Atestados rubricados pelo negacionismo governamental

Atestados rubricados pelo negacionismo governamental

Marcelo Copelli*

06 de março de 2021 | 07h30

FOTO: MARKUS DISTELRATH/PIXABAY

Em meio à pandemia de Covid-19, após quase um ano, o Brasil ainda se assemelha a um barco à deriva, sem a menor perspectiva de seu tão esperado resgate. Autoridades discutem até que ponto medidas restritivas podem ou devem ser tomadas, trazendo no bojo dos debates a prioridade entre a sobrevivência do indivíduo ou da economia, sem obrigatoriamente apresentarem alternativas minimamente conciliatórias.

Ao longo dos últimos meses, nos quais inúmeras fragilidades foram expostas, norteadas pela agonia e pelo desespero, o País sofreu com o desgoverno federal e ainda testemunha o exercício diário de uma necropolítica efetivada a cada declaração presidencial, que em momentos de inúmeras demandas, envereda pela desconstrução de valores, pela contramão fatal rumo ao caos e pela perseverante ideologia calcada em suposições que ameaçam o futuro.

Enquanto verdadeiros líderes buscam promover a coesão entre os seus, buscando respostas e lutando pela manutenção da vida, estarrecida, a sociedade brasileira curvada ainda assiste atônita os clamores já quase roucos da Ciência diante das indispostas recomendações e dos maus exemplos do presidente da República, incitando aglomerações sob a mira perversa e debochada de sua roleta russa e da rasa justificativa de que as máquinas não podem parar.

No leme da nação, o comandante eleito ratifica que nunca assumiu, de fato, o seu papel, conduzindo e buscando unir diferenças rumo à instauração de um horizonte seguro. Pelo contrário, demonstra que é capaz de rir diante do possível naufrágio da embarcação.

O mandatário apostou no negacionismo, na falida e gasta receita sem eficácia e na agenda da desinformação para ludibriar os que ainda sobrevivem. E suas moedas de jogo foram vidas.

De forma insensível, permanece ignorando o sofrimento de famílias e minimiza milhares de óbitos, cujos atestados certamente estampam a sua rubrica, o seu sarcasmo e as lágrimas das vítimas.

“Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo”.

Mas, contrariando o governador da província romana da Judeia, no Brasil nem lavar as mãos o atual e ainda gestor assim faria, pois isso seria corroborar com as medidas de proteção recomendadas em tempos de pandemia. Perde-se a vida, mas não a razão, segundo a sua torta concepção.

Resta saber como chegou-se à beira deste precipício e quantos ainda terão que pular. Triste a constatação de que, para muitos, nem mesmo a pandemia foi capaz de ressignificar valores.

*Marcelo Copelli, jornalista, editor, analista político e pesquisador na área de Comunicação

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