Assassinato de Bruno e Dom: peritos da PF usam modelo 3D da cena do crime para confrontar versão de suspeitos

Assassinato de Bruno e Dom: peritos da PF usam modelo 3D da cena do crime para confrontar versão de suspeitos

Em entrevista ao Estadão, diretor do Instituto Nacional de Criminalística, Ricardo Guanaes, revela a intensa rotina da força-tarefa de quinze peritos criminais federais que vasculham passo a passo todas as circunstâncias do crime brutal no coração da Amazônia que chocou o País e repercute em todo o mundo

Pepita Ortega e Fausto Macedo

21 de junho de 2022 | 05h00

O avião da Polícia Federal com os restos mortais encontrados nas buscas do indigenista Bruno Pereira Araújo e do jornalista inglês Dom Phillips aterrissou na noite desta quinta-feira, 16, em Brasília. Foto: Sergio LIMA / AFP

Após a identificação dos corpos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Philips, os peritos da Polícia Federal buscam esclarecer os detalhes do assassinato que chocou o País e repercutiu em todo o mundo com um exame de antropologia forense que tem previsão de ficar pronto na próxima semana. O laudo pode chegar a estimar a data da morte de Bruno e Dom, além de apontar a que distância os tiros foram disparados contra eles, mortos na região do Vale do Javari, no Amazonas. Dom foi atingido com um projétil e Bruno, foi alvejado com três tiros, um deles na cabeça.

O Instituto Nacional de Criminalística da PF também trabalha em um modelo 3D da cena do crime – elaborado com base em escaneamento do local onde os corpos foram encontrados e suas ‘adjacências’ – o qual será usado esclarecer a dinâmica dos crimes ocorridos na última semana. O laudo do local agrega todas as provas submetidas à perícia e deve demorar mais para ficar pronto, no mínimo em 30 dias, em razão de seu nível de detalhamento. O documento pode até contar com vídeos e vai inclusive testar as versões dos envolvidos no caso – os três pescadores presos temporariamente por participação direta no duplo homicídio, ‘Pelado’, ‘dos Santos’ e ‘Pelado da Dinha’, e as cinco pessoas sob suspeita de terem ajudado a ocultar os corpos.

As informações foram prestadas pelo diretor do INC, Ricardo Guanaes Cosso. Em entrevista ao Estadão, ele indicou que o barco usado por Bruno e Dom, encontrado a 20 metros de profundidade no rio Itaquaí, também será levado para ‘dentro’ do laudo completo sobre o caso. Peritos de Brasília irão para o Amazonas na quarta-feira para realizar a perícia, que deve se dar no mesmo dia ou na quinta-feira, inclusive com o escaneamento da embarcação. Segundo Guanaes, até o sábado, 18, ao menos 15 peritos em Brasília se dedicavam exclusivamente a analisar provas ligadas ao homicídio do indigenista e do repórter. “Tudo relacionado ao caso vira prioridade para a gente”, afirma.

O diretor do INC relata ainda que não chegaram aos peritos quaisquer armas para análise de compatibilidade com os projéteis encontrados nos corpos de Bruno e Dom. A Polícia Federal no Amazonas não divulgou se já foram encontradas ou não as armas usadas no duplo homicídio. De acordo Guanaes, em razão de o caso envolver uma espingarda, considerada uma ‘arma lisa,’ não é possível fazer o confronto balístico, mas os peritos conseguiriam apontar se os fragmentos encontrados seriam compatíveis com o armamento eventualmente apreendido.

Doutor em Ciências Médicas pela Unicamp, Ricardo Guanaes Cosso é perito federal criminal desde 2003. Confira a seguir os principais pontos da entrevista com o diretor do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal:

ESTADÃO: O senhor poderia detalhar um pouco os trabalhos desenvolvidos pela perícia no caso de Bruno Pereira e Dom Philips nos últimos dias?

