Automedicação e improviso: em prédios pode ser fatal

Automedicação e improviso: em prédios pode ser fatal

Flávio Figueiredo*

02 Maio 2018 | 06h00

Flávio Figueiredo. FOTO: DIVULGAÇÃO

No âmbito da saúde, uma prática muito observada no Brasil é a automedicação. Para resolver um problema, a pessoa se dirige à farmácia e, sem prescrição médica, adquire os medicamentos que, em seu entendimento, irão aliviar os incômodos que a afligem. Isso pode trazer consequências bem graves, como ocultação de sintomas e a combinação inadequada de drogas.

As edificações também vêm sofrendo exatamente do mesmo problema: são ‘automedicadas’ por seus usuários. Troque a palavra farmácia por loja de materiais de construção e substitua receita médica por projeto e especificação e se estará face-a-face as inúmeras tentativas empíricas de se solucionar manifestações indesejáveis nos mais diversos tipos de construções.

Observamos ‘automedicações’ em todos os tamanhos, tipos e padrões de imóveis. Do mais simples barraco ao escritório em edifício de alto padrão, nenhuma construção parece estar imune a essa terrível prática.

O que encontramos com muita frequência: troca de disjuntores por outros com maior amperagem, quando os originais desarmam com frequência em razão de excesso de carga; trincas ou bolores escondidos com papel de parede; aplicação de argamassa em peças de concreto armado, sem critério técnico definido, para encobrir armaduras oxidadas; marquises ou outras estruturas em concreto armado deteriorado escondidos atrás de belas fachadas decorativas, em vidro ou alumínio, por exemplo; tubulações emendadas com fitas adesivas ou massa plásticas.

Os olhos não veem, mas nada disso elimina as suas origens. Muitas vezes as patologias são até agravadas ou continuam a se desenvolver de forma oculta e, de um momento para o outro, se manifestam com intensidades tão relevantes a ponto de levar a construção à ruína. À morte.

É preciso entender que as manifestações patológicas não ocultadas funcionam como indicadores das reais condições de segurança, além de fornecerem pistas para o diagnóstico de sua origem, mais uma outra razão para não serem escondidas.

Ainda na analogia com a medicina, edificações também são vítimas do uso de vitaminas e anabolizantes não prescritos. Perigo certo.

Nossas construções são submetidas a muitas intervenções que podem equivaler a doses letais de suplementos hormonais: de um simples benjamim, para ampliar a quantidade de tomadas em um ambiente, à colocação de caixas d’água adicionais, ou mesmo a construção de pavimentos extras sem quaisquer projetos e análises.

Perigo. As consequências podem ser muito graves. E aí o remédio fica mais amargo.

*Engenheiro civil, especializado em perícias técnicas, diretor da Figueiredo & Associados Consultoria, tem várias obras publicadas sobre o tema. No dia 7 de junho lança o livro que coordenou e do qual é um dos autores: Vistorias em Obras Civis – Aplicações a Administração de Ativos e Gestão de Conflitos

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