ASG (ESG): lucro ou legitimidade?

ASG (ESG): lucro ou legitimidade?

Felipe Kneipp Salomon*

06 de abril de 2021 | 11h33

Felipe Kneipp Salomon. Foto: Divulgação

A adoção de critérios Ambiental, Social e de Governança (ASG) tornou-se imperativo empresarial. A tese defendida é a de que ao ampliar o olhar para além das demonstrações financeiras, as empresas identificarão nas dimensões ASG riscos emergentes e novas oportunidades de negócio, que se bem trabalhados, gerarão retornos financeiros superiores e externalidades socioambientais positivas. Mas há sinalizações contraditórias e dificuldades metodológicas que desafiam essa causalidade financeira e apontam a um porquê diferente deste imperativo empresarial.

Para analisar o que se passa, precisaremos antes dar um passo atrás, como diria um querido amigo. Apesar da sensação de objetividade e acurácia científica que os números e gráficos nos passam, as medidas e os modelos matemáticos subjacentes são construídos a partir de concepções subjetivas. Afinal, o que é um comportamento empresarial responsável em termos socioambientais? Como traduzir uma ação socioambiental em nota para definir o critério de elegibilidade para composição de um índice de mercado, que então será utilizado para validar ou não o “business case” do ASG?

A Universidade de Nova Iorque (NYU) conduziu meta-análise de 1.141 pesquisas que individualmente analisaram a correlação entre métricas ASG e desempenho financeiro (pesquisas publicadas de 2015 a 2020 com dados de 2007 a 2015). O estudo, divulgado em fevereiro de 2021, identificou que 58% das empresas que adotaram critérios ASG tiveram desempenho financeiro superior. Mas 40% das pesquisas utilizaram avaliações ASG fornecidas por agências avaliadoras, a exemplo da MSCI (citada nominalmente). Esse fato gera ruído.

Tomemos importante banco brasileiro como exemplo. Essa instituição é avaliada como mediana pela MSCI quando comparado a outros 196 bancos (grosso modo, a nota equivaleria a 50/100). Por sua vez, a S&P Global avalia o Banco como uma das melhoras instituições quando comparado a outros 612 bancos, dando a ele nota de 80/100.

Esse exemplo anedótico ilustra as contradições frequentemente encontradas em avaliações ASG e indica a dificuldade de se mensurar tais práticas. Consequentemente, fica difícil estabelecer relação de causalidade entre ASG e resultados financeiros superiores. Apesar do ruído e das incertezas, o imperativo ASG se alastra. Por quê?

Uma hipótese é a de que as empresas estão tentando manter sua legitimidade perante a sociedade, perante a nova demografia de consumidores conscientes. Há um inegável e crescente sentimento de que as corporações têm de ser mais responsáveis, de que os administradores não são fiduciários apenas dos acionistas, mas também de interesses sociais mais amplos. Esse sentimento vem sendo captado por diversas organizações, como as Nações Unidas (Declaração de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e o Forum Econômico Mundial (Davos Manifesto 2020). As empresas que se desviarem demasiadamente dessas percepções institucionalizadas serão marginalizadas.

Há algum suporte empírico para essa teoria. Estudo conduzido em 2017 por Schaltegger e Hörisch identificou que ações socioambientais de grades empresas estariam preponderantemente voltadas a um ganho de legitimidade. O estudo chegou a essa conclusão a partir da análise de questionários respondidos por 432 diferentes empresas de 10 países.

Identificou-se, por exemplo, que os departamentos que mais se envolviam em questões ASG eram o Jurídico e o Relações Públicas, que teriam por foco conformação às normas e comunicação com a sociedade. A ausência do Financeiro (unidade orientado para geração de lucro) indicaria que o ganho de legitimidade seria a preocupação imediata.

É possível interpretar o movimento ASG como a busca por um figurativo e necessário “alvará de funcionamento” a permitir que as empresas continuem em operação. A questão relativa aos resultados financeiros é menos relevante nesse primeiro momento, será uma consequência de uma mudança institucional mais profunda. As empresas que se conformarem ao ambiente continuarão em operação; as que resistirem ou que forem pegas praticando greenwashing (ASG meramente simbólico) terão dificuldade em captar recursos, pagarão prêmios elevados, verão suas atividades reguladas ou até restringidas pelo poder público.

*Felipe Kneipp Salomon, advogado no Levy & Salomão Advogados, especialista em Direito Empresarial pela FGV e Mestrando em Contabilidade, Organizações e Instituições na London School of Economics and Political Science (LSE)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.