Avaliação do governo e do presidente Bolsonaro

Avaliação do governo e do presidente Bolsonaro

Rodrigo Augusto Prando*

01 de março de 2019 | 05h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

A semana que se finda trouxe os números da primeira pesquisa de avaliação do governo e do presidente Bolsonaro. A avaliação positiva é de 38,9%, sendo que 11,2% avaliam como ótimo, 27,7% como bom e, ainda, a avaliação negativa é de 19%, com 7,2% como ruim e 11,8% como péssimo. Os 38,9% expressos na pesquisa CNT/MDA é, comparativamente, a pior avaliação para um presidente em início de mandato, desde Fernando Henrique Cardoso. Fiz, a partir destes números, alguns comentários a jornalistas e, doravante, os sintetizarei neste artigo, mesclado a outros temas conectados.

Uma pergunta é se a “lua de mel” – jargão usado na imprensa para definir a alta popularidade de um presidente após a eleição – já teria passado em relação a Bolsonaro. Eu não diria que passou, mas que é, sem dúvida, uma lua de mel assentada em muita desconfiança, com cotidianos episódios de questionamento do tipo: “será que casei com a pessoa certa?”. E, por incrível que pareça, essa desconfiança ou reprovação mesmo do governo não vem de uma ação implacável das oposições no Congresso Nacional, tampouco de um cerco sufocante da mídia. Em grande parte, a agenda negativa do governo foi criada pelo próprio presidente, por familiares ou por seus ministros.

Bolsonaro, por exemplo, com já dois meses de mandato recusa-se a sair do palanque com sua retórica inflamada e slogan de campanha. Sobram, desde o discurso de posse, frases de efeito e faltam ações concretas. Claro que há uma forte aposta numa agenda positiva com a reforma da Previdência que, acertadamente, foi batizada de “Nova Previdência”, e com o pacote anticrime de Sérgio Moro (que já foi, com relação à criminalização do caixa 2, desfigurado e, alguns acreditam, será, nesse assunto, escanteada). Contudo, mesmo com a ação de Moro e de Paulo Guedes, o presidente insiste em não assumir a liturgia do cargo e firmar-se como líder que a situação do país reclama. O imbróglio, por exemplo, da demissão de Gustavo Bebianno e a participação direta de um de seus filhos é capaz de, com clareza absoluta, mostrar a confusão entre assuntos da vida privada, familiar, e assuntos de Estado. Esse foi, incontestavelmente, o episódio de uma crise gestada com carinho por Bolsonaro e os seus.

E os ministros de Bolsonaro? Em que pese a existência de vários núcleos ministeriais, alguns ministros são, sabidamente, bem ornamentados para criar declarações descabidas, sem sentido, equivocadas, preconceituosas ou inverídicas. Os mais assíduos nessa seara são: Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Vélez Rodríguez (Educação), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e Ricardo Salles (Meio Ambiente), só para ficarmos nos mais notórios. São titulações acadêmicas que são afirmadas e depois desmentidas, afirmações esdrúxulas, cartas pedindo filmagem do Hino Nacional com slogan de campanha, dificuldade de responder a perguntas simples de jornalistas, enfim, não são poucos os exemplos.

Em tudo, sempre fiquei com uma dúvida: será que isso não é premeditado? Não é possível chegar à condição de ministro de Estado e ter um comportamento tão raso em alguns casos, com evidente despreparo para a função de importância ímpar. Eu, quase sempre, tento compreender as falas e ações dentro de um contexto maior e não sou, peremptório, ao afirmar que a ignorância aliada à atitude é por demais perigosa. Eu sei que é, mas procuro ponderar e criticar e elogiar com parcimônia.

Vejamos, por exemplo, o ministro da Educação, que, em sua ação, de enviar carta às escolas, cometeu muitos equívocos, mas soube voltar atrás em tudo (e o menor problema era o de cantar o Hino…). O que fica é: qual o motivo de se fazer para, depois, desfazer tudo? Não é melhor consultar um conjunto de especialistas antes de decidir?

Sérgio Moro, que, no governo, é um ministro assaz importante, por ser um símbolo do combate à corrupção, fez convite e nomeou uma reconhecida especialista, Ilona Szabó, para função em órgão consultivo de seu ministério. Depois, por conta de repercussão negativa, Moro revoga a nomeação, não sem, antes, tecer elogios à atuação de Szabó. Um ex-aluno meu, nas redes sociais, disse-me que estava certo em revogar a nomeação, pois ela é antiarmamentista e crítica de Bolsonaro e de parte da política de segurança pública ora apresentada. E eu respondi ao meu aluno: você, que não é ministro, sabe da vida dela, será que o ministro não sabia?

No episódio – não na vida e na trajetória profissional – Moro saiu apequenado. Alguns outros ministros afirmaram que a nomeação deveria ser mantida, mas Bolsonaro, do palanque, e não do Planalto, bateu o pé e obrigou Moro a “desconvidar”. Claro que o presidente é quem manda, legitimado pelo voto, no entanto, há ministros e setores que se esforçam para avançar e são impedidos por atitudes voluntariosas e amesquinhadas que travam a tão esperada agenda positiva preponderante.

Seria, por fim, interessante que, de posse dos números da pesquisa, o presidente e seus ministros fizessem uma roda, para discussão e leituras. Poderiam discutir os dados da recente pesquisa de avaliação e, depois, quem sabe, lerem, todos, o livro O príncipe, de Maquiavel. Claro que há quem já tenha lido. Agora, ler e discutir com os colegas pode ser enriquecedor e, até, transformador, de visões e práticas.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp