‘Baal’, uma saga da imigração

‘Baal’, uma saga da imigração

Claudio Willer*

27 de junho de 2019 | 04h00

Claudio Willer. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sagas familiares e romances históricos costumam ser extensos. Basta lembrar os três avantajados volumes de uma obra exemplar da literatura brasileira, O tempo e o vento de Érico Veríssimo, relatando a história da família Cambará. Ou Os Buddenbrook de Thomas Mann, com 712 páginas na edição brasileira. Betty Milan não passa por cima do que importa, neste relato do que houve com Omar e seus descendentes, desde a metade do século 19 no Líbano até algum momento dos anos de 1960 em São Paulo, cobrindo quatro gerações. Porém mostra a mesma capacidade de alternar episódios do presente e evocações já exibida em obras como O papagaio e o doutor e Carta ao filho, desse modo fugindo a ditames da narrativa realista clássica, aquela que herdamos de Balzac. Vale-se, para tal, das evocações de um protagonista morto, filho de uma sobrevivente de combates entre clãs familiares que escapa do recrutamento à força em uma das guerras no Oriente Médio no final do século 19, e se radica no Brasil. A exemplo de conterrâneos, trabalha como vendedor ambulante, mascate, e em uma loja, para acabar como sucessor do antigo patrão – por sua vez, aniquilado por um drama familiar cuja gênese está nos arraigados valores da sociedade patriarcal. Ao enriquecer, erige um palácio, “uma jóia do Oriente no Ocidente”, cujo nome é Baal. Constrói-o para a filha única e sua família. Masseus netos confrontam-se e o primogênito, que assimilou algumas das piores características da elite local, dilapida o patrimônio deixado pelo avô. E assim, Omar vê a guerra do país de origem se repetir no país da imigração. Lúcido – e são introduzidas como epígrafe passagens que associam os mortos ao conhecimento -, porém incapaz de intervir, presencia o colapso do que havia erigido.

Mortos literários são multidão na Divina Comédia e em tantas obras afins à mitologia que retomam o tema da catábase, das descidas aos infernos para adquirir conhecimento. Mas como protagonistas de narrativas, expressando-se na primeira pessoa, são raros. Paradigmático é o Brás Cubas de Machado de Assis, oferecendo a biografia de alguém que não chega a lugar nenhum. Menos conhecido – e talvez secretamente inspirado em Machado – é o perverso protagonista de A chuva imóvel de Campos de Carvalho: incestuoso, pedófilo, homicida, necrófilo. Ambos, opostos do imigrante que chega sem nada ao Brasil do final do Império e, assim como outros dentre seus conterrâneos, enriquece, colhe os frutos de seu trabalho. A narrativa, em cores vivas, inclui relatos tocantes de como era a vida no Líbano e em um Brasil ainda escravocrata, alternadas com lamentos pelo que se passa no que seria um presente, já na década de 1960. Diferentes épocas e culturas são cotejadas, assim convidando o leitor a debruçar-se sobre o passado e a entender o presente; a enxergar o outro e, por decorrência, a si mesmo.

Omar é um tipo. Representa tantos patriarcas que viveram sagas como essa. Relatos da vida na terra natal e o recomeço em um novo país, com outra língua e cultura são recorrentes na literatura e em noticiários. Porém dotados de contornos cada vez mais sombrios, cada vez mais distantes da epopeia de Sindbad, o viajante afortunado, transmitida oralmente a Omar, ainda analfabeto, por seu amigo de juventude Uad. O que outrora foi saga, hoje tornou-se tragédia. Os que eram acolhidos no século 19, mesmo em condições precárias, entregues à própria sorte, agora são confinados ou escorraçados, a ponto de governantes quererem proteger territórios com cercas e muros – fingindo ignorar que os conterrâneos supostamente resguardados por sua vez tiveram origens em outros lugares.

Morto que não pode descansar, Omar culpa os descendentes que fazem pouco do amor filial e sentem vergonha de suas origens. São “memoricidas”, acusa-os, que “sucumbiram no fundo negro do esquecimento”; que tomam o caminho oposto àquele da anamnese, tal como valorizada por Platão. Tenta contrapor-se à iminente destruição através da rememoração. O todo tem características de anamnese, no sentido corrente do termo, aquele associado às entrevistas na psicologia e psiquiatria. São campos que a autora domina notavelmente, tendo criado narrativas, a exemplo de O papagaio e o doutor e Carta ao filho, alternando relatos do presente e evocações. Mas suas fontes são literárias, como bem mostra, entre outras de suas obras, no recentemente relançado O amor.

Mas o sentido originário do termo anamnese, tal como empregado por Platão, é invertido. Para o autor dos Diálogos, anamnese é a rememoração de vidas passadas; até chegar ao contato com a origem, a unidade primordial. Aqui, não: Omar ganha lucidez ao relatar sua própria história. O modo como o protagonista relata e ganha consciência é a consolidação do vínculo entre memória e conhecimento. Depois de acusar seus descendentes, percebe que também foi culpado, por ter deixado que uma tradição de opressão das mulheres nas sociedades patriarcais o cegasse. Reconhece que, por ter imigrado na condição de “mais pobre do que os mais pobres”, entregou-se à paixão do ganho e não se empenhou em transmitir aos seus o que sabia. Por preconceito em relação às mulheres, apesar do amor pela filha, não a preparou para ser a sucessora. Valeu-se dela para animar o palácio que construiu e ser uma princesa tradicional.

Baal, entre outros modos da leitura, pode ser interpretado como crítica à modernidade, ou a uma determinada concepção do progresso, simbolizada pelo casarão destruído e pela divindade tutelar adotada por Omar para nomear aquela mansão ou palácio: equivale a “Senhor” e ao Adonai hebraico, e foi associado a um deus fenício e cartaginês da fortuna e fertilidade, e também da destruição: Baal Hammon ou Baal Marcodés. Portanto, uma entidade ambivalente, de modo congruente com o destino do protagonista, que enriquece, mas acarreta destruição. Cabe, a propósito, introduzir o famoso fragmento de Walter Benjamin sobre o Anjo da História, inspirado em um quadro de Paul Klee. Esse anjo avança, viaja em direção ao futuro, observou Benjamin, porém olhando para trás. E o que ele vê são apenas ruínas. A destruição do palácio erigido por Omar é uma cena dolorosamente realista na São Paulo das últimas décadas. E uma metáfora, valendo como ilustração dessa visão pessimista do curso da História exposta por Benjamin e outros pensadores; e que, desgraçadamente, parece realizar-se.

*Claudio Willer, poeta, crítico literário e escritor

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