Às vesperas do primeiro turno

Às vesperas do primeiro turno

Rodrigo Augusto Prando*

06 Outubro 2018 | 08h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estamos a apenas 24 horas do primeiro turno das eleições. Escolheremos deputados estaduais, deputados federais, dois senadores, governadores e o presidente da república. Não são poucas as opções, mas, em cada uma, enorme responsabilidade cívica. E, aqui, neste cenário político, temos, em tudo, uma eleição paradigmática.

Havia, desde o início, a impressão que a força da televisão e do rádio não seria a mesma de outrora. Fato que, agora, se confirma: vivenciamos a eleição mais digital, nas redes sociais, que já experimentamos.

A informações – verdadeiras ou não – a respeito dos candidatos são postadas em quantidades colossais, sem pausa.

Se, por conta do algoritmo das redes sociais, tendemos a ficar numa ‘bolha’ que nos coloca juntos aos que, tendencialmente, pensam como nós pensamos, as relações, nesse universo virtual, é, quase sempre, de curtidas entre os iguais e de disseminação de ódio ou de bloqueios e exclusões dos que ousam pensar diferente.

Num país de cultura política autoritária, com uma população pouco afeita à leitura, à interpretação de texto, encontramos o caldo propício para não apenas criar o ódio político, mas para disseminá-lo com uma eficiência jamais vista.

Então, caro leitor, aqueles candidatos que entenderam, antes dos outros, essa nova linguagem, da superficialidade, da ‘lacração’, dos ‘memes’ e das ‘fake news’ nas redes sociais conseguiram, sem dúvida, enorme vantagem competitiva em relação aos seus adversários.

Existem, por certo, aspectos bem positivos nas redes sociais, quando podemos vasculhar a vida pública de um candidato, conhecer suas propostas, se é ficha limpa, quanto tem de patrimônio, quais os seus projetos de lei apresentados, etc. Mas, infelizmente, os elementos positivos não conseguiram suplantar o uso raivoso, mentiroso e destruidor de relações sociais numa sociedade conectada em rede.

Outro ponto peculiar dessa eleição: a escolha dos candidatos não pelas suas propostas e pelas suas virtudes políticas e democráticas, mas pela rejeição ao outro.

Assim, não voto no candidato ‘A’ porque ele apresenta valores com os quais eu compartilho, ideologia política que me reconheço, porque tem competência administrativa e experiência política, não! Voto em ‘A’ porque eu odeio ‘B’. E quem vota em ‘B’ é, também, porque odeia ‘A’.

Em síntese, caminhamos para escolhas que levam em conta mais o ódio, o medo e a rejeição do que propostas concretas para resolver os graves problemas que o país se encontra.

Os candidatos moderados, de centro, com discurso político assentado no respeito aos adversários e nos valores democráticos, ficaram perdidos, desbaratados. E, entre esses, os que quiseram elevar o tom e mostrar mais agressividade, não convenceram e não convenceriam pois não são assim em suas trajetórias biográficas.

Temos que, independentemente de quem sair vitorioso, respeitar a escolha dos cidadãos, inseridas nas urnas.

A soberania é do povo e o político é seu representante. Afaste-se, portanto, teorias conspiratórias acerca da manipulação das pesquisas eleitorais ou da falta de segurança das urnas eletrônicas.

Os vitoriosos e os derrotados expressarão a vontade do eleitor. Claro que não vivemos num mundo de ‘Poliana’, mas os que apresentam as teorias conspiratórias carecem de sustentação e não indicam fatos e provas robustas. Com isso, clama-se pelo respeito às regras da democracia.

No Brasil, há muito, ganhar a eleição não significa governar.

Ganhar é importante, mas governar é fundamental. E é aqui que está o busílis da questão: o vencedor deverá negociar, deverá superar o discurso eleitoral para, junto às forças sociais e aos atores políticos, construir a governabilidade.

Deverá, creio eu, acenar a todos os brasileiros: vencedores e derrotados no sentido de amainar o clima de insegurança e raiva reinantes. Deverão, os eleitos, construir pontes ao invés de aumentar a altura dos muros que nos separam. Os vencedores deverão liderar e não chefiar apenas.

O país reclama a pacificação política e a resolução de grave crise que permanece.

Teremos os líderes que precisamos? Impossível saber. Contudo, neste clima de opção eleitoral alicerçada sobre o ódio, o medo e a rejeição, cabe ponderar e perceber que ódio, medo e rejeição não são valores positivos para nossa democracia, para nossa república.

Que nossa Constituição Federal possa ser lida e respeitada, especialmente no seu artigo 5.º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes […]”.

Que essa Carta aniversariante, com 30 anos, possa ser respeitada como um marco civilizacional.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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