As transformações culturais e o seguro de vida no Brasil: perspectivas para o futuro

As transformações culturais e o seguro de vida no Brasil: perspectivas para o futuro

Nuno David*

29 de abril de 2021 | 03h30

Nuno David. FOTO: DIVULGAÇÃO

Antes da Covid-19, o seguro de vida era pouco difundido no Brasil, diferente do que era visto em países mais desenvolvidos como Estados Unidos e Japão, em que o mercado já era maduro. A pandemia veio para mudar esse cenário e fazer com que os brasileiros se questionassem: “o que acontecerá com a minha família quando eu faltar?”.

Essa é, aliás, a primeira pergunta que um vendedor de seguros norte-americano ou europeu costuma fazer a um prospect. No Brasil, porém, essa nunca foi uma abordagem viável, uma vez que os clientes podiam ver nesse vendedor um portador de “má sorte”, muito por conta do fator cultural do país – raízes religiosas somadas ao otimismo já inerente na população. Com o coronavírus, infelizmente, fomos obrigados a nos deparar com mortes diárias – muitas delas de pessoas próximas a nós, que nos obrigaram a questionar o nosso futuro e o das pessoas à nossa volta.

Com isso, estamos aprendendo que as crenças culturais e as atitudes herdadas de várias gerações estão passando por mudanças por conta de uma realidade inquestionável. A pandemia fez todo mundo vivenciar o conceito de dissonância cognitiva de uma forma dramática. E os reflexos dessa lição já estão sendo sentidos pelo mercado de seguro de pessoas.

Acresce a isso o enorme potencial de crescimento do mercado no país, principalmente no segmento de produtos de Risco (coberturas de morte e invalidez). A sociedade brasileira está passando por uma transformação cultural acelerada, no seu entendimento da importância e do valor da proteção financeira. Por tudo isso, temos que estar preparados para operar num mercado “condenado a crescer”, porque ainda é muito pequeno quando comparado ao de outros países.

De acordo com o 7º Relatório de Análise e Acompanhamento dos Mercados Supervisionados (Susep), o percentual de prêmios de Seguros de Vida (Risco) sobre o PIB brasileiro foi de apenas 0,65% em 2019, refletindo uma contribuição para o PIB per capita de R$223. Esse percentual é acrescido pelos produtos de Acumulação, somando 2,43% do PIB (R$838 per capita). Este é um quadro característico de países em desenvolvimento. Nas nações desenvolvidas, o crescimento do PIB é tipicamente acompanhado por um aumento da contribuição do mercado de Vida e Previdência para a sua constituição, configurando assim um duplo crescimento: do PIB e da contribuição de seguros de vida e previdência dentro dele.

Pensando nesse espaço no mercado nacional a ser preenchido, as seguradoras devem investir em práticas e políticas que apoiam clientes e corretores durante toda a trajetória de vida e que podem servir de parâmetro para outros players do segmento. Dentre as ações estão diversificação dos modelos de negócio; a phygitalização dos processos de venda (onde o consumidor pode ter um primeiro contato pela loja online, solicitar uma consultoria a um corretor parceiro que, depois, pode acontecer pessoalmente, por WhatsApp ou videoconferência, conforme comodidade de ambos); desenvolver ofertas para todos os segmentos da sociedade e soluções tecnológicas que se fundam ao negócio.

E o que esperar do mercado após a pandemia? Segundo a Global Data, uma das mais respeitadas consultorias multinacionais de Inteligência de Dados, o mercado de Vida e Previdência é uma das duas linhas de seguro que mais deverão crescer mundialmente (a outra é Saúde). Se esta é a perspectiva mundial, incluindo em mercados desenvolvidos e consolidados, tudo o que vimos até aqui indica um potencial de crescimento ainda maior no Brasil.

Nunca tivemos uma responsabilidade e uma oportunidade tão grandes de cumprir o nosso propósito de prover soluções de proteção individual nos diversos momentos de vida de todos os brasileiros. Do ponto de vista dos profissionais do setor de seguros, cabe a todos estarem à altura deste desafio perante a sociedade. Somos agentes de uma mudança boa e necessária.

O importante é termos em mente que o otimismo que nos caracteriza regressará rapidamente ao nosso cotidiano, à medida que a vacinação avançar e o vírus seja contido. Mas não ter aprendido nada com a pandemia, é sair dela apenas com perdas e ao custo que ela se está fazendo pagar, isso é inaceitável.

*Nuno David, CMO da MAG Seguros

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