RICARDO GUANAES COSSO: Assim que os corpos chegaram aqui, a gente chama tecnicamente de remanescentes humanos, nós iniciamos os processos de identificação e determinação da causa morte. Geralmente em IMLs, na rotina normal, se determina a causa da morte e depois se determina a identificação. Como a gente tem uma estrutura grande e os peritos trabalham em conjunto então a gente pode fazer as duas coisas em paralelo ao mesmo tempo. Então foi determinada a causa da morte e a identificação quase que simultaneamente. Então na quinta-feira à noite, chegaram os corpos. Depois já conseguimos identificar a presença do Dom e em seguida a gente conseguiu identificar a presença do Bruno. Aí a gente já soltou a informação da casa mortis, que no caso do Dom foi um tiro, de arma de fogo tipo espingarda. E no caso do Bruno foram três tiros, tem vestígio de três tiros, um na região da face e do crânio. Em paralelo a isso também – como a gente trabalha juntos, nós temos setenta e poucos laboratórios trabalhando no mesmo ambiente, são trinta mil metros quadrados aqui de instituto, é uma das vantagens nossa – logo que chegaram os corpos já foram coletadas amostras de DNA, para também ajudar na identificação dos corpos. Eles estão saindo agora, acho que comecinho agora da semana já vai sair os resultados. E ao mesmo tempo, agora terminando a identificação, a causa mortis, o DNA saindo, a já está fazendo o exame de antropologia forense, para verificar marcas nos ossos. Por exemplo, você sabe que tem um tiro, as por onde ele entrou? Por trás, pela frente? Então a gente analisa os ossos, vendo os resíduos nos ossos e consegue então inferir qual a direção dos disparos. Ao mesmo tempo, teve um desmembramento, foi com um objeto cortante, foi um manchado, um serrote, então com as marcas dos ossos a gente consegue algumas respostas. E outra coisa que a gente está fazendo também é que, tudo, tanto os corpos, o local do crime todo, o local central onde foram encontrados os corpos, as adjacências, a gente transforma em um modelo 3D. Isso foi escaneado, tanto os corpos como o local. A gente usou os equipamentos 3D e gera um modelo. Então a gente consegue estudar a cena do crime. Praticamente a gente consegue entrar na cena do crime virtualmente. Com óculos e tudo. Então a gente consegue, com essa cena do crime, os corpos no 3D, a gente consegue testar as hipóteses, as versões. A gente consegue testar tudo e ver se essa versão condiz com os fatos, ela conversa com os vestígios ou ela tem alguma uma divergência com relação a posição dos vestígios. Então o modelo 3D traz essas respostas para a gente. Então trabalhando a investigação com a perícia a gente chega então busca a verdade, como é que os fatos aconteceram. Então agora a gente está estudando para chegar no estabelecimento da dinâmica dos fatos.

ESTADÃO: Qual a expectativa dos próximos exames? Quais resultados estão para sair?

RICARDO GUANAES COSSO: O laudo de DNA deve sair agora no meio da semana, talvez até amanhã. O antropológico vai demorar aproximadamente uma semana. Lógico, os corpos vão ficar retidos até a finalização do antropológico. Então nesse, a gente está trabalhando de dia, de noite, de madrugada, para soltar o mais rápido possível. O prazo estimado é uma semana, mas a gente quer soltar se possível amanhã, depois, mas a gente tem esse prazo de uma semana. Com certeza em uma semana sai. Até pelo sofrimento das famílias, poder fazer o enterro. Então a gente está correndo bastante com isso para finalizar. Vai sair depois o laudo local, lá na frente, com tudo, ele engloba toda a dinâmica, todos os vestígios, ele traz todos os outros laudos pra dentro. Esse é um laudo mais demorado, esse de local realmente pode demorar 30 dias, até um pouco mais, porque são exames bem complicados. Arquivos grandes e detalhamento. Imagina só um local de crime na Amazônia. É grande o local, são muitos detalhes, então esse talvez demore um pouquinho mais.

ESTADÃO: Quantos peritos estão dedicados somente nesse caso, que compõem essa força-tarefa?

RICARDO GUANAES COSSO: Isso muda todo dia. Até anteontem eram, só aqui no LC, 15 peritos, fora os peritos lá da Amazônia que ajudaram a fazer o local de crime, as buscas. Mas aí por exemplo agora vai para a genética, então a gente aumenta um pouco mais. A necessidade de algum outro exame, de alguma outra área, então aumenta um pouco mais. Até sábado eram quinze dedicados.

