidas tão complexas e abrangentes. O açodamento pode pôr a perder um trabalho dessa magnitude que mais uma vez comprova a visão acurada do Banco Central sobre a necessidade de adaptar o setor financeiro aos novos tempos.

A boa notícia é que o BC tem adotado uma postura de diálogo com o mercado e, diante da realidade, mostra-se disposto a fazer as necessárias adaptações. Com essa linha de atuação e olhando também para dentro, certamente já constatou que o cronograma de implantação de suas agendas deve ser ajustado, sem a adoção de prazos excessivamente longos mas respeitando o “timing” adequado. O BC sabe que pode contar com o mercado nessa empreitada. Afinal, é interesse de todos que tenhamos sempre um setor financeiro sólido e em linha com o importante papel que temos a cumprir para o desenvolvimento sustentável do país.

*Luís Eduardo da Costa Carvalho, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos (ACREFI)

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