‘Atos antidemocráticos são meus ovos’, diz Carlos Bolsonaro sobre divulgação de depoimentos à PF

‘Atos antidemocráticos são meus ovos’, diz Carlos Bolsonaro sobre divulgação de depoimentos à PF

Vereador reclamou nas redes sociais sobre reportagens baseadas em oitivas do inquérito; Estadão revelou que o blogueiro Allan dos Santos 'sugeriu' intervenção militar a assessor do presidente Bolsonaro e organizava reuniões com deputados aliados do Planalto

Paulo Roberto Netto

20 de setembro de 2020 | 13h18

O vereador Carlos Bolsonaro reclamou nas redes sociais sobre a divulgação de depoimentos colhidos pela Polícia Federal no inquérito que apura o financiamento e organização de atos antidemocráticos. O filho do presidente – que já foi ouvido – se manifestou horas depois de o Estadão revelar que o blogueiro Allan dos Santos organizava encontros em sua residência com deputados aliados ao Planalto.

No sábado, 19, o Estadão também mostrou que Allan sugeriu ‘a necessidade de uma intervenção militar’ ao tenente-coronel Mauro Cid, chefe da Ajudância de Ordem da Presidência e assessor do presidente Jair Bolsonaro. Em mensagem obtida pela PF, o blogueiro diz que ‘As FFAA (Forças Armadas) precisam entrar urgentemente’.

As duas reportagens foram baseadas nos depoimentos do próprio Allan dos Santos, do tenente-coronel Mauro Cid, do assessor especial da Presidência Tércio Arnaud Tomaz, apontado como integrante do ‘Gabinete do Ódio’, e do deputado federal Paulo Martins (PSC-PR).

Carlos Bolsonaro, vereador carioca (PSC-RJ) Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Atos antidemocráticos são meus ovos na goela de quem inventou isso! Milhares vão às ruas espontaneamente e devido a meia dúzia esculhambam toda a democracia. Tentam qualificar a vontade popular como algo temerário”, reclamou Carlos Bolsonaro. “DEPOIMENTOS SIGILOSOS vazados ilegalmente mais uma vez para manter uma narrativa de desgaste diário. A biografia e os bilhões de reais perdidos fazem isso com a vontade de uma nação! PQP!”.

Carlos Bolsonaro já foi ouvido pela Polícia Federal no inquérito. Em depoimento, ele disse que nunca utilizou verba pública para manter canais e perfis em redes sociais e que não é ‘covarde ou canalha’ para contratar ‘robôs’ para difundir conteúdo e omitir essa informação.

“Perguntado se se utilizou de robôs para impulsionamento de informações em redes sociais envolvendo memes ou trabalhos desenvolvidos pelo governo federal, respondeu que “jamais fui covarde ou canalha ao ponto de de utilizar robôs e omitir essa informação”, disse ele.

Intervenção militar. Neste fim de semana, o Estadão revelou trechos do depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, assessor de Bolsonaro, que foi confrontado com conversas mantidas com o blogueiro Allan dos Santos.

Segundo os investigadores, Allan dos Santos enviou no dia 31 de maio um link de reportagem ao militar sobre grupos denominados ‘antifas’ – à época, os manifestantes protestavam contra o governo Bolsonaro.

No dia seguinte, 1º de junho, o militar respondeu: ‘Grupos guerrilheiros/terroristas. Estamos voltando para 68, mas agora com apoio da mídia’.

Allan dos Santos replicou: ‘As FFAA (Forças Armadas) precisam ENTRAR URGENTEMENTE’, ao que o tenente-coronel respondeu com um ‘Opa!’. Mauro Cid foi questionado pela PF e disse que o seu ‘Opa!’ era ‘apenas uma saudação, como, por exemplo, Bom dia!’, e não tinha relação com as mensagens do blogueiro.

O teor da conversa com o tenente-coronel Mauro Cid contradiz depoimento do próprio Allan dos Santos à Polícia Federal, em junho. Na oitiva, o blogueiro afirmou que é ‘crítico à intervenção militar’ e que não participa ou organiza atos antidemocráticos. Allan disse que sua participação nos eventos ‘se restringe a atividade profissional como jornalista’ e não como manifestante.

Depoimentos colhidos pelos investigadores também apontam que Allan dos Santos criou um grupo de WhatsApp com objetivo de organizar reuniões semanais com deputados bolsonaristas em sua residência, no Lago Sul, em Brasília, ‘para discutir temas relacionados ao governo federal com pessoas que estão dentro do governo’.

As informações foram confirmadas pelo assessor especial da Presidência, Tércio Tomaz, apontado como integrante do ‘Gabinete do Ódio’.

Tércio Tomaz afirmou que ‘nunca’ participou dos encontros, mas que continuou no grupo ‘como forma de se informar de temas de interesse’.

“Indagado quem participava desse grupo, respondeu que se recorda de Paulo Eduardo Martins, Daniel Silveira (Deputado federal pelo PSL-RJ) e outras pessoas de baixo escalão do governo”, apontou a PF. Silveira prestará depoimento nesta segunda, 21.

As reuniões na casa de Allan dos Santos com parlamentares da base do governo também foram confirmadas pelo deputado federal Paulo Martins (PSC-PR), ouvido na última terça, 15. Ele disse à PF que integrou um grupo no WhatsApp chamado ‘Gengis House’ e que ‘acredita ter participado’ de um único encontro na residência do blogueiro, no ano passado.

Estavam presentes, segundo o parlamentar, os deputados Bia Kicis (PSL-DF) e Filipe Barros (PSL-PR), ‘além de outras pessoas, mas não se recorda no momento’.


“Indagado sobre os assuntos que eram tratados nessas reuniões, respondeu que tratavam sobre pautas conservadoras e articulações políticas para viabilização de tais pautas”, apontou a PF. Paulo Martins citou a ‘reforma da previdência’ como exemplo. “Indagado sobre quais assuntos eram tratado nesse grupo de WhatsApp, respondeu que eram abordados temas políticos, de comunicação, de acontecimentos e assuntos de interesses gerais que tinham repercussão”.

Allan dos Santos é investigado no inquérito que apura o financiamento e organização de atos antidemocráticos. Ele alegou em julho ter deixado o Brasil. Investigadores suspeitam que ele tomou voo que saiu de São Paulo com destino ao México no dia 27 de agosto – não é confirmado se o país era o destino final do blogueiro. À época, o blogueiro havia sido alvo de buscas e teve as redes sociais bloqueadas por ordem do ministro Alexandre de Moraes.

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