Atividades de M&A batem recorde no Brasil, mas investidor ainda precisa de melhor perspectiva para o longo prazo

Atividades de M&A batem recorde no Brasil, mas investidor ainda precisa de melhor perspectiva para o longo prazo

Alexandre Pierantoni*

23 de abril de 2021 | 04h00

Alexandre Pierantoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

A retomada das atividades de fusões e aquisições (M&A) no Brasil, verificada a partir de junho de 2020 em meio à pandemia de Covid-19, não apenas ganhou fôlego no primeiro trimestre deste ano como parece ter consolidado uma tendência de crescimento acentuado que já deve se estender para os próximos meses. Não se trata apenas de um avanço nas operações, mas de um processo constante que não para de registrar recordes – com destaque ao apetite de investidores nacionais. Em 2020 o país registrou mais de 1150 operações, já ali um volume recorde de atividade. Investidores financeiros (private equity, venture capital e family offices) investiram intensamente na economia real, aportando mais de R$ 24 bilhões em empresas em diversos segmentos – com destaque ao setor de tecnologia e suas derivadas agro, varejo, logística, saúde e educação, mas também ao setor de alimentos e consumo e business-business.

Os números do mês de março deste ano comprovam o bom momento das atividades de M&A no país: 159 transações anunciadas – um aumento de 27,2%, em relação ao mês anterior, com investimentos de R$ 30,7 bilhões. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o crescimento foi de 224,5% no volume e de 108% nos investimentos.

Na análise trimestral, confirma-se que as atividades de M&A devem bater novo recorde em 2021. Já foram registadas este ano 363 operações, e investimentos de R$ 153,6 bilhões, com crescimento de 71,2% no volume e de 96% no valor, em relação ao mesmo período do ano passado. No acumulado dos últimos 12 meses, registra-se o crescimento de 21,8%, com 1.302 operações, em comparação com o acumulado de um ano atrás.

O volume de operações do mês de março resulta de contínua atividade de M&A nos setores de Tecnologia da Informação (55% do total, ou 87 transações), Alimentos e Bebidas (7%, 11 operações); e Instituições Financeiras (7%, 11 operações), na ordem, os setores mais ativos e nos quais os investidores nacionais predominaram. E o peso da tecnologia em todos estes setores só aumentou nos últimos meses, o que está definitivamente criando um círculo virtuoso de investimentos e inovações.

Também é animadora a constatação de que, no acumulado do ano, se sobressaíram os investidores nacionais, com 297 negócios registrados, um crescimento de 69,7%, e o montante de R$ 113,2 bilhões, 104,5%. Em março, por exemplo, a maior transação foi a compra do Grupo BIG Brasil (R$ 7,5 bilhões) pelo Carrefour Brasil. A segunda maior operação foi o aporte de US$ 425 milhões na startup de compra, reforma e venda de imóveis Loft. Os investidores financeiros investiram no primeiro trimestre de 2020 mais de R$ 10 bilhões de reais – o dobro do mesmo período do ano anterior; e com destaque para investimentos de venture capital e em empresas de tecnologia, que representaram 80% do valor).

As perspectivas para o restante do ano seguem a caminho de novos recordes. Só para abril, já há sete IPOs, avaliados, ao todo, em mais de R$ 13 bilhões. O mercado de capitais está arisco e seletivo, mas há perspectiva de que a CVM analise nos próximos meses mais de 40 ofertas. O momento é extremante e positivo e tem se auto-alavancado em novos investimentos. Taxas de juros que estimulam o investimento na economia real e aumento ao apetite ao risco, liquidez global e a perspectiva de recuperação das economias.

Os setores de agronegócios, varejo, financeiro, de saúde e educação, se reinventaram e criaram boas oportunidades de investimento – a incorporação de tecnologia criou “novas empresas”. E o mercado de capitais brasileiro, com liquidez e em um cenário de taxas de juros reais que estimulam o investimento mais associado ao risco, contribuiu para esse movimento bastante positivo de fusões e aquisições.

Os avanços no setor de M&A, no entanto, dependem também de melhorias no cenário macropolítico e macroeconômico, e mesmo de ESG, por parte das lideranças políticas do país. Mesmo com alguns recentes avanços, a aguardada agenda de privatizações e de concessões custa a sair do papel. A vacinação em massa, realidade em diversos países inclusive vizinhos ao Brasil, como o Chile, ainda patina na falta de organização interna.

Esses são fatores que não podem ser negligenciados e que precisam se somar à necessidade de alinhamento entre todas as esferas de governança política. O investidor, especialmente o estrangeiro, quer e precisa ter uma visão de longo prazo do Brasil. Sem esses direcionamentos e essas respostas urgentes, dificilmente essa perspectiva se sustenta. Menos intervencionismo e mais coordenação: precisamos disso para ontem.

*Alexandre Pierantoni, diretor da Duff & Phelps no Brasil

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.