As utopias da transição

As utopias da transição

José Renato Nalini*

31 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

As mudanças tão rápidas e impactantes nem sempre merecem detida reflexão a respeito de seu alcance e significado. Entregamo-nos à torrente fluida e veloz e nos deixamos levar. A reiteração de más notícias desanima e faz com que tudo se trivialize. Mais de trezentas mil mortes? É uma estatística insuficiente para nos desesperar, a menos que sejamos uma das famílias atingidas pelo raio cruel da peste.

Proliferam as mentiras? Então já não acredito mais em nada. Não me dou ao trabalho de ir às fontes e de checar a veracidade. Sou tangido pelo incessante jorro de aleivosias, difamações, manifestações de ressentimento e de escárnio.

É uma era de perplexidade. Como diz Sérgio Abranches, “sabemos muito sobre o passado, quase nada sobre o presente e o futuro é um enorme buraco negro”. E diante da incerteza, pois a única certeza é a de que o inesperado nos surpreenderá, voltamos às utopias.

Elas são a resposta possível a estes tempos turvos. O perigo das utopias é a ideologização. Elas servem para identificar um inimigo comum. Ele pode ser o conspirador que ameaça a soberania brasileira, quer inocular genes mediante as vacinas, tem um projeto de emascular o brio tupiniquim.

Se Bauman afirmou que é impossível cultivar utopias em tempos líquidos, em que tudo se liquefaz, a começar pelos valores, Boaventura Santos o contradiz: vive-se o horário das utopias realistas. Nessa linha, o sociólogo Erik Olin Wright, idealizador do projeto Utopias Reais, reconhece a contradição em termos: utopia não seria uma ideia antagônica à realidade?

Para ele, “utopias são fantasias, cenários moralmente inspirados para a vida social, libertos de considerações realísticas da psicologia humana e de factibilidade social”. Se os realistas abominam tais fantasias, o remédio é nutrir ideais utópicos alicerçados nas reais potencialidades da humanidade.

A ideia não é nova. Ernst Bloch, em seu portentoso livro “O princípio da esperança”, contempla o sonho diurno, suficiente para suscitar a esperança no vazio. É uma utopia concreta, que nos convoca a delirar, mas também a ponderar, a planejar e a atuar.

A humanidade é um projeto em curso. Ainda não se chegou à humanidade em plenitude. Às vezes, como agora, tem-se a impressão de que o retrocesso ganhou invulgar aceleração.

Uma distopia está à mostra: adverte a humanidade de que está correndo o relógio da destruição da natureza, do extermínio da biodiversidade, do aumento indesejável da poluição, da conspurcação da água doce, da atmosfera, do solo e dos oceanos.

Paradoxal que a caminho do ápice da ciência, estejamos nos aproximando da decadência axiológica. Tempos de crise aguda, como esta em que o Brasil mergulhou, não prestigiam a utopia, mas entendem muito mais crível a distopia. A experiência aflitiva do caos na saúde, a batalha das narrativas, o uso político das vacinas, a idiota perda de tempo com o que é de mais mesquinho na política eleiçoeira desta desprestigiada Democracia Representativa, tudo contribui para um clima de “já perdemos! Nunca mais retomaremos o rumo do verdadeiro desenvolvimento, que é o progresso moral”.

Volto à ponderação de Sérgio Abranches: “A utopia pode nos ajudar a não perder o rumo, a não ceder aos sentimentos de derrota ou pessimismo. Para orientar nossa caminhada civilizatória. É um artefato para a travessia entre um padrão e outro de organização social. Ela contém um elemento necessariamente teleológico, desenha um fim, um destino desejado e excludente de outras possibilidades”.

Não fomos criados para afundar na lama da ignorância e da mediocridade. Temos uma destinação mais nobre. Acreditamos que a missão do ser humano é explorar todas as suas potencialidades enquanto houver vida. Tentar percorrer o infinito percurso do auto-aprimoramento, até atingirmos a plenitude perfectível que se possa alcançar.

Nessa caminhada, estender a mão para o semelhante. Mas também treinar o ouvido para que ele possa escutar o lamento daquele que tem uma cruz mais pesada do que a minha. Compreender a dimensão do sofrimento e procurar minorar a angústia dos que não se resignam. Distribuir acolhimento, abrigo, afago e amor.

Algo muito vago e teórico? Não é utopia observar as necessidades dos que até agora eram invisíveis, ainda que muito próximos de nós. Abrir não só os olhos, mas a alma, à realidade inafastável de que somos todos indivíduos de uma única espécie, igualmente sujeitos às vicissitudes de uma vida frágil, cada vez mais frágil, e efêmera. Parece nunca ter sido tão fácil sair dela. Porém, é preciso valorizar cada instante a mais que nos for propiciado continuar a vivenciar esta instigante aventura de existir.

Confiemos no amanhã. A construção dele depende de cada um de nós.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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