Assédio moral é violência psicológica

Assédio moral é violência psicológica

Renata Bento*

31 de julho de 2020 | 09h00

Renata Bento. FOTO: DIVULGAÇÃO

Assédio é definido no dicionário da língua portuguesa como ‘ataque cerrado ou incessante’; importunação insistente e/ou agressiva, geralmente com vista a obtenção de algo; acossamento e perseguição. O assédio moral se define por ‘pressão psicológica exercida sobre uma pessoa de forma repetida e prolongada, geralmente por alguém em posição de poder ou superioridade.

Essa pressão psicológica é uma violência imposta ao outro, sentida como uma invasão, uma agressão ao mundo mental de um indivíduo; afeta a autoestima e escoa sua criatividade abalando fortemente sua personalidade. Dito isso, se uma pessoa ultrapassa a barreira da dignidade do outro diante de sua existência sendo insistente e inconveniente por pouco tempo ou de forma duradoura, abordando, humilhando, cercando a pessoa ou cerceando sua liberdade, estamos falando de assédio.

O assédio moral não é algo novo, desde que surgiram as primeiras relações de trabalho, ele já podia ser observado. O que pode ser considerado novo é a forma como as pessoas lidam com isso na atualidade. Hoje é comum falar sobre assédio e ser alertado a não se submeter a esse tipo de agressão.

Mas como fica para uma pessoa que precisa se confrontar diariamente com um ambiente hostil onde sua capacidade de trabalho é fortemente atacada? E se essa pessoa que recebe essa mensagem hostil, se incomoda, mas, internaliza como um fracasso pessoal passando a acreditar não atender as demandas ou expectativas do (a) chefe? Misturadas a tudo isso essas pessoas ainda podem temer pela perda do emprego, pela retaliação e a dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho. Situações como essas fazem parte da rotina profissional de muitas pessoas, e, embora, as vítimas se sintam mal e confusas, demoram muito tempo para perceber que existe um problema. Além disso, depois de detectado que há algo errado nesse tipo de relação, a vítima ainda tende a se manter aprisionada nessa teia perversa. Isso quer dizer que não é tão simples assim se desvencilhar desse tipo de armadilha.

É bem verdade que a forma como cada pessoa consegue lidar, suportar e conviver com situações emocionais intensas poderá ser observado de modo particular, ou seja, como cada um se relaciona com seus próprios mecanismos de defesa.

Podemos dizer que trabalhar é uma forma ou um gosto por produzir alguma coisa, por contribuir para seu próprio desenvolvimento no sentido pessoal e econômico, principalmente quando se faz o que gosta. Do ponto de vista emocional o trabalho organiza o indivíduo, cria rotina, estabelece limites e ajuda a dar sentido a vida. Observa-se que a falta de motivação pelo trabalho, a ausência de desejo em criar algo produtivo denuncia que alguma coisa não vai bem no campo emocional do sujeito.

A capacidade de trabalhar é vista como algo que tira o sujeito do princípio de prazer e o expõe ao princípio de realidade. O sujeito aprende a tolerar e adiar pequenas gratificações em busca de algo maior, sem desprezar o incômodo do esforço, esse algo maior é o desenvolvimento de suas competências que proporcionam sustento emocional, financeiro e o insere no contexto social. Há uma necessidade de adequar as pulsões sexuais e agressivas que precisam conviver com as regras e normas estabelecidas no ambiente de trabalho. Tudo isso para dizer que trabalhar é bom, é gratificante.

A prática de assédio moral oprime e impõe ao sujeito uma série de perigos uma vez que podem causar ou potencializar vários distúrbios emocionais e até mesmo psiquiátricos, entre eles a depressão e/ou o transtorno de ansiedade; destrói a capacidade criativa e a resistência psicológica das vítimas, deixando-as engessadas com a perda da vivacidade.

O que se observa é que a vítima do assédio moral ,particularmente, torna-se um campo fértil.

Nota-se com frequência que os assediados são pessoas que estão mais disponíveis às mudanças, mais abertas as críticas e particularmente mais democráticas, curiosamente são pessoas mais empáticas, éticas e com capacidade de liderança informal e tendem a se assustar com a agressividade advinda do assediador o que as faz retrair.

Os agressores possuem características de personalidade perversa marcados pela frieza, falta de caráter e ausência de empatia. São indivíduos menos capazes afetivamente, que apresentam transtornos de personalidade, são mais frios e calculistas e passam por cima do outro com muita facilidade, uma vez que não possuem em sua constituição o tal do bom caráter.

Os agressores tendem a ser sedutores, mas não conseguem manter uma comunicação clara ou se relacionar com o outro, praticam monólogo, não deixam a pessoa falar, não conseguem conversar; tornam a vítima confusa, atordoada e que, muitas vezes, na impossibilidade de explodir, acabam por implodir. Os agressores possuem em seu mundo interno uma enorme fragilidade emocional que faz com que não tolerem sentimentos como insegurança, fraqueza, inveja, ciúme, angústia e medo. De forma inconsciente, como não suportam ter dentro de si esses sentimentos, projetam massivamente na vítima, que passa a sentir o que ele não suporta ter dentro dele; é isso que causa o mal-estar na vítima, esse excesso de projeção. Se a vítima se anula, não se defende e se cala, abre espaço para essa repetição doentia, onde o afetado se torna o depositário de suas projeções. Passa a duvidar de si mesmo, e se sente enfraquecido porque adoece psiquicamente.

O apoio psicológico é fundamental para que se possa fortalecer a autoestima e não se deixar abater pelos ataques, ou ajudar a sair desse círculo vicioso. A pessoa fortalecida emocionalmente não entra nesse jogo adoecido, ou se entra, sai rapidamente. A pessoa fortalecida tende a saber quais são próprias características de personalidade e deste modo, quando o ataque é direcionado a ela, a vítima não absorve para si as projeções advindas do agressor. Ao contrário, entende que o que está sendo dito diz respeito ao próprio agressor e não corresponde a realidade. Quando o assediador percebe que não consegue atingir a vítima, ele recua, entende que o terreno não é fértil para ele.

Nossa legislação ainda se mostra insipiente quanto aos critérios que possam configurar o assédio e suas consequências; as empresas privadas ainda não tem dispositivos claros para coibir o assédio, entretanto, as vítimas atualmente são encorajadas a falar sobre isso e/ou denunciar.

O mais importante a fazer quando se identifica que está sendo vítima de assédio é buscar, criar mecanismos de autoproteção, já que o agressor vai se utilizar da fragilidade e da vulnerabilidade emocional para se beneficiar e a partir disso avaliar e/ou buscar possibilidades de saída.

*Renata Bento, psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à  IPA – Internacional Psychoanalytical Association, à FEPAL – Federación Psicoanalítica de América Latina e à FEBRAPSI – Federação Brasileira de Psicanálise

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