Automação e o futuro do trabalho no Fórum de Davos. E o Brasil, o que tem a dizer?

Automação e o futuro do trabalho no Fórum de Davos. E o Brasil, o que tem a dizer?

Nesta 49.ª edição do Fórum de Davos, não parece nada sensato que as lideranças presentes se furtem do reconhecimento de que o cenário mundial inspira preocupação

Arnaldo Francisco Cardoso*

22 de janeiro de 2019 | 14h37

O professor Arnaldo Francisco Cardoso, da Universidade Mackenzie. Foto: Divulgação/ Mackenzie

Com o tema ‘Globalização 4.0: Moldando uma Arquitetura Global na Era da Quarta Revolução Industrial’ a 49.ª edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, propõe a discussão sobre o avanço dos processos de automação da produção e suas consequências para o futuro do trabalho.

O fórum que reúne líderes políticos, empresários e executivos das mais importantes empresas no mundo, além de intelectuais, convidou para sua edição de 2019 o historiador e escritor holandês Rutger Bregman que ganhou muita visibilidade com a publicação de seu último livro “Utopia para realistas” em que trata dos impactos das transformações tecnológicas sobre o mundo do trabalho e endossa o alerta feito por vários outros estudiosos sobre o aumento da desigualdade no mundo.

No referido livro, depois de expor no primeiro capítulo sua fé no poder das utopias para provocar mudanças necessárias, Bregman apresenta, no segundo capítulo, sua mais controvertida proposta, a da criação da renda básica universal. Certamente não é uma ideia nova.

Sobre o tema, há importantes pesquisas acadêmicas realizadas por economistas e outros estudiosos pelo mundo, além de experiências concretas nesse campo, mas com o lançamento do livro de Bregman, escrito em linguagem mais acessível ao grande público e tendo já sido negociado o direito para publicação em 20 países, o tema ganhou maior atenção, inclusive levando-o para a mesa de discussão no Fórum de Davos.

Citando pesquisadores da Universidade de Oxford propõe que “pelo menos 47% dos empregos nos Estados Unidos e 54% dos da Europa correm alto risco de serem usurpados por máquinas. E isso não acontecerá daqui a um século, mas dentro dos próximos 20 anos.”

Na exposição de sua argumentação lembra que ao longo do século XX ganhos de produtividade e crescimento do emprego se deram com razoável paridade mas, por volta do ano 2000, começou a se dar o que economistas do MIT chamaram de ‘grande desacoplamento’.

Recorrendo a artigo de David Rotman (How Technology is Destroying Jobs) expõe o problema de que ‘a produtividade está em nível recorde, a inovação nunca foi tão rápida e, mesmo assim, temos a renda média em queda e menos empregos’.

Bregman discorre sobre o tema mostrando que hoje os novos empregos estão concentrados principalmente na parte mais baixa da pirâmide.

Tratando da crescente dificuldade de muitas pessoas em conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho, mesmo detendo uma boa formação escolar, que leva muitos a deixarem seus países, como é o caso de jovens tecnólogos espanhóis buscando postos em Amsterdã, engenheiros gregos em Sttutgart, uma miríade de jovens italianos no Reino Unido e, em situações ainda mais críticas, em economias periféricas, a aceitação de empregos precários, mal remunerados, como única alternativa ao desemprego.

Bregman argumenta que essa realidade faz com que o trabalho, cada vez mais, seja visto como fardo e consuma as energias do trabalhador sem desenvolver suas melhores potencialidades, resultando em baixa produtividade e crescente insatisfação.

Pode-se observar que, ao mesmo tempo, avança uma dinâmica de ‘competição’, com gaps de tempo, entre mão de obra barata e abundante e processos de automação. “A mão de obra asiática, africana ou até de robôs sempre sai mais barato. E enquanto ainda é mais eficiente (para as nações mais industrializadas) terceirizar para o exterior, utilizando o trabalho barato da Ásia e da África, no momento em que os salários e tecnologias desses países começarem a se aproximar dos que há nos países desenvolvidos, os robôs vão prevalecer lá também.”

Nesta 49.ª edição do Fórum de Davos, não parece nada sensato que as lideranças presentes se furtem do reconhecimento de que o cenário mundial inspira preocupação.

É sintomático que um dos fatos políticos dessa edição seja as ausências de Donald Trump, controvertido presidente da maior economia mundial; de Emmanuel Macron, presidente francês que enfrenta a mais grave onda de protestos desde o emblemático maio de 1968; de Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido que sofreu dias atrás histórica derrota no Parlamento ao apresentar proposta para saída do Reino Unido do bloco europeu, e de outras ausências como a do presidente argentino Maurício Macri que assumiu o governo três anos atrás com marcado discurso liberal e levou seu país a uma gravíssima crise econômica.

Quanto ao Brasil no fórum, o país se apresenta nesta edição sob o comando de um novo presidente, cuja eleição ganhou destacado espaço em jornais e noticiários de televisão em todo o mundo.

Sobre sua agenda para o evento, de acordo com entrevista concedida dias atrás, pelo ministro-chefe da Casa Civil a Jamil Chade, correspondente em Genebra do jornal O Estado de São Paulo, o presidente dará ênfase às suas propostas de reformas econômicas, com destaque para a da Previdência Social (depois de reforma trabalhista já realizada pelo seu antecessor) e um roteiro de privatizações, com um rol de empresas estatais a serem vendidas.

O que se pode inferir disto é que o país aposta mais uma vez na capacidade de atração de investidores como meio para promover a sempre desejada ‘retomada do crescimento’.

Entretanto, é cada vez mais urgente respostas equivalentes à gravidade dos problemas pois, como se tem visto, seus impactos não se restringem a performance econômica das nações, mas sim tem se mostrado degeneradores da vida social e da própria democracia em diferentes sociedades pelo mundo.

Como posto pelo historiador Rutger Bregman. “Não é a tecnologia em si que determina o curso da história. No fim, somos nós humanos, que decidimos como dar forma ao nosso destino. O cenário de desigualdade radical que se desenha no mundo não é a única opção.”

*Arnaldo Francisco Cardoso é pesquisador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville e atua nas áreas de comércio e relações internacionais.

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