Quarta, quinta, sexta, sábado e até domingo foi uma reunião atrás da outra aqui. Até conversamos com a equipe hoje, a gente olhou para trás e falou ‘que bom a gente conseguiu fazer a diferença’. Conseguimos dar uma resposta rápida até para as famílias. Pelo sofrimento das famílias. Já pensou se a gente demora aqui uma semana, quinze dias para dar uma identificação, uma causa mortis? O sofrimento continua. Então a gente correu. O pessoal trabalhou assim direto. Os peritos que estão fazendo a parte de a antropologia forense trabalharam ontem o dia todo, até de madrugada. Tudo para entregar o corpo mais rápido. Porque a antropologia forense é o que está segurando os corpos aqui hoje. Então o pessoal está trabalhando o mais rápido para conseguir liberar os corpos. Para que as famílias possam finalizar isso.

ESTADÃO: Além dos corpos, outros materiais foram encontrados, como agora o barco em que Bruno e Dom estavam. Quais são as prioridades da perícia agora?

RICARDO GUANAES COSSO: Assim, a prioridade é do caso completo. Sobre o barco, a gente já está vendo como é que os exames vão ser feitos. Então tudo relacionado ao caso vira prioridade para a gente. O barco vai ser trazido para dentro do nosso modelo também, a gente vai ver marcas o que tem lá, tudo isso vai ser trazido para dentro do modelo e vai compor, lá na frente o laudo. O barco é só um vestígio dentro da situação como um todo. Vai estar dentro do laudo do local de crime também.

ESTADÃO: Já chegaram para os senhores as armas do crime? Elas já foram encontradas?

RICARDO GUANAES COSSO: A gente trabalha só com a perícia. Não tenho essa informação, da investigação, se conseguiram apreender armas.

ESTADÃO: Então perícia em armas, não chegou nenhuma para os senhores?

RICARDO GUANAES COSSO: Não. A perícia em arma, se acharem, a gente só vai poder falar se ela é compatível, porque como é arma lisa, a gente não tem confronto balístico. Então a gente só falaria se essa munição encontrada, os balins encontrados nos corpos, seriam compatíveis com a arma eventualmente encontrada, com a munição eventualmente encontrada. De qualquer forma, no estudo antropológico forense a gente consegue falar, conforme os balins, a angulação que ele entrou no osso, a gente consegue estimar a distância do tiro. E aí levando isso pro modelo 3D a gente consegue colocar a arma no local dela, com relação ao corpo. A gente consegue montar com uma precisão boa. No exame antropológico, a gente vai ver se os balins podem ter levado à morte por dano no tecido mole, numa viscera numa artéria, ou ter lesionado os ossos. Se tiver atingido só o primeiro, a gente não vai ver dano nos ossos. Então é isso que a gente está olhando agora.

ESTADÃO: E quais são os materiais que estão sendo periciados? Comentamos sobre os corpos, o barco, e quais materiais outros que estão com os senhores para realização da perícia? Tem material de busca por exemplo?

RICARDO GUANAES COSSO: Por enquanto só os corpos mesmo e a gente está vendo a logística do barco. Com as imagens prévias que a gente vai ter do barco a gente decide, no sentido de que tratamento que a gente vai dar para ele. A gente chama tudo de vestígio, o barco para gente é um vestígio também. Aliás é um é um suporte que podem ter vários vestígios. Então a gente vai estudar realmente como é que estão esses vestígios nesse suporte que é o barco.

ESTADÃO: É no laudo antropológico em que saem detalhes como a data das mortes, essas questões mais específicas?

RICARDO GUANAES COSSO: As datas você diz se eles foram mortos no primeiro dia que sumiram. Sim, pode sair. É isso o que se busca saber. Como passaram muitos dias, a gente não consegue uma data exata. ‘É compatível’, vai sair alguma coisa nesse sentido. Porque quando a gente acha o corpo logo depois, a gente tem uma escala para seguir, para ver. Depois de um tempo, ainda mais com a ação muito forte da umidade, do calor lá da Amazônia, não fica mais tão linear a gente fazer uma determinação dessa. Vai na parte da probabilidade, da estatística mesmo.

