Balança de pagamentos não explica dólar alto

Balança de pagamentos não explica dólar alto

Josilmar Cordenonssi Cia*

05 de fevereiro de 2021 | 07h30

FOTO: UNSPLASH

Segundo o Banco Central, o Brasil obteve em 2020 uma grande melhora do saldo da balança de transações correntes, em meio à pandemia. O déficit saiu de US$ 50,7 bilhões para um saldo (ainda deficitário) de apenas US$ 12,5 bilhões, ficando abaixo de 1% do PIB. Isso foi possível por conta da melhora do saldo da balança comercial e redução do déficit na balança de serviços.

As nossas exportações de bens caíram 6,71% em 2020, em relação à 2019, mas as nossas importações caíram ainda mais, 9,66%. Dessa forma a Balança Comercial (exportações menos importações de bens) ficou com um superávit de US$ 43,2 bilhões em 2020, contra um superávit de US$ 40,5 bilhões um ano depois. Apesar desse crescimento, tanto as exportações como importações caíram.

No curto prazo (um ano pode ser considerado curto prazo), as exportações crescem em função da demanda externa e as importações refletem a demanda interna. A nossa pauta de exportações é dominada por commodities agrícolas e minerais, esses bens costumam ser inelásticos, ou seja, dada uma queda de 1% da renda a demanda por esses produtos tendem a cair menos do que isso. Em outras palavras são bens básicos. Nessa pandemia mesmo você que teve uma forte queda da renda, digamos que ficou desempregado e ficou com a renda de emergencial do governo, você reduziu os gastos com alimentação, mas menos do que costumava gastar com supérfluos. Assim, por exportar bens inelásticos (básicos), a demanda por esses produtos caiu menos. Além disso, o nosso principal cliente, a China, foi um dos poucos países do mundo que teve crescimento econômico positivo em 2020. Desta forma, as nossas exportações caíram relativamente pouco, 6,71%, saindo de US$ 225,8 bilhões para US$ 210,7 bilhões em 2020.

Já as importações, que em geral é formada por bens elásticos (que varia percentualmente mais do que a demanda) caíram mais do que a nossa economia (que determina a demanda por bens importados). Além disso, a nossa economia teve um desempenho pior do que os nossos principais clientes, fazendo com que as importações caíssem 9,66%, apresentando um saldo de US$ 185,3 bilhões em 2019 e chegando a US$ 167,4 bilhões em 2020.

Geralmente, a balança de serviços é deficitária, em 2020 não foi diferente, porém seu saldo ficou 43,18% menor. Com a pandemia, houve menos comércio e viagens internacionais., então, os brasileiros acabaram gastando menos no exterior. As empresas multinacionais estrangeiras no Brasil tiveram menos lucro por conta da pandemia e, assim, remeteram um valor menor para as suas matrizes, melhorando o saldo de transações correntes.

Com toda essa aparente calmaria, o real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram no mundo. O dólar se valorizou em 29% (de R? 4,03/US$ em 31 de dezembro de 2019, para R$ 5,20/US$ um ano depois) no ano passado, estando longe de ter uma crise de balança de pagamentos. O que podemos apontar até esse momento é que esse aumento do dólar está ligado à percepção de risco pelos investidores e da falta de definição de quais políticas econômicas o governo vai trilhar e efetivamente aprovar. Privatização? Os últimos sinais são fortemente contrários, apesar de se continuar com um discurso favorável. Reformas econômicas? Agora que os novos presidentes da Câmara e do Senado já estão definidos, não há mais tempo para esperar, nem desculpas.

*Josilmar Cordenonssi Cia é graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas. É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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