As vacinas de Millôr

As vacinas de Millôr

Yussef Daibert Salomão de Campos*

28 de janeiro de 2021 | 09h00

Yussef Daibert Salomão de Campos. FOTO: DIVULGAÇÃO

“God bless America”! Essa é a frase que dez entre dez estadunidenses clamam inúmeras vezes por dia, ao menos entre os conservadores. Contudo, o que salvará os estadunidenses, como toda população mundial, serão as vacinas e os insumos, além do oxigênio. China e Rússia, com suas respectivas Coronavac e Sputnik V, estão nos dando uma ponta de esperança de tudo começar a mudar, ao menos nos países onde a necropolítica não é o regime de governo. Mesmo com os ataques antidiplomáticos desferidos pelo governo brasileiro e seus apêndices, como ministros e o clã presidencial, os países que uma vez já se auto intitularam comunistas e governavam a partir de seus Politburos (comitês centrais do Partido Comunista), estão sendo o respiro para a saída dessa terrível crise. Essa ideologia persecutória dos Bolsonaro tem causado ao país milhares de mortos. Como diria Millôr Fernandes, “desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”.

E não só esses países têm dado apoio logístico ao Brasil. Índia e Venezuela têm atendido ao Brasil com oxigênio e insumos, ainda que o governo de nosso país insista em teorias conspiratórias e replique aqui as sandices trumpistas, não obstante o alaranjado presidente dos EUA tenha saído pelas portas do fundo da Casa Branca. Logo, Deus abençoe também Bolívar e Rajá. Ou que Buda nos proteja.

Nos disse um dos filhos zero qualquer coisa do presidente: “acontece nos EUA, acontece no Brasil”. Se referia aos ataques terroristas cometidos por supremacistas brancos ao Congresso daquele país. Contudo, espero que o inepto congressista brasileiro esteja certo, pois as instituições democráticas estadunidenses sobreviveram ao caos dos últimos quatro anos. Que aqui seu pai seja impedido e que a democracia tenha oxigênio para resistir.

O polímata e polêmico Millôr Fernandes, grande crítico da política partidária brasileira, certa vez vociferou: “o Brasil é os Estados Unidos onde vivo”. O poder da ironia desse grande gênio uniu a equação entre o bovarismo apontado por Lima Barreto e o viralatismo denunciado por Nelson Rodrigues, tão presentes no clã Bolsonaro. O presidente, se pudesse Millôr o definir (na verdade o fez de maneira profética), o faria assim: “todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de Pinochet”.

Cai como uma luva para o presidente, apesar de haver, no próprio Millôr, um pouco de bovarismo. Sejamos latino-americanos (como falta isso ao brasileiro!) e substituamos Lincoln por Allende. As velhas ondas conservadoras que assolam algumas partes do mundo, e varrem o Brasil com pautas neofascistas e álibis infundados que “justificam” a necropolítica, têm feito do Brasil um obituário perene. “Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil”, sapecou Millôr.

Incontáveis já são as causas jurídicas para o impeachment de Bolsonaro. Mesmo com os fatos acima narrados, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, insiste em dizer que não há inclinação política para o impedimento. O que espera o congressista? Que morram os seus? Uso Millôr como verdadeiro argumento de autoridade: “político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa da qual ele não tem a menor convicção”!

Dizer o quê da esquerda que se imiscui com essa necropolítica, com esse Centrão que ampara os desmandos do país? Apoiar Rodrigo Pacheco, candidato de Alcolumbre e Bolsonaro, ao Senado? Três candidatas ao governo da cidade do Rio de Janeiro? Voltemos ao escritor e desenhista carioca, “não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita”! Em alguns casos ele teria razão, inclusive no atual cenário. Como ainda não há viabilidade política para o Impeachment? O que a esquerda fez, institucionalmente, além de pedidos difusos e notinhas de repúdio para tornar viável o impedimento? Eu gosto daqueles que defendem os direitos humanos e que praticam e promovem políticas de inclusão e emancipação. Estão, invariavelmente, no campo da esquerda. Mas há essa outra esquerda que nada mais é que um grupo de conservadores em alegorias jacobinas.

“A ociosidade é a mãe de todos os vices”, ensinou Millôr! Para além da decoração de Temer, Mourão tem limpado as dejeções presidenciais. E ponto. Sua única contribuição é a de dar eufemismos ao baixo calão do capitão defenestrado pelas Forças Armadas. 

PS1: “Eu posso não ser um bom exemplo, mas sou um bom aviso” (Millôr Fernandes)

PS2: acróstico [a·crós·ti·co] sm: 1 Composição em que as letras iniciais, em sentido vertical, formam um nome de pessoa ou coisa, tomado como tema (Dicionário Michaelis).

*Yussef Daibert Salomão de Campos, professor da Universidade Federal de Goiás, autor do livro Palanque e Patíbulo: o patrimônio cultural na Assembleia Nacional Constituinte e articulista do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)

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