Atenção, pelotão feminista: homens ao centro!

Emanuela Carvalho*

26 de setembro de 2018 | 10h00

A história não engana. Os homens são o centro das atenções, mesmo quando não deveriam. É impressionante como até as discussões sobre feminismo trazem o homem a um papel de destaque – mesmo sendo ele o machista que se tenta rebater.

Talvez, se lembrássemos dum ditado antigo, mas muito sábio: “falem mal, mas falem de mim”, teríamos mais consciência do poder que damos, nós mulheres, aos homens, tirando-os, quando necessário, do papel de invisibilidade que eles deveriam ser sujeitados, e trazendo-os ao centro.

Os últimos dias são o retrato fiel desse pensamento. As redes sociais estão repletas de mulheres que usam o seu tempo e a sua energia para debater entre si – sim, entre si!!! Mesmo diante do esforço enorme de uma horda de feministas para tentar provar que mulheres não são rivais – sobre um homem.

O homem está no centro.

Então, ficamos nós, mulheres, elucubrando se esse homem, destaque em tantas vidas femininas, apóia ou não as mulheres. Que interessa? Quem é esse cidadão , que de tão importante não consegue ser posto no lugar da indiferença, mas do contrário, é fruto de disputas e rivalidades desnecessárias e infundadas? Por que nós, mulheres, não vamos buscar o destaque mútuo para mulheres que o mereçam?

Sim, os homens estão ao centro. Esse homem não é o único. Dados mostram que, na política, mulheres ocupam pouco mais de 10% das cadeiras na Câmara Federal. Nas Câmaras municipais, somos menos de 15%. Vale lembrar que, desde 2009, as candidaturas de mulheres aos cargos legislativos devem representar 30%. Sim, esse último fato ajudou a vermos mais mulheres candidatas, mas não nos enganemos, os dados também mostram que os investimentos nas candidaturas femininas por parte dos partidos são menores em relação aos investimentos nas candidaturas de homens.

“Mimimi” de feminista? Nem de longe. Os dados não mentem.

E o que fazer diante dessa situação? Primeiro passo, tirar o homem do centro. É difícil perceber o quanto o machismo, tão forte que é, vai minando a capacidade da mulher de tomar iniciativas, de se sentir forte e representada, fazendo-a acreditar que o homem valida o pensamento, toma a iniciativa e age sempre corretamente – é o dono da razão.

E tirar do centro nada mais é do que dedicar ao homem machista a indiferença. Discutir, com ímpeto, se ele é ou não machista é irrelevante, já que os atos, o discurso, falam por si. Se alguém não percebe é porque precisa de esclarecimentos muito mais profundos do que um simples convencimento de que o cidadão é machista. Se algumas mulheres têm dificuldade em reconhecer isso, é porque nós, feministas, temos um longo trabalho pela frente, e ele não passa pelo convencimento, mas pela reeducação, pelo esclarecimento, pela luz!

E então, mulheres, vamos abrir espaço, mudar as regras do jogo, e definitivamente trazer a nós mesmas ao centro?

*Emanuela Carvalho é professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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