Atuação na comunidade: estamos fazendo tudo o que podemos?

Atuação na comunidade: estamos fazendo tudo o que podemos?

Eliziane Gorniak*

27 de agosto de 2020 | 07h00

Eliziane Gorniak. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apesar de termos um povo muito solidário e otimista, uma pesquisa anual de opinião pública realizada em 18 países da América Latina (Latinobarômetro) aponta que apenas 4% dos brasileiros confia realmente nas pessoas e em nossas instituições. As pessoas acreditam e se envolvem com aquilo que conhecem bem, desconfiando de tudo o que não tem participação ou proximidade. E esse nível de desconfiança do brasileiro no próprio brasileiro é hoje uma das grandes fragilidades para o desenvolvimento do país. Nesse contexto, quando pensamos na sociedade civil organizada, ainda se vê muitas críticas e questionamentos a ONGs e instituições cuja finalidade é o bem social comum. Devemos enxergar que as organizações sociais representam os anseios de uma sociedade. Nada mais legítimo do que a oportunidade de ter a liberdade de fundar uma organização e lutar por uma causa, seja ela qual for.

No Brasil, o maior crescimento das organizações do terceiro setor, em especial aquelas que financiam e viabilizam as doações, aconteceu na década de 90. O Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), foi instituído como organização sem fins lucrativos, em 1995, e se tornou referência no país no tema do investimento social privado. São atualmente 160 associados que, somados, investem por volta de R$ 2,9 bilhões por ano na área social, operando projetos próprios ou viabilizando os de terceiros. Cada vez mais, esses associados têm aperfeiçoado e profissionalizado a gestão administrativa das organizações, assim como das iniciativas que realizam, investindo em equipes especializadas, na melhoria da governança, com  ações embasadas em diagnósticos, em planejamento e avaliações. Mesmo com o avanço desse trabalho mais estruturado e ordenado, é preciso seguir avançando. Devemos pensar no que de fato sustenta uma comunidade saudável e colaborativa, qual rede de apoio individual, comunitária e governamental é necessária para garantir que essa sustentação seja eficaz, não deixando ninguém para trás. E isso passa, em especial, por cada um de nós perceber que é preciso fazer a sua parte, com uma atuação individual e coletiva, organizada e até profissionalizada.

A pandemia da covid-19 descortinou uma situação triste: quando a sociedade não faz a sua parte, a população mais vulnerável é quem sofre, sob diversos pontos de vista, econômico, de saúde e educacional e, com isso, perdemos todos. Nos fragilizamos como sociedade organizada. Precisamos que todos, de um modo geral, se engajem mais com as comunidades em que pertencem, considerando os demais moradores do condomínio, rua e do bairro, buscando mecanismos para se organizar dentro de sua própria comunidade. Quanto mais atuação houver, vinda de todos os cantos, de pessoas físicas e jurídicas, mais cada um de nós conhecerá os problemas enfrentados e as dificuldades daqueles que já se dispuseram a atuar para solucioná-los. É certo que muitos que desejam colaborar não sabem por onde começar. Mas também é certo que não faltam oportunidades de atuação em rede, para se juntar a organizações que têm a expertise para isso, dedicando recursos, tempo ou talento à comunidade.

No Brasil, felizmente temos evoluído muito como sociedade civil organizada, é fato, mas ainda há muito por fazer. Que esse momento de dificuldades pelo qual todos passamos seja o catalisador de maior engajamento. Que esse período de pandemia nos estimule a refletir sobre como podemos aumentar nossa consciência social, nossa participação – enquanto empresa e enquanto cidadão – na nossa comunidade. Afinal, os efeitos benéficos desse tipo de comportamento se estendem não apenas a quem recebe a ajuda, mas também a quem pratica. Sentir-se útil e saber que está trabalhando por uma causa importante para outras pessoas produz reflexos importantes na nossa escala de evolução individual e coletiva, permitindo que se melhore a visão que se tem não apenas de si mesmo, mas de toda a humanidade.

*Eliziane Gorniak é diretora do Instituto Positivo.

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