ESTADÃO: Foi encontrado DNA dos suspeitos nos corpos, em algum material que foi periciado?

RICARDO GUANAES COSSO: Por enquanto a gente tem um material ainda em análise. A gente não finalizou as análises do DNA. Então a gente não tem essas respostas ainda não.

ESTADÃO: O sr comentou sobre o modelo 3D. Qual é a cena do crime que os senhores trabalham, a que foi apontada como o do o encontrado os corpos?

RICARDO GUANAES COSSO: Não, essa é um dos pedaços só. A cena do crime é da onde começou o fato até onde foi encontrado os corpos. Então ali o local dos corpos, as adjacências. Vai ser trabalhada nas versões aonde se falou que interceptou (o barco). Então tudo isso vai ser trazido para dentro (do laudo). Não é o caso, mas tem situações que a gente tem várias versões de local de execução. Então a gente faz as versões, traz pros laudos e vai montando os modelos. Essa versão que ele falou, ela condiz fisicamente, seria possível o que ele está falando? Então é assim que a gente trabalha. Lógico que a gente tem uma versão que ele falou aonde que for. A gente tem versões também que pessoas que viram passando. Então isso é trazido para o laudo, paro estudo do laudo. Às vezes não sai tudo no laudo, mas todas as informações elas são estudadas, pra se chegar numa conclusão final.

O laudo local vai se estudar todos os vestígios e ao local. Então a gente vai tentar posicionar os vestígios no local. Todos eles. A gente tem que estabelecer toda a dinâmica do evento. A emboscada, se foi emboscada, o encontro deles. Onde teria sido o confronto, a morte. Depois o que ele fez, onde ele caminhou. Tudo isso vai para essa dinâmica toda do laudo do local. Ele não é uma fotografia só, tem todo o detalhamento, como que aconteceu a dinâmica, o que a gente consegue e não consegue confirmar, tudo isso vai estar no laudo.

ESTADÃO: Houve impacto da demora no início das buscas nos materiais coletados pela perícia? Quando houve analise de sangue encontrado no barco de um dos presos foi divulgado resultado ‘inconclusivo’. Há relação?

RICARDO GUANAES COSSO: Não, então, as vezes é qualidade mesmo, muita sujeira. As vezes não era sangue humano. A gente não conseguiu determinar. Tem um DNA lá, mas a gente ainda não conseguiu determinar. Então os estudos continuam. Por isso a gente fala ‘ah é quanto tempo?’ ‘tanto, se for ali de cara, fazer a análise e sair o resultado’. Mas que nem nesse caso, você pega a análise, é um resultado que ainda tem dúvida, então outra análise é feita. Então é como se houvesse um desdobramento das análises. Ai a quantidade de tempo aumenta, o número de peritos aumenta. As vezes tem que ir para outra área, tem que limpar, então esse vestígio ainda está em tratamento.

ESTADÃO: Quais os principais métodos de perícia usados nesse caso?

RICARDO GUANAES COSSO: Para identificação se uma muito a parte de arcada dentária, de impressão papiloscópica, de impressão digital mesmo. Ai dependendo do estado do tecido você vê que não consegue. Você vê que no do Dom a gente conseguiu arcada e impressão digital. Do Bruno a gente conseguiu por arcada. Então se nada fosse possível, nem impressão digital nem arcada, a identificação teria que ser DNA mesmo. E de qualquer forma, quando chegam os corpos a gente não sabe de que forma vai conseguir identificar, então como o exame de DNA demora um pouco a gente já coleta o DNA e começa os exames. Ah identificou por arcada, ótimo. Mas se precisasse DNA já estava rodando.

ESTADÃO: Quais são os próximos passos da perícia? Chegaram outros materiais, digitais por exemplo, para análise?

