‘Asset hacking’ durante a pandemia

‘Asset hacking’ durante a pandemia

Leandro Franz*

12 de abril de 2020 | 05h00

Leandro Franz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apenas três meses após infectar a primeira pessoa, a covid-19 levou a um efeito dominó que destruiu a economia global e modificou o dia a dia em todos os continentes. Estamos presenciando o verdadeiro exemplo de efeito-borboleta.

Mas o que isso tem a ver com asset hacking? Aliás, o que significa esse termo?

Asset Hacking Strategy nada mais é do que apoiar seu modelo de negócio, ou sua proposta de valor, em ativos de terceiros, reduzindo assim seu risco e custo de capital (dívida e investimentos).

E é exatamente isso que a covid-19 faz. Ele não cresce nem sobrevive sozinho. Depende dos ativos das células humanas (DNA e organelas) para se replicar e continuar sua viagem.

Mas o que isso tem a ver com economia? Tudo!

A ação desse vírus já levou a diversos exemplos de Asset Hacking pelo mundo nas últimas semanas. Para citar só alguns:

1. Para dar conta da demanda, governo espanhol estatiza hospitais privados. Com isso, utiliza os ativos de terceiros para prestar seus serviços à população.
2. Governo americano aciona “Lei de Guerra” para forçar GM a produzir respiradores em suas fábricas.
3. AmBev, voluntariamente, hackeia sua própria fábrica (ou melhor, o capital de seus acionistas) para produzir e doar álcool gel em larga escala.
4. Empresas reduzem despesas com posições em coworkings e escritórios (além de limpeza, internet e até café) passando sua força de trabalho para home office. Com isso, hackeiam ativos de seus funcionários para continuar as atividades.
5. O Pacaembu e o Anhembi alteram sua função social e se transformam em hospitais de campanha com 2 mil novos leitos emergenciais.

Detalhe importante: asset hacking não é necessariamente ruim. Muitos exemplos, como da lista acima (exceto o próprio vírus), trazem benefícios para os dois lados.

Outro ótimo exemplo é a Uber, que hackeia os ativos privados (carros, combustível, gastos com seguro, etc), mas possibilita flexibilidade e renda para pessoas temporariamente sem emprego.

Agora, em termos práticos, como você pode sair na frente e utilizar o asset hacking durante a crise do coronavírus?

Seguem três reflexões iniciais:

1. Sua empresa possui alguma fábrica, espaço, sistema, equipe, área, processo que apoiava um objetivo antes e que agora seria mais útil viabilizando outro?
2. Quais ativos, tangíveis e intangíveis, que você tem à disposição e podem ser hackeados temporariamente para impulsionar a performance?
3. Quais ativos de clientes e fornecedores, ou de possíveis parceiros, podem ser alvo de asset hacking e construir valor para sua empresa? Seria uma situação de “ganha-ganha”?

O momento pede criatividade e agilidade, mas as respostas das questões acima podem até transformar seu negócio de maneira permanente. Quem sabe não surge uma oportunidade de pivotar seus objetivos?

Descubra (metaforicamente) o que antes servia para o futebol e que agora pode ser um hospital em sua empresa.

Está difícil ter criatividade com ativos materiais? Comece pensando nos ativos humanos: que tipo de competências você precisa para quando esse caos passar? Quais cursos algumas pessoas podem fazer para saírem mais fortes e assumirem novas funções num futuro próximo? Como testar pequenos grupos multidisciplinares para trazer soluções que estão fora do radar?

Se você tem uma grande equipe, alguns colaboradores já estão sobrecarregados nos comitês de crise, mas outros (tão valiosos e motivados quanto os primeiros) provavelmente ficaram mais ociosos.

Aproveite para refletir. O vírus e a crise estão aí. A vacina pode demorar, mas você pode trabalhar no antivírus nesse meio tempo junto com sua equipe.

Basta fazer as perguntas certas e descobrir quais ativos mais valiosos poderiam ser hackeados.

*Leandro Franz, mestre em Economia e sócio da People+Strategy. Colaborou Élcio Brito, Ph.D. e diretor da SPI Integração de Sistemas

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