Atenção integral à saúde da mulher

Atenção integral à saúde da mulher

Marianne Pinotti*

18 de julho de 2022 | 11h45

Marianne Pinotti. FOTO: DIVULGAÇÃO

Acompanhamos nos últimos anos a real diferença que o Sistema único de Saúde (SUS) faz para nosso país e o quanto ele importa para todos nós. Assistimos – angustiados e ao mesmo tempo orgulhosos – profissionais da saúde tornarem-se verdadeiros heróis no enfrentamento da pandemia da Covid 19, demonstrando ética e altruísmo no tratamento dos pacientes mesmo em condições algumas vezes subumanas. Rendo aqui minhas mais sinceras homenagens a essas mulheres e homens.

Por que então tantas queixas? Por que a saúde perto de eleições é sempre uma demanda importante da população e, governo após governo, isso não muda? Vou tentar, nas próximas linhas, contar a história de um SUS que deu certo, um modelo que funciona, usando como exemplo o Hospital Pérola Byington em São Paulo, onde trabalhei por 15 anos com meu Pai, Dr. José Aristodemo Pinotti, que lá implantou o Programa de Atenção à Saúde da Mulher (PAISM) na década de 1990.

A aplicação prática do conceito de atenção integral à saúde requer uma série de condições que incluem a vontade política, estímulo e treinamento da equipe de saúde, bem como a organização do sistema, de acordo com os modelos descentralizados, com regionalização, hierarquização das ações de saúde e delegação de funções.

O ponto de partida está na integração das ações de saúde durante as consultas médicas motivadas por determinada sintomatologia. Em outras palavras, precisamos aproveitar a vinda do paciente para acrescentar ações que visam a prevenção, a detecção e o diagnóstico precoce.

Com essa ideia, no Hospital Pérola Byington (HPB) estruturou-se um microssistema de saúde voltado para a mulher com as características acima descritas, mas que acabou expandindo-se além do planejado e atendendo uma quantidade expressiva de mulheres (cerca de 600 mil).

Os resultados da aplicação prática do conceito de saúde integral em São Paulo foram perceptíveis (HPB), de 1991 a 1998, ou seja, em oito anos conseguimos criar o modelo e demonstrar sua eficiência e possibilidade de multiplicação, tendo atingido grande parte dos seus objetivos ao oferecer dos mais simples atendimentos às mais complexas tecnologias diagnósticas e terapêuticas disponíveis.

Como fizemos? Eu gostaria de enfatizar a organização de um novo modelo de atenção primária à saúde da mulher, que põe em prática o conceito de integralidade e “horizontalização” de ações de saúde, combatendo as diferentes armadilhas e burocracias que impedem a prática de uma prevenção real e coerente.

Nossa equipe era formada por diferentes profissionais de saúde, inclusive médicos, que trabalhavam em conjunto para alcançar o seu objetivo, usando as estratégias de integração de ações e delegação de funções de acordo com as habilidades tradicionais e aquelas obtidas mediante treinamento.

Como o número de pacientes diagnosticadas era muito grande, cada patologia se transformava em um programa específico para as pacientes que apresentavam resultados positivos. Cada um desses programas era coordenado por um médico, abrangendo também delegação de funções e organização de grupos de mulheres de acordo com a sua doença (diabetes, hipertensão, obesidade, incontinência urinária, osteoporose, DST, etc.).

A consulta médica se completava em outros setores do hospital, como na farmácia, onde, enquanto recebia seus medicamentos, a paciente era novamente orientada ou, ainda, nos laboratórios onde as amostras eram coletadas e ela tinha acesso a novas informações. E todas saiam com seus retornos agendados, os exames negativos eram enviados pelo correio, com a devida interpretação, para evitar deslocamentos desnecessários das pacientes.

A burocracia era minimizada por essa organização. Os resultados do programa – no seu conjunto – demonstram a viabilidade dessa organização estratégica na detecção das principais patologias entre as mulheres, a possibilidade de diagnosticar e tratar a demanda oculta.

A condição fundamental para se obter a integração da demanda das mulheres por serviços de atendimento à saúde com as intervenções epidemiológicas para atingir “uma abordagem global” na atenção primária é a delegação de funções a diferentes membros da equipe de saúde.

Considerando os resultados positivos obtidos, estou convencida de que a delegação de competência aos vários membros da equipe de saúde ajuda a atingir simultaneamente qualidade, economia, atenção integral e universal.

Analisando-se os resultados, constatamos que este modelo atinge ao mesmo tempo viabilidade econômica, uma maior abrangência com significativa redução na burocracia, melhora da qualidade e importante aumento na cobertura. É um modelo de baixo custo que aumenta significativamente o percentual de diagnósticos precoces das patologias femininas com características de problemas de saúde pública, influindo dessa forma favoravelmente na diminuição da morbiletalidade e na qualidade de vida das mulheres.

Ele pode, nos seus princípios e na sua estratégia, ser facilmente reproduzível em homens adultos e crianças. Infelizmente, esse programa foi descontinuado em 1999, baseado nas novas políticas sanitárias adotadas no país e hoje o Hospital Pérola Byington tornou-se mais um no atendimento de câncer de mama e ginecológico, sem qualquer trabalho na área de atenção integral. Hoje ele se mantém vivo no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) da UNICAMP e é reproduzido em outros países.

Precisamos prezar pela qualidade e garantir quantidade, ou seja, a qualidade não pode ser considerada se não incluir a tendência à universalização do benefício. Meu pai, Dr. Pinotti, sabiamente dizia que “precisamos saltar o enorme fosso que existe entre o que sabemos e o que oferecemos em saúde para aqueles que dependem da saúde pública em nosso país”.

Esta utopia me move a continuar lutando, ao lado dos profissionais do SUS.

*Marianne Pinotti, 54 anos, ginecologista, obstetra e mastologista

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