As três crises

As três crises

José Renato Nalini*

15 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O planeta enfrenta múltiplas crises. Mas três delas são as mais graves: a crise financeira global, a crise sanitária da Covid19 e a crise climática.

A respeito desta tríplice condição ameaçadora, Mark Carney e William Collins escreveram instigante livro: “Valor (es): construindo um mundo melhor para todos (Values: building a better World for all, editora PublicAffairs.

Evidente e trágica a situação do mundo em decorrência de uma peste que causou milhões de mortes e continua a ceifar preciosas vidas. O sistema de saúde tinha todos os sinais disponíveis para saber que a humanidade corria riscos e não cuidou de se aparelhar para ao menos atenuar os efeitos da calamidade.

O que se viu foi o espetáculo da incompetência, despreparo e, lamentavelmente, novas incursões ilícitas sobre o combalido erário. Algo mais comum em países periféricos, onde a deficiente educação cívica é um aliado dos criminosos. A população não dispõe de força e de vontade política para se sobrepor aos que se valem de sua posição para afligir ainda mais os aflitos. Chega a ser massa de manobra para os populistas, enquanto uma pseudo-elite intelectual se omite ou tira vantagens de mais um atentado contra o interesse coletivo, para satisfazer cobiças individuais.

A fome se alastrou, escancarou-se a legião dos invisíveis, dos informais, daqueles que se encontram à margem da vida. Empregos desapareceram, principalmente aqueles próprios a uma economia que não acertou os seus ponteiros com as modernas tecnologias E que já estavam na mira da extinção. só que a pandemia acelerou esse processo e de maneira brutal.

O Brasil é um caso emblemático, pois vinha imerso numa profunda crise estrutural. Depois dos anos de ouro de um crescimento excepcional, mergulhou no retrocesso que o converteu num expressivo exemplo de volta ao passado: tornou-se novamente o “Fazendão”, fornecedor de grãos para o gado dos países ricos e de alimentos produzidos pelo agronegócio.

Não investiu em pesquisa e viu seus melhores cérebros fugirem para a civilização. Continuou a propiciar uma educação defasada, que não cumpriu com aquilo que é próprio dela: formar cidadãos críticos, qualificados para o trabalho e plenamente realizados como indivíduos capazes de explorarem a plenitude de suas potencialidades.

A indústria ficou sucateada, os avanços científicos vieram devagar e sempre gerados em outras nações. Pensadores mais críticos observam que o país avança, mas em marcha a ré.

Em virtude do relativo progresso do agronegócio, a política estatal liberou à ganância o maior patrimônio brasileiro: sua extensa cobertura vegetal e a sua exuberante biodiversidade.

O país que fora promissora esperança na tutela ecológica e produzira a mais bela norma fundante do século 20, o artigo 225 da Constituição da República, em pouco tempo fez ruir a consolidada edificação de uma cultura ambientalmente correta. Fez mais: desmanchou as redes protetivas, lentamente edificadas por alguns próceres ecológicos, liberou o extermínio da maior floresta tropical do planeta à cupidez e à criminalidade e puniu servidores que não coonestaram com essa prática nefasta.

O conúbio entre quem foi pago pelo povo para defender a natureza e aqueles que só querem destruí-la, causou, em pouco tempo, desastres dificilmente sanáveis.

Ocorreu que o mundo estava prestando atenção. Os protestos não tardaram a chegar. União europeia e Estados Unidos cobraram decência. Os apelos aparentemente não surtiram eco junto aos mais nocivos detratores do ambiente. É por isso que os governos subnacionais devem incorporar a cultura ESG e tudo fazer para se contrapor à barbárie. Nem todo o Brasil está com a consciência corrompida. Há governadores e há prefeitos conscientes de sua missão histórica, no momento em que a natureza está sendo exterminada.

Estes precisam atuar em suas esferas de competência para a urgente contraposição à política de eliminação dos recursos naturais, talvez a derradeira chance que o Brasil tenha de alcançar estágios em que já esteve, anteriormente a esta fase ecocida que é uma lástima.

O livro citado no início desta reflexão pode ajudar as pessoas de boa vontade. além de mencionar a desafiadora tríplice crise, faz um apelo ao reconhecimento do valor dos valores, entre os quais responsabilidade, justiça, solidariedade e resiliência. é disso que nossa pátria, tão carente de ética, está a necessitar neste momento. o compromisso com as futuras gerações é um preceito constitucional que não pode ser relegado para depois, porque talvez não haja mais tempo. E se isso vier a ocorrer, não haverá sequer quem nos venha a julgar pela dolosa omissão.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.