‘Bancada’ da Lava Jato vota pelo impeachment

‘Bancada’ da Lava Jato vota pelo impeachment

Fábio Fabrini e Andreza Matais, de Brasília

18 de abril de 2016 | 01h06

impeachment

Votação do impeachment no plenário da Câmara. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Os deputados alvos da Operação Lava Jato votavam neste domingo, 17, em peso pelo impeachment. Dos 23 investigados ou já denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposto recebimento de propina de esquemas de corrupção na Petrobrás e em outras áreas do governo, 17 disseram sim ao processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff. Outros quatro foram contra, um se absteve e um faltou à sessão da Câmara.

A maioria dos parlamentares foi citada pelo doleiro Aberto Youssef e pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa em depoimentos de colaboração com a Lava Jato. Os dois delatores deram detalhes sobre a participação de dezenas de políticos como beneficiários de propina. Os depoimentos ajudaram a embasar pedido feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de abertura de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Todos vêm negando irregularidades.

No PP, partido com mais investigados (17), 14 implicados foram favoráveis à continuidade do impeachment . No total, a legenda tem 45 parlamentares na Câmara e já havia orientado o voto contra o governo, após desembarcar na última hora da gestão Dilma.

Na sessão, os discursos dos investigados destoaram dos demais parlamentares. Em vez de martelar ao microfone a necessidade de acabar com a corrupção, opção da maioria, eles preferiram dedicar o voto aos parentes, ao Brasil, suas bases eleitorais e o compromisso com a maioria do partido.

“Pela coerência do meu mandato, pela minha mãe de 93 anos, pela minha família, esposas, filhos, netos e primeiro bisneto”, bradou Roberto Balestra (PP-GO), um dos 38 políticos alvos do inquérito que apura o chamado “quadrilhão” que teria recebido suborno na Petrobrás. A ele são atribuídos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, além de formação de quadrilha.

Embora comedido no plenário, o parlamentar foi um dos brasileiros que apoiaram as dez medidas contra a corrupção, lançadas pelo Ministério Público Federal (MPF) com o objetivo de promover mudanças na legislação penal. Recentemente, os organizadores da campanha anunciaram ter alcançado dois milhões de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular.

Ex-ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, outro suposto integrante do “quadrilhão”, atribuiu seu apoio ao processo de deposição à fidelidade devida à bancada e ao Brasil. “Temos de ter responsabilidade com o futuro do nosso País.”

Os deputados da Lava Jato mereceram aplausos dos oposicionistas, porém acanhados, em agradecimento ao “sim”. Do outro lado, dos apoiadores do governo, campo que também tem envolvidos na Lava Jato, as manifestações em protesto às posições deles foram quase nulas. “Pelo Brasil e pelo renascimento do Estado brasileiro”, disse Lázaro Botelho, do PP de Tocantins, ao justificar sua posição.

A exemplo dele, a maioria dos deputados do PP, delatada por Youssef, é acusada de receber “mesadas” de R$ 30 mil a 150 mil. Seria a “cota” do partido no esquema na Petrobrás, que incluiria também doações milionárias para custear campanhas eleitorais.

Dilceu Sperafico, pepista do Paraná, terra da Lava Jato, homenageou a cidade de Toledo e os agricultores do Brasil ao dar mais um voto contra a presidente. Na legenda, também votaram como ele Afonso Hamm (RS), Arthur Lira (PB), Eduardo da Fonte (PE), Jerônimo Goergen (RS), José Otávio Germano (RRS), Luís Carlos Heinze (RS), Luiz Fernando Faria (MG), Nelson Meurer (PR), Renato Molling (RS), e Simão Sessim (RJ).

As exceções foram Roberto Britto (BA) e Waldir Maranhão (MA). Em troca do voto com o governo, este último teria negociado uma vaga ao Senado na chapa do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), em 2018.