RICARDO GUANAES COSSO: Agora assim, é terminar a parte de antropologia forense, os exames de DNA que estão terminando também. A gente vai ver o barco. Ainda não vi, estou falando em teoria para você, a gente vai analisar o barco, vai ver o que tem nele, para ver o que é preciso fazer, ver que tipo de tratamento a gente vai dar aos vestígios encontrados no barco. Pode-se achar digital? Pode, diminui a probabilidade, porque foi afundado, tem água. Ai o papiloscopista vai lá e analisa. Teoricamente é possível, mas na prática só vendo mesmo. Há possibilidade de busca de mancha de sangue? Teoricamente há, mas precisa ver o barco, se poderia ser preservado algum vestígio, mas só analisando mesmo o material, o suporte no caso, para dar respostas mais precisas.

ESTADÃO: Como funciona a divisão do material que vai ser periciado no Amazonas do que vai ser analisado em Brasília?

RICARDO GUANAES COSSO: Como acabou caindo a coordenação para a Polícia Federal como um todo, os maiores vestígios, que são os corpos estão aqui, a gente está trabalhando com a parte toda de modelagem 3D, não sei te dizer se a polícia do estado tem esses aparelhos. Mas como a gente já está modelando tudo, então a tendência é que no mínimo a gente vá fazer o exame nessa embarcação. Para trazer os detalhes para cá, para compor o laudo final. Se tivesse sido encontrado outro materiais, a gente traria tudo. De qualquer forma esse escaneamento 3D preserva digitalmente o local. É tão detalhista que se você põe um óculos 3D é como se você estivesse na cena de novo. Inclusive se você quiser medir alguma coisa, olhar alguma coisa que você não tenha visto na hora, visualmente e fisicamente daria pra traçar alguma medida, alguma variável que não se tenha observado.

Como era um local que já estava aproximadamente dez a onze dias ali, é quente ou o rio sobe, desce, praticamente “lava o local”. Então o pessoal realmente não encontrou nada, se tivesse teria trazido, mas a chance de achar alguma coisa lá é muito baixa. A própria natureza “limpa o local”.

ESTADÃO: Há algum ponto crucial, no âmbito da perícia, que seja determinante para o laudo final?

RICARDO GUANAES COSSO: O laudo completo é que vai ser determinante pra investigação como um todo. Porque as versões vão poder ser testadas. A pessoa fala uma coisa, será que isso é possível? Ah ‘eu estava a 30 metros’ (estou chutando, tá). A 30 metros será que era possível esse agrupamento dos balins? Ah não é, então essa versão está errada, você não estava a 30 metros, ai o laudo vai dizer, estava a 5 metros, 10 metros. Então o laudo de local, junto com o antropológico forense, tudo isso, vai ajudar a investigação a realmente chegar nos fatos verdadeiros. Inclusive depois lá na frente o suspeito pode ser confrontado né? ‘Você falou isso aqui, mas é impossível. Então pô, e aí?’. Isso pode ser feito num momento posterior também.

ESTADÃO: A perícia já chegou perto, por exemplo, de realmente ligar, tecnicamente, um dos suspeitos que foram que foram presos?

RICARDO GUANAES COSSO: Na realidade, nesse caso, como foi uma ocultação de cadáver no local que a natureza como eu te falei praticamente “limpa o local”, e pela dinâmica toda do local, pela grandeza do tamanho e tudo, o laudo local vai trazer como eles fariam, com o depoimento deles. Vai dizer, ‘isso realmente aconteceu’. Somando ainda as testemunhas, vai fechando a investigação junto com a perícia que vai fechar todo o caso.

ESTADÃO: Os srs veem a possibilidade de haver uma eventual reconstituição do crime?

