‘Assunto relacionado com o contato do escritório com o juiz’

‘Assunto relacionado com o contato do escritório com o juiz’

Operação Ponto Final, que pegou a cúpula do Transporte do Rio por suspeita de corrupção, recupera e-mail de outubro de 2011 do diretor financeiro do Sindicato das Empresas do setor para empresário Jacob Barata, o 'Rei do Ônibus' em que combinam reunião que 'não deverá demorar muito'

Julia Affonso

24 de julho de 2017 | 05h00


Quebras telemáticas da Operação Ponto Final, que prendeu a cúpula do Transporte do Rio, identificaram um e-mail de 20 de outubro de 2011 no qual o diretor financeiro do Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro (Rio Ônibus), Eneas da Silva Bueno, pede que o empresário Jacob Barata Filho, o ‘Rei do Ônibus’, compareça a uma ‘reunião no escritório de advocacia para tratar do contato do escritório com o juiz’. A mensagem, recuperada depois que a Ponto final saiu às ruas, foi indicada pelo Ministério Público Federal ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal, como um dos ‘novos elementos de prova’ da investigação.

Documento

Documento

A RioÔnibus é presidida por Lélis Marcos Teixeira e tem como vice-presidente Octacílio de Almeida Monteiro. Os dois e também Eneas e Barata estão presos na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, Rio.

Banco deposita R$ 10 milhões de Adriana Ancelmo na conta da Justiça

O e-mail foi enviado por Eneas às 17h54 de 20 de outubro de 2011 com o título ‘Reunião Escritório Sergio Bermudes’. “Caro Sr. Jacob Filho, a pedido do Dr Lelis, indago se o amigo pode comparecer ao escritório do Dr. Sergio Bermudes hoje, dia 20 de outubro de 2011, às 19:30 horas. O assunto está relacionado com o contato do escritório com o juiz e não deverá demorar muito. Aguardo retorno. Att, Eneas Bueno.”

+ Lava Jato em SP já tem 12 inquéritos

Tem que ter coragem para processar poderosos, diz procuradora da Lava Jato em SP

 

Além da mensagem enviada por Eneas, a Ponto Final apreendeu ‘diversos e-mails’.

Segundo os investigadores, as mensagens indicam que Eneas atuava como operador financeiro da cúpula do Transporte do Rio.

“Todas essas mensagens, em conjunto com os elementos de prova já juntados aos autos, demonstram que Eneas da Silva Bueno exercia importante papel na interlocução dos empresários de ônibus, especialmente Jacob Barata Filho, com o poder público, sempre valendo-se de seu cargo na Rio Ônibus, o qual exerce até os dias atuais”, afirma a força-tarefa do Ministério Público Federal, no Rio.

Uma testemunha da Ponto Final narrou que os dois ‘sempre estavam juntos para receber o dinheiro’. Segundo a Procuradoria da República, Eneas e Octacílio ‘eram vistos como parceiros inseparáveis na atividade operacional financeira da organização criminosa’.

“Há fortes indícios de que Eneas da Silva Bueno atua como braço operacional dos responsáveis há anos pelas principais entidades sindicais patronais que representam os interesses dos empresários do setor de transporte público no Rio de Janeiro, tais como a Fetranspor e o Rio Ônibus e que se valem de arraigado poder político e econômico para corromper a máquina pública em prejuízo da sociedade fluminense, obtendo favores dos gestores públicos para aumentar os seus lucros, não obstante a notoriedade do precário serviço público que exploram e a baixa renda da maioria dos usuários desse serviço”, destaca a Procuradoria.

Uma planilha entregue por um delator da Ponto Final aponta 178 referências de entregas de valores a Eneas, no período de 19 de julho de 2010 a 29 de fevereiro de 2016, em quantias que variavam de R$ 10 mil a R$ 1,045 milhão totalizando R$ 14.299.840,00. Outra tabela indicou cinco referências ao nome “Enea” relativas às entregas de valores entre R$ 363.086,00 e R$ 500 mil, totalizando R$2.163.086,00 entre 13 de março de 2015 a 27 de março de 2015.

Uma troca de mensagem apreendida pela Ponto Final aponta que Eneas encaminhou a Jacob Barata Filho, a pedido de João Augusto Morais Monteiro, uma planilha com os valores ressarcidos às empresas de ônibus pelo município do Rio em razão da gratuidade concedida aos alunos municipais. Monteiro está em prisão domiciliar desde 12 de julho.

Em outra mensagem enviada por Eneas a Barata Filho, em 24 de novembro de 2011, é mencionada ordem judicial que determinou a arrecadação de veículos da empresa de ônibus “Amigos Unidos” e a expedição de ofícios à Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja), Detran e Registro Geral de Imóveis (RGI). No texto, Eneas afirma ‘penso que está na hora do sr. Álvaro se movimentar’. Segundo os investigadores, trata-se do doleiro Álvaro Novis, delator da Ponto Final.

“No ano de 2011, o colaborador Álvaro Novis estava em franca atividade na administração da contabilidade paralela das empresas de ônibus, sendo possível inferir que a expressão “Penso que está na hora do Sr. Álvaro se movimentar” diz respeito à entrega de valores em espécie para alguma autoridade pública”, anotam os procuradores da força-tarefa.

Custódia. As mensagens obtidas com a quebra telemática foram usadas pelo Ministério Público Federal para pedir a prisão preventiva de Eneas da Silva Bueno em 11 de julho. O diretor financeiro da RioÔnibus estava preso temporariamente. No dia seguinte, o juiz Marcelo Bretas decretou a custódia por prazo indeterminado.

“Na fase atual da investigação, o Ministério Público Federal apresenta robustos elementos de prova que alcançam os delitos de corrupção e organização criminosa”, anotou Bretas. “Presentes os pressupostos e as circunstâncias autorizadoras decreto a prisão preventiva de Eneas da Silva Bueno e assim o faço para garantia da ordem pública e para assegurar a aplicação da lei penal.”

COM A PALAVRA, O ESCRITÓRIO SÉRGIO BERMUDES

Nesta segunda-feira, 24, o advogado Sérgio Bermudes informou à reportagem que a reunião discutiu ‘um assunto gravíssimo’. O advogado afirmou que tratava-se da extensão de uma falência de uma empresa.

“Nós nos reunimos, porque um juiz da 1.ª Vara Empresarial decretou falência de uma empresa que não é nossa cliente e estendeu a dois consórcios. Esses consórcios pediram nossa interferência, nos constituíram advogados. Fizemos mais de uma reunião para discutir o problema. Foi uma decisão muito séria. Nós fomos ao juiz que era o substituto conversar”, declarou.

Tudo o que sabemos sobre:

Operação Ponto Final

Tendências: