Baiano relata discussão com peemedebista por propina na Petrobrás

Baiano relata discussão com peemedebista por propina na Petrobrás

Delator da Lava Jato diz ter debatido com o deputado Aníbal Gomes (CE), apontado como emissário de Renan Calheiros, que reclamou não estar recebendo repasses de Paulo Roberto Costa

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Ricardo Brandt

12 Novembro 2015 | 12h23

Fernando Baiano prestou depoimento à Lava Jato. Foto: Reprodução

Fernando Baiano prestou depoimento à Lava Jato. Foto: Reprodução

Em seu depoimento ao juiz da Lava Jato nesta quarta-feira, 11, o lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, relatou uma discussão que teria ocorrido entre ele e o deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE), apontado como emissário do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre as propinas na diretoria de Abastecimento da Petrobrás que deveriam ser repassadas para o PMDB.

Segundo Baiano, Aníbal Gomes o teria procurado para reclamar sobre atrasos nos repasses da diretoria de Abastecimento, que era cota do PP, mas a partir daquele passou a ser dividida com o PMDB também, para sua sigla. O encontro teria ocorrido entre o fim de 2006 e começo de 2007.

VEJA TRECHO DO DEPOIMENTO DE BAIANO AO JUIZ SÉRGIO MORO:

“Em uma reunião que o Aníbal e o Jorge (Luz, lobista investigado na Lava Jato) vieram a ter com o Paulo na Petrobrás, depois que saíram de lá eles pediram para conversar comigo. Eu encontrei com eles no restaurante, e ai o Aníbal veio me cobrando dizendo ‘A não porque a gente sabe que tem contratos na Petrobrás e a gente não está tendo acesso aos repasses relativos a esses contratos'”, contou.

“Aí eu disse, ‘uai filho, para mim isso é novidade, porque pelo que eu havia entendido vocês estariam apoiando o Paulo, mas vocês trariam o negócio (para a Petrobrás) de onde vocês estariam recebendo essas doações, vantagens indevidas'”, seguiu Baiano em seu relato ao juiz da Lava Jato. De acordo com delator, a partir deste momento houve uma discussão dele com o parlamentar e que, ao final, ele teria pedido ao político para resolver a situação com o diretor da estatal.

“A partir desse momento eu me afastei, foi a última vez que estive com Aníbal Gomes”, contou Baiano.

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Acusações. Não é a primeira vez que os delatores da Lava Jato relatam desentendimentos nas propinas envolvendo Aníbal Gomes. O próprio Paulo Roberto Costa, em sua delação premiada ao Ministério Público Federal no ano passado, acusou o parlamentar de lhe “passar a perna” em um acerto de R$ 800 mil para que o diretor ajudasse o Sindicato Nacional dos Mestres de Cabotagem e Contramestres em Transportes Marítimos a resolver um impasse com a Petrobrás.

“Ele (Aníbal) me procurou para poder agilizar o processo. Porque eu podia chegar lá e dizer: ‘Não vou ver isso. Talvez daqui a um ano.’ Eu podia fazer isso. Eu falei: ‘tá bom, Aníbal, vamos ver isso'”, contou o delator. “O Aníbal falou: ‘Paulo, esse aqui, se a gente conseguir resolver esse assunto aqui, você vai ter um ganho aqui de R$ 800 mil. Só que ele nunca me deu esse valor. Ele me passou a perna”, relatou o ex-diretor da Petrobrás aos investigadores da Lava Jato no ano passado.

VEJA O DEPOIMENTO EM QUE COSTA ACUSA ANÍBAL GOMES DE LHE PASSAR A PERNA:

A atuação do peemedebista no esquema de corrupção na Petrobrás surge, de acordo com os delatores, a partir de 2006, quando Paulo Roberto Costa fica doente e se licencia da diretoria de Abastecimento. Com isso, ele começou a perder prestígio e outros funcionários da diretoria passaram a disputar sua substituição do cargo. A partir daí, Baiano relata que foi buscar apoio do PMDB por meio do lobista Jorge Luz, investigado na Lava Jato, para manter Costa no cargo.

O lobista contou ao juiz Sérgio Moro que operava propinas para o ex-diretor e que obteve um retorno positivo do PMDB do Senado para manter o ex-diretor no cargo em troca de propinas. Até então, a diretoria abastecia somente o PP com propinas. “Ele (Jorge Luz, lobista investigado pela Lava Jato) me retornou dizendo que tinha fechado esse acordo de apoio ao Paulo e q esse apoio seria dado pelo PMDB do senado e que viria uma pessoa indicada por esses parlamentares pra tratar com o Paulo, essa pessoa depois eu vim a saber q era o deputado Aníbal Gomes

O próprio Costa confirma que passou a ter apoio do PMDB após ficar doente e admitiu que foi procurado por Aníbal Gomes. Segundo o ex-diretor, o parlamentar atuava em nome do presidente do Senado, Renan Calheiros, o que Calheiros nega.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO ANÍBAL GOMES:

O parlamentar voltou a afirmar, em entrevista ao Estado, que nunca representou Renan Calheiros, negou seu envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás e confirmou ter se encontrado com o lobista, mas disse que “nunca reclamou de dinheiro” com Fernando Baiano.

“Tinha mais de quatro pessoas na mesa quando fui apresentado a Baiano, nunca reclamei de dinheiro, só o vi uma vez no restaurante e não estava sozinho com ele. Nunca em momento algum discuti dinheiro com ele”, afirmou o deputado, que não soube confirmar em que ano se encontrou com o lobista que, segundo ele, foi apresentado como empresário do setor de petróleo.