Até quando limparemos o chão?

Até quando limparemos o chão?

Erica Machado de Melo*

30 de abril de 2021 | 04h00

Erica Machado de Melo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Segundo a filósofa Lúcia Helena Galvão, a humanidade se divide em três grupos: os que destroem tudo, os bem-intencionados e os que olham para cima. Ouvi essa reflexão em uma de suas palestras há alguns anos e, desde então, faço uso dessa história em diversas situações.

Em suas palestras, Lúcia fala sobre uma casa que tinha um buraco no telhado e que, quando chovia, virava uma goteira e alagava o chão da sala. O cômodo molhado era alvo da ação de um grupo que ela classifica como destruidores. Essas pessoas chegavam, sapateavam na água, que virava lama e, depois de sujarem tudo, iam embora. Depois, chegava o grupo dos chamados bem intencionados. Eles vinham munidos de baldes, panos e vassouras e limpavam tudo. Ficava tudo perfeito! Quem chegava na casa nem percebia o que havia acontecido. Pronto, o problema estava resolvido. Mas, infelizmente, o alívio era temporário. Logo vinha uma outra chuva forte e a casa voltava a ficar cheia de água. E o processo se repetia! Então vinham os baderneiros e os bem-intencionados novamente.

A situação se repetia rotineiramente até que um dia, depois de uma forte chuva que parecia não terminar nunca, a casa alagou mais do que nas outras vezes. Ah, os baderneiros fizeram a festa e instauraram o caos. Mas, dessa vez, para a surpresa de todos, surgiu um terceiro grupo que decidiu parar e avaliar o problema com todo cuidado. É bem verdade que eles também limparam tudo. Afinal, como bem sabemos, é impossível pensar com clareza em meio à bagunça e ao caos. Mas algo mudou e elas resolveram olhar para o alto e se questionar sobre a origem da goteira. Elas se uniram, consertaram o telhado, depois reformaram o teto e o problema foi resolvido. Os baderneiros não conseguiram mais destruir e os bem intencionados direcionaram as energias para outras atividades.

Essa história simples e repleta de sabedoria tem uma simbologia muito forte. Ou seja, nós sempre precisamos olhar para o alto e pensar a origem do problema. Afinal, em nossas vidas, nos deparamos com pessoas que se encaixam nesses três grupos: aqueles cuja única intenção é tumultuar, dificultar, causar o caos e o desespero; as que querem resolver mas que, infelizmente, nem sempre conseguem dar um fim ao problema. E alguns poucos que buscam, de forma efetiva, por uma solução. A verdade é que o problema surge, arrumamos tudo, mas ficamos sempre com a sensação de que, na próxima crise, teremos que começar tudo de novo. Quando isso terá fim?

Qualquer semelhança com o nosso país não é uma mera coincidência. Hoje, vemos empresas, instituições, ONGs e cidadãos comuns se unirem em um sem-número de ações em prol de um grupo de brasileiros que cresce sem parar: o das pessoas que passam fome. Vemos exemplos comoventes de campanhas e iniciativas, muitas vezes, criadas e desenvolvidas por quem também tem muito pouco a oferecer. É quando acreditamos que realmente existe alguma esperança onde tantos ainda tentam semear o caos. Mas sabemos também que esses gestos são paliativos. Por mais bem intencionados que todos nós sejamos e, efetivamente, criemos ações para suprir as necessidades mínimas dessas pessoas, a fome cresce de forma avassaladora em nosso país. Diariamente, aumenta o número de pessoas que perderam seus empregos, que não conseguem mais levar recursos para casa a partir dos trabalhos informais que não mais existem e que vivem nas ruas pela falta de condição de pagar o aluguel de uma casa. É certo que precisamos “limpar o chão”, mas precisamos começar a olhar para cima e consertar essa goteira rapidamente.

É urgente a criação de um programa nacional que gere empregos a partir da abertura de frentes de trabalho e do estímulo aos empresários que sofrem com uma pandemia que não tem fim e se agrava mês a mês. São milhões de brasileiros que perderam seus empregos e precisam de um trabalho e de um salário que custeie suas necessidades mínimas para sobreviver. Não falamos mais de viver, falamos em sobreviver. É imprescindível que seja firmado um pacto nacional, unindo as três esferas de governo e a sociedade civil em um “plano de guerra” contra o desemprego e a fome. Uma iniciativa robusta que chegue ao sertão nordestino e crie fontes e financiamento e programas de orientação para que os moradores consigam gerar recursos a partir da disseminação de técnicas efetivas para o plantio e a criação de animais. Que seja criado nos estados da região norte um programa efetivo de agricultura sustentável, que sejam lançadas iniciativas que contemplem os moradores dos estados do centro-oeste com subsídios para o desenvolvimento da agricultura em pequenas faixas de terra e que fomente o desenvolvimento industrial nos estados do sul e do sudeste.

Precisamos de uma união nacional, com as principais mentes pensantes deste país na liderança, para que, sem demagogia ou disputas políticas, consigamos em meio ao caos gerado pela pandemia e pelo agravamento da situação sanitária em todo o país, implementar iniciativas que gerem emprego e combatam a fome, “estancando de uma vez essa goteira” que há décadas insiste em pingar e “alagar” tudo. Parece algo difícil? Sem dúvida! Mas, “ficar limpando o chão a cada temporal” também é. Quem quer pensar comigo?

*Erica Machado de Melo é presidente do Sindicato das Indústrias Mecânicas e de Material Elétrico do Município do Rio de Janeiro – SIMME

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.