Banalizar o Holocausto: existe motivo?

Banalizar o Holocausto: existe motivo?

Reuven Faingold*

18 de janeiro de 2021 | 15h00

Reuven Faingold. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Dia 27 de janeiro foi escolhido para ser o “Dia Internacional da Lembrança do Holocausto”, uma data fixada pela ONU para recordar a libertação do campo de Auschwitz em 1945 e honrar a memória de seis milhões de vítimas do maior assassinato em massa cometido pelos nazistas e seus comparsas durante a 2a Guerra Mundial.

Nesta oportunidade, gostaria de refletir acerca de um tema que vem preocupando seriamente vários estudiosos do Holocausto, também conhecido como Shoá: A banalização do Holocausto. Existe hoje amplo consenso do que significa a expressão “banalizar”, e isto não dá muita margem de discussão ou maniqueísmos. Banalizar é trivializar, vulgarizar, fazer de um fato histórico algo comum ou digamos, normal.

Para o caso específico do Holocausto do povo judeu esta ideia de “banalização do mal” surgiu nos anos 60, durante o transcurso do caso Eichmann, o nazista caçado na Argentina e levado a julgamento a Jerusalém. Na ocasião a jovem filósofa Hannah Arendt, (jornalista do The New Yorker) acompanhou todas as sessões, deixando suas impressões em obra intitulada “Eichman in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil” (1963).

No livro ela descreve não apenas o desenrolar das sessões, mas faz uma análise do “indivíduo Adolf Eichmann”. Segundo Arendt, o Ministro dos Transportes de Hitler não tinha um histórico de traços antissemitas e não apresentava características de um caráter distorcido ou doentio. Ele agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pela vontade de ascender rapidamente em sua carreira profissional na mais perfeita lógica burocrática. Cumpria ordens recebidas sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem pensar muito sobre o Bem ou o Mal que pudessem causar.

Nos dias atuais, 60 anos depois do famoso processo, há tentativas e tendências de banalização do Holocausto em diferentes lugares do mundo, sem contar a divulgação de um número considerável de obras históricas que visam diminuir ou até negar a própria existência do Holocausto. A diferença entre banalizar e rever o Holocausto é gritante. Hoje devemos replicar argumentos revisionistas ou negacionistas em círculos acadêmicos com a mesma intensidade com que precisamos combater a banalização do Holocausto. Para entender em profundidade a trivialidade e a banalização da maior tragédia do povo judeu, gostaria de ilustrar com três exemplos acontecidos nos últimos anos.

O primeiro traz a banalização do Nazismo num desfile de carnaval com pessoas fantasiadas de nazistas e de vítimas do Holocausto, em um povoado da Espanha. Este evento causou grande repulsa e indignação por parte das autoridades israelenses, pois faz uma apologia ao Nazismo “banalizando” a Shoá. A polêmica aconteceu em Campo de Criptana, uma localidade de 13.000 habitantes na região de La Mancha, nas proximidades de Madrid. Em um desfile carnavalesco, homens fantasiados de nazistas dançam nas ruas com armas de brinquedo e ao som de música disco. Perto deles, desfilou outro grupo de mulheres com bandeiras de Israel e com pijamas listrados de branco e azul, parecidos com os uniformes usados pelos prisioneiros dos campos de concentração. Em outra parte do desfile, uma mulher dançava em um carro alegórico com dois cães dobermanns e duas chaminés, em clara alusão aos fornos crematórios usados nos campos. A justificativa para a realização do evento foi infeliz e ridícula. Em comunicado oficial, o “Consejo” de Campo de Criptana disse “que a permissão foi concedida sob o entendimento de que honraria os mortos do Holocausto”.

O segundo exemplo se refere à nova moda entre alguns usuários da rede social de vídeos Tik Tok. Usando maquiagem simulando machucados, hematomas ou até mesmo mimetizando cadáveres, os jovens fingem serem vítimas dos campos de concentração e, em alguns casos, até fazem piadas com o trágico genocídio que se iniciou em 1941. Nas imagens compartilhadas no Tiktok, é possível ver jovens usando estrelas amarelas no peito, como as que os judeus eram obrigados a vestir na época do Nazismo. Há vídeos em que pessoas com “maquiagem de Holocausto”, rosto sujo e cansado, interpretam como seria uma possível chegada aos céus. Tudo não passa de uma teatralização de extremo mau gosto. O Museu Estatal de Auschwitz, localizado na Polônia, classificou os vídeos como dolorosos e ofensivos. Estes vídeos viralizados são perigosos, nocivos e ultrapassam as barreiras da trivialização da história, além de serem desrespeitosos com as vítimas e os sobreviventes. Em nota oficial, o aplicativo TikTok disse não tolerar conteúdos que pregam o discurso do ódio.

O terceiro e último exemplo diz respeito à banalização da Shoá através da comercialização de objetos “made in Auschwitz”. Não falo apenas das camisetas estampadas com a frase “Camp Auschwitz” como exibia Robert Keith Packer, um dos invasores do Congresso americano. Materiais alemães diversos da 2a Guerra Mundial como suásticas vêm sendo comercializados pela Internet sem fiscalização ou impedimentos. Até mesmo réplicas do Zyklon B (um gás venenoso fabricado pela Bayer), usado nas câmaras de gás dos campos, são encontradas e vendidas como “enfeites”.

A rigor, ter um objeto histórico não é crime, porém segundo especialistas em direito penal, quando configurada a apologia ou propaganda do Nazismo, quem o vende poderá parar na cadeia. Isso porque, de acordo com a lei 7.716/89, artigo 20, inciso 1, “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do Nazismo”, é crime punível com multa e até dois anos de cadeia.

O ponto importante é que esse determinado objeto ou símbolo precisa ter como finalidade a divulgação do Nazismo. Naturalmente, pode ocorrer de uma pessoa ter um livro que é tratado como um objeto de valor histórico, mas sua finalidade não seria fazer apologia ao Nazismo. O simples fato de a pessoa possuir um objeto, “sem o intuito de divulgar o Nazismo, não é entendido como crime”. Já do ponto de vista ético ou moral, os questionamentos levantados são direcionados ao fato de se obter lucro tanto com o Nazismo quanto com o Holocausto.

Neste 76º “Dia Internacional da Lembrança do Holocausto” fica registrada nossa mensagem: É preciso entender de uma vez por todas que é imoral qualquer tipo de lucro gerado sobre a dor alheia. Criar “memorabilia” a partir do Holocausto do povo judeu é legitimar a banalização da política dos nazistas. O nacional-socialismo de Adolf Hitler não é motivo de celebração. Afinal de contas, não chegamos a este mundo para “festejar” a morte dos nossos semelhantes.

Encerro meu artigo com um pedido especial para que juntos lutemos contra a banalização e o negacionismo do Holocausto. É preciso urgentemente perpetuar a memória por meio de um trabalho intenso nos diferentes memoriais e museus espalhados hoje pelos quatro cantos do mundo. O “Memorial do Holocausto” em São Paulo, instituição na qual tenho o privilégio de trabalhar, não descansará até não ver erradicada a banalização da Shoá.

*Reuven Faingold é PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Atualmente, é o diretor Educacional do Memorial do Holocausto em São Paulo

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