Cunha. A manifestação mais esperada veio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos principais artífices do impeachment da presidente Dilma. Ele passou o dia sendo bombardeado na Mesa Diretora pelos governistas, que diziam não ter legitimidade para conduzir a votação. Chegou a ser chamado de bandido pelo vice-líder do governo, Sílvio Costa (PTB-PE), que batizou os aliados do peemedebista e os oposicionistas de “PCC” (Partido da Corja do Cunha).

Ao oficializar seu “sim”, Cunha declarou: “Que Deus tenha misericórdia desta nação”.

Ele é alvo de três investigações perante o STF. Numa delas, o plenário já abriu ação penal. Nesse caso, é acusado de usar requerimentos da Câmara para chantagear um fornecedor da Petrobrás a lhe pagar propina de US$ 5 milhões. Há ainda uma denúncia oferecida pela PGR por, supostamente, manter dinheiro desviado da estatal em contas bancárias na Suíça. Um inquérito em curso apura ainda suposto recebimento de suborno de R$ 52 milhões para viabilizar financiamento do FI-FGTS às obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.

Um pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que Cunha seja afastado da presidência da Câmara e do mandato de deputado será julgado pelo Supremo em data ainda indefinida.

Aníbal Gomes (CE), outro investigado do PMDB, faltou. No plenário, o líder do partido, Leonardo Picciani (RJ), afirmou que ele tinha feito uma cirurgia e estava na UTI. Gomes é suspeito de ser intermediário do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em esquema de corrupção na Petrobrás. Com a aprovação do impeachment neste domingo, agora caberá a Renan conduzir o processo de afastamento de Dilma no Legislativo.

A PGR investiga ainda outros parlamentares, a exemplo de Missionário José Olímpio (DEM-SP), egresso do PP, que também teria recebido “mesada” no petrolão; e Júlio Delgado (PSB-MG). Ambos ambos favoráveis à deposição de Dilma. Delgado foi citado na delação do dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, por suposto recebimento de doação eleitoral em troca de barrar a convocação do empresário na CPI da Petrobrás. Em seu discurso, Delgado investiu contra Cunha: “Acho ilegítimo que um suspeito presida esta casa. Não é por você nem pelos seus golpes que eu vou deixar de dizer sim”.

Os outros dois votos contrários ao afastamento de Dilma vieram dos petistas Vander Loubet (MS) e José Mentor (SP). A PGR acusa Loubet de participar de esquema envolvendo a BR Distribuidora. Na denúncia que entregou ao Supremo contra o deputado de Mato Grosso do Sul, implicado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o procurador descreve o esquema de corrupção instalado na subsidiária da Petrobrás. “Impeachment sem crime é golpe e a presidente Dilma não cometeu crime”, enfatizou Loubet. “É impossível impeachment sem crime de responsabilidade”, concordou Mentor, suspeito de receber ilegalmente R$ 380 mil de Youssef.

Mário Negromonte Júnior, já denunciado pela Lava Jato por corrupção, se absteve na votação./ COLABOROU FERNANDA YONEYA
Veja como os investigados na Lava Jato votaram:

SIM
Afonso Hamm (PP-RS)

Aguinaldo Ribeiro (PP-PB)

Arthur Lira (PP-AL)

Dilceu Sperafico (PP-PR)

Eduardo da Fonte (PP-PE)

Jerônimo Goergen (PP-RS)

José Otávio Germano (PP-RS)

Lázaro Botelho (PP-TO)

Luís Carlos Heinze (PP-RS)

Luiz Fernando Faria (PP-MG)

Nelson Meurer (PP-PR)

Renato Molling (PP-RS)

Roberto Balestra (PP-GO)

Simão Sessim (PP-RJ)

Júlio Delgado (PSB-MG)

Missionário José Olímpio (DEM-SP)

Eduardo Cunha (PMDB-RJ)

NÃO

Waldir Maranhão (PP-MA)

José Mentor (PT-SP)

Vander Loubet (PT-MS)

Roberto Britto (PP-BA)

ABSTENÇÃO

Mário Negromonte Júnior (PP-BA)

FALTA

Aníbal Gomes (PMDB-CE)

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