Auditor da Dersa revela à Justiça ‘pagamentos em dinheiro’ na gestão Vieira de Souza

Auditor da Dersa revela à Justiça ‘pagamentos em dinheiro’ na gestão Vieira de Souza

Jefferson Rodrigues depôs nesta quinta-feira, 14, como testemunha de acusação do ex-diretor Paulo Vieira de Souza, réu por supostos desvios de R$ 7,7 milhões da Desenvolvimento Rodoviário S.A em desapropriações do trecho Sul do Rodoanel

Julia Affonso

14 Junho 2018 | 19h35

Paulo Vieira de Souza. FOTO: JF DIORIO / ESTADÃO

O gerente de auditoria da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A) Jefferson Rodrigues relatou nesta quinta-feira, 14, em depoimento à Justiça Federal ‘pagamentos de indenizações em dinheiro’ na empresa do governo de São Paulo no período entre 2009 e 2011, gestão do ex-diretor Paulo Vieira de Souza (Governos Serra e Alckmin). Rodrigues depôs como testemunha de acusação de Vieira de Souza, réu em processo por supostos desvios de R$ 7,7 milhões de programa de reassentamento nas obras do trecho Sul do Rodoanel.

“O depoimento do auditor que fez auditoria na Dersa confirmou a quantidade de irregularidades que existiam na época de Paulo Vieira, quando ele estava como diretor à frente da Dersa desde pagamentos de indenizações para pessoas que não tinham cadastro como deveriam ter, pagamentos em dinheiro dentro de um órgão público, dinheiro em espécie dentro de um órgão público, sendo utilizado e todas as demais irregularidades sem documentação comprobatória, tudo que ocorreu na época de Paulo Vieira”, afirmou a procuradora da República Anamara Osório, que participou da audiência na 5.ª Vara Federal Criminal, onde corre a ação contra o ex-diretor da Dersa.

Também foram ouvidas como testemunhas da acusação a economista Dayse Ferreira da Rocha e a assistente social Elisangela das Graças Moreira. A ação é presidida pela juíza Maria Isabel do Prado. A audiência durou cerca de duas horas.

A Procuradoria da República sustenta que Vieira de Souza detinha fortes poderes e influência dentro da Dersa. “Ele próprio (Paulo Vieira) fez questão de dizer na primeira audiência de custódia. Ele mesmo disse que tinha contato com a Dersa até hoje e de quem ele recebeu, da secretária de dentro da Dersa, recebeu a documentação relativa ao processo. Ele próprio fez questão de demonstrar que exerce influência e um domínio sobre todos os fatos”, disse Anamara Osório.

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, Vieira de Souza comandava o esquema que envolvia também dois ex-ocupantes de cargo em comissão na empresa, José Geraldo Casas Vilella, ex-chefe do Departamento de Assentamento da Dersa, e uma funcionária do setor, na época dos fatos citados na acusação. Também é ré uma irmã desta funcionária, e a psicanalista Tatiana Arana Souza Cremonini, filha de Paulo Vieira.

Segundo o Ministério Público Federal, os cinco são acusados por formação de quadrilha, peculato e inserção de dados falsos em sistema público de informação. Paulo Vieira de Souza, Geraldo Vilela e a funcionária participaram dos três eventos denunciados. A irmã da funcionária da Dersa e Tatiana participaram de um evento cada uma.

A Procuradoria da República afirma que quase 1800 pessoas foram inseridas indevidamente nos programas de reassentamento das três grandes obras relacionadas ao Rodoanel pela quadrilha supostamente liderada por Vieira de Souza

Algumas pessoas ‘receberam indevidamente auxílios, indenizações ou apartamentos da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), empresa parceira da Dersa nos reassentamentos’.

A Procuradoria afirma que parte dos pagamentos de indenizações teria sido realizada em dinheiro vivo. A versão foi confirmada pelo auditor arrolado como testemunha de acusação de Vieira de Souza.

“Quando se trata de dinheiro público, você tem que ter toda uma documentação do que se paga. Quando se paga em dinheiro, você perde essa documentação, você não sabe quem ganhou esse dinheiro”, alerta a procuradora Ana Cristina Bandeira Lins.

Na avaliação da procuradora regional da República, Janice Ascari, ‘as provas da acusação são fortes no sentido de confirmar os fatos da denúncia’.