As várias formas de criação de valor na economia compartilhada

Lilian Miguel*

28 Julho 2018 | 08h00

Recentemente, o jornal americano The Washington Post publicou uma reportagem, cuja autora Abha Bhattarai pressupunha, na escolha do título, “um novo extremo” para a economia compartilhada, ao reportar o fato de a DSW, uma das maiores cadeias americanas de sapatos, ávida por atender a seu público alvo, ter passado a oferecer o serviço de aluguel de sapatos, principalmente para eventos especiais (leia-se, luxuosos).

Bem, isso não é exatamente uma ideia nova. A Prettynew, a exemplos de outras empresas do mesmo ramo, oferece o mesmo serviço para bolsas, roupas e acessórios, entre outros, focando, especialmente, no segmento luxo – muito luxo.

Tais exemplos mostram que as empresas estão buscando formas de atender às necessidades de seus consumidores, utilizando um conceito cuja prática se iniciou nos Estados Unidos, na década de 1990: a economia compartilhada (sharing economy), ou economia colaborativa, como alguns a denominam, dando origem a novos modelos de negócios que possibilitam às pessoas e empresas dividir (compartilhar) o consumo e/ou uso de produtos e serviços, sem que, necessariamente, precisem adquiri-los.

É bem verdade que as práticas relacionadas à economia compartilhada não são exatamente novas. Entretanto, passaram a se expandir e a assumir novas configurações a partir do momento que a tecnologia, centrada especialmente nos recursos oferecidos pela Internet, passou a fazer parte da vida das pessoas de forma acentuada, permitindo o acesso à informação e a interação, em tempo recorde.

O fato é que a economia compartilhada promove condições de igualdade de consumo, movimentando recursos que formam o grosso da “riqueza” de pessoas de posses moderadas, mas que podem utilizar seu patrimônio limitado para gerar renda. Este é, por exemplo, o escopo da plataforma Airbnb, que ajuda proprietários de imóveis a alugarem quartos em suas residências para viajantes, que por sua vez, também buscam custos reduzidos de hospedagem, o componente mais caros de uma viagem.

Existem inúmeros exemplos como esse, envolvendo o aluguel de carros, de bicicletas. O próprio Uber é um modelo de economia compartilhada, em que os proprietários dos carros rentabilizam seus veículos, transportando pessoas, por um custo bem reduzido, o que intensificou o uso desse tipo de serviço por pessoas que não o faziam, por conta do alto custo do serviço tradicional de taxis.

O ponto principal é que a economia compartilhada cria valor em várias esferas – movimenta recursos ociosos, gerando renda e reduzindo custos de produção, transforma pessoas em empreendedores, fomenta a inovação em modelos de negócios, conectando pessoas, vendedores e compradores, e reduzindo sensivelmente os custos de transação, evitando que paguemos pelo que não usamos.

Torna-nos, inclusive, minimalistas, uma vez que compartilhar leva à redução de consumo desenfreado e desnecessário, conduzindo-nos a um comportamento de consumo mais consciente. Cria valor para o planeta, logo, para nós. Uma série de recursos estão-se tornando escassos e, por isto, onerosos. Por que produzir mais do mesmo, duplicando coisas cujo uso podemos simplesmente compartilhar?

Quando os empresários adaptam o conceito original de economia compartilhada para o varejo, fica evidente que buscam não só atender uma necessidade de seus consumidores, mas buscam criar valor para esses consumidores por meio do atendimento de seus desejos. Afinal, o consumidor é rei.

Nesse contexto, necessidade e desejo se confundem. A necessidade de ir a uma festa bem vestido e na moda pode ser tão somente uma necessidade oriunda de uma regra social imposta. No entanto, vestir um sapato de luxo, para atender a essa necessidade, é, na verdade, um desejo, cuja origem possui infinitas implicações sociais e psicológicas, mas cujo atendimento cria o que se tem atualmente caracterizado como uma experiência, cujo valor só pode ser avaliado pela própria pessoa que a vivencia – o próprio consumidor.

No mundo do consumo, nem sempre somos detentores dos recursos necessários para fazermos frente a nossas necessidades, quiçá a nossos desejos. Mas, se uma empresa cria meios para que isto ocorra, nós a teremos em nossa mente para sempre, conectada com a lembrança da experiência vivida. E este valor não tem preço.

A economia compartilhada, em suma, cria valor, econômico e social – para quem produz, comercializa, rentabiliza e, principalmente, para quem consome um bem ou serviço que, talvez, não conseguisse consumir, sem ela.

*Lilian Miguel é pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e professora do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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