Assim como no tempo de Nietzsche, ainda veneramos ídolos ocos?

Assim como no tempo de Nietzsche, ainda veneramos ídolos ocos?

Saulo Krieger*

10 de julho de 2020 | 12h16

Saulo Krieger. Foto: Divulgação

Outro dia me perguntaram se ainda veneramos ídolos ocos – receio dizer, tudo indica que o faremos ainda por muito tempo. Pergunta e resposta tiveram no horizonte a reflexão de Nietzsche, autor, justamente, de uma obra – dentre tantas obras – intitulada Crepúsculo dos ídolos.

Sim, nós cultivamos ídolos ocos porque acreditamos na fixidez das coisas que nós próprios, por nossa necessidade (de sobrevivência) imaginamos como identidades. Segundo cremos, essas coisas encontram-se tal e qual fora de nós, correspondem à impressão enrijecida que fazemos delas e não mudam nem podem ser vistas sempre de novas perspectivas. Esse “modo de ver” remete à constituição de nosso intelecto – que torna as coisas imóveis, rígidas, idênticas, e como tais são projeções de nossas próprias necessidades. 

Mas pode-se ir além: essa maneira de perceber o mundo é o que garante a sobrevivência já das estruturas animais mais rudimentares, mesmo dos seres protocelulares: estímulos variados, apenas semelhantes, eles os interpretam como iguais a si mesmos, persistentes no tempo e como lhes sendo externos – projetam identidades onde não há. Se não o fizessem, porém, fossem mais rigorosos ou cuidadosos ao interpretar suas impressões, pereceriam. Assim procederá o entendimento em toda a escala dos animais, no caso do homem a diferença sendo apenas de grau: com o advento da linguagem verbal articulada, esse modo de raciocinar, biológico, ganhou em amplitude e abstração. 

O problema do homem é que ele se imagina racional, quando é escravo de sua crença em entes exteriores, fixos, dados de uma vez por todas, que na verdade são ricocheteios de suas próprias fragilidades. A começar pela crença em Deus, mas também por nossa crença na verdade (fruto de nossas projeções), no sujeito, no eu (seriam crenças funcionais, não que essas formações existam em última instância), pela crença na alma como cerne último, imortal e indecomponível, na liberdade e nas instituições democráticas como algo pronto, pelo qual não se precise lutar. Isso valerá para os monarcas por direito divino, como para líderes políticos, depositários de exageradas esperanças, emissários de nossas responsabilidades transferidas: “ele vai resolver”, “ele vai dar um jeito”, “vai acabar com a corrupção”.

Nietzsche, porém, não é tão-só o demolidor, e seria um erro considerá-lo unicamente por essa via. A via é sempre de mão dupla: ele propõe que somos uma configuração temporária e hierarquizada de impulsos (processos semelhantes aos instintos, porém mais profundos), que o homem se redime pelo fazer artístico (que não está apenas nas obras de arte, mas sobretudo em nossas vivências), que as instituições políticas só têm valor, legitimidade e viço quando marcadas pela tensão constante – e estruturante – entre interesses em conflito. Tais instituições – sim, devemos pensar em democracia, liberdade, Justiça, partidos políticos – valem se não acreditarmos que as coisas são dadas de antemão, tendo de ser a todo o tempo conquistadas, em agônico movimento de luta. Tudo se passa como se devêssemos viver em sociedade com o mesmo tônus vital aflorado, calcado na luta, que se tem no estado de natureza. Não se trata de viver feito bicho. Pela arte o homem o conseguiria. Mostrar como isso é possível demandaria todo um percurso teórico; pode-se adiantar, porém, que tal percurso desaguaria num fazer artístico calcado em vigorosa cultura.

Voltando agora precisamente à questão dos “ídolos ocos”, sejam eles políticos, sejam religiosos. Todos os ídolos são ocos se acreditarmos que são mesmo ídolos, instâncias fora de nós. Podemos lançar mão dessas figuras, mas cientes de que são construções nossas. Devemos criá-los e destruí-los quando convier, o criar sendo análogo ao criar artístico, e o fazer, o do desapego, com a leveza de uma criança que destrói o castelo que acabou de construir. O crer e adorar pode ser oco, mas o criar nunca é. Só cultura e arte salvam. 

*Saulo Krieger é filósofo graduado pela USP, doutor pela Unifesp, bolsista Capes na Université de Reims, na França. É especialista em Nietzsche e tradutor da obra “Crepúsculo dos ídolos” do grupo editorial Edipro.

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