RICARDO GUANAES COSSO: A reconstituição a gente consegue fazer virtualmente. A gente põe os avatares, a gente consegue montar. Na reconstituição digital nós conseguimos colocar inserir coisas, um tiro por exemplo. Vamos supor que um tiro dado a 20 metros, numa janela, com determinada angulação. No local tem que passar um fio, um laser, é complicado. Na reconstituição digital, nós fazemos o que a gente quer. Nós conseguimos trabalhar o local de várias maneiras, com as ferramentas que tem no software, virar o local de ponta cabeça. Então traz muito mais informação do que aquela reconstituição que era feita no passado, que era praticamente um teatrinho, um cinema. É lógico, a gente precisa das informações, acompanhar a pessoa para ela falar, ‘fiz isso, fiz aquilo’, tudo isso para a gente ver se é possível ou não. A gente já tem muita informação com relação a isso também. Há a possibilidade, se a gente for demandado. Se a própria Polícia Federal, o presidente do inquérito, ou o Ministério Público ou o Judiciário demandar, a gente pode voltar. Mas o nosso laudo do local sai quase com isso. Porque ele é tão completo que está tudo ali. As vezes sai até com vídeo. Depende da necessidade, mas é tão completo que praticamente ele supre todo as necessidades de informações.

ESTADÃO: Há alguma proximidade entre esse caso e algum outro que que o instituto já chegou a atuar?

RICARDO GUANAES COSSO: Lá os crimes trazem algumas semelhanças. A gente atuou naquele caso dos índios, aquele massacre dos garimpeiros. Então aquela região vira e mexe tem um uma situação até de comoção nacional. Isso geralmente é da nossa atribuição. É a primeira vez que que a gente traz os corpos para cá porque nosso IML agora está todo estruturado. Nós temos os peritos médico-legistas já tem dois anos. Então a gente tem condições físicas, técnicas e a nossa maior vantagem é essa, que além do IML aqui nós temos setenta e poucos laboratórios em paralelo, com peritos de todas as áreas trabalhando. A gente tem um somatório aqui muito grandes, que às vezes algumas unidades de criminalística dos Estados tem uma sessão, aí vai para o laboratório, aí o laboratório faz o negócio manda pra outro. Aqui a gente trabalha e mesmo o laudo não saindo às vezes a gente já sabe o resultado. A gente consegue usar o resultado em outro tipo de exame. A coisa vai ela vai andando mesmo em paralelo. Então vai muito mais rápido, é essa a grande vantagem do estúdio criminalística.

ESTADÃO: Houve muita especulação com relação ao início das buscas, com alegações de demora das autoridades. Isso tem impacto para a perícia?

RICARDO GUANAES COSSO: Essa informação de que as buscas demoraram, eu não consigo enxergar, nós mesmos quando ficamos sabendo, na mesma hora já mandamos peritos. Eu acho que a busca, antes de prender o primeiro suspeito é uma área que as pessoas não têm ideia. É gigantesca. Então as buscas já estavam correndo, a FAB ajudou muito, a Marinha ajudou muito, a próprio comunidade indígena, porque gostavam lá do Dom e do Bruno, a Polícia Civil, a perícia da civil lá no Amazonas, ajudou a gente bastante também.

ESTADÃO: Quando os primeiros peritos foram de Brasília para a região?

RICARDO GUANAES COSSO: Quando eu mando de Brasília para lá, o voo mais rápido daqui sai cinco horas da manhã e chega seis horas da tarde. Lá em Tabatinga. E aí depois de Tabatinga tem uma hora. Então quando eu mandei os peritos na realidade eles começaram a operar no dia seguinte que eles chegaram lá. A gente começou organizar logo. Comprei a passagem e até então não tinha aparecido os corpos. Sem os corpos para a perícia não tem muito sentido, mas a gente se adiantou porque no mínimo o pessoal ajuda na busca. E se achasse os corpos e os peritos não estivessem lá, até eu mandar seriam dois dias. Da minha decisão até chegar o perito lá eram no mínimo dois dias. Quando a gente ficou sabendo da informação de que havia a possibilidade de ele indicar o local, na mesma hora ficou disponível o jato e a gente mandou os peritos para lá mesmo com risco de chegar e não encontrar os corpos. Acho que adiantou. A PF se adiantou em todos os fatos. Quando chegou “uma determinação” de ter que mandar peritos eu disse que já estavam lá. A gente sempre se antecipou. Chegava a informação, a gente já começava a logística. Eles foram na terça-feira e eles começaram a operar na quarta.

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