As suspeitas da PF que ligam Lula ao sítio em Atibaia

As suspeitas da PF que ligam Lula ao sítio em Atibaia

Confira, ponto a ponto, todas as citações ao ex-presidente Lula e seus familiares no laudo dos peritos da Polícia Federal sobre o imóvel que recebeu reformas de empresas investigadas na Lava Jato

Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Julia Affonso

28 de julho de 2016 | 16h49

MF ATIBAIA/SP - 03/02/2016 - EMBARGADO / CHACARA / LULA - NACIONAL - Imagens do suposto sitio do ex-presidente Lula, na cidade de Atibaia. FOTO: MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Imagens do sitio frequentado pelo ex-presidente Lula, na cidade de Atibaia. FOTO: MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

Em mais uma etapa da investigação contra o ex-presidente Lula na Lava Jato, peritos da Polícia Federal analisaram minuciosamente todas as obras e reformas ocorridas no sítio em Atibaia pertencente a Fernando Bittar, amigo de um dos filhos de ex-presidente, e frequentado pelo petista e seus familiares.

Em laudo de 78 páginas, os peritos criminais federais João Jose de Castro Vallim e Ior Canesso Juraszek apontaram que desde que o sítio foi adquirido em 2010 por Bittar, ele recebeu reformas que ampliaram sua área construída em cerca de 520 m² e teriam custado, pelas estimativas da PF, R$ 1,2 milhão. O imóvel entrou no radar da Lava Jato após os investigadores descobrirem que as reformas no local foram pagas e executadas pela Odebrecht e pela OAS.

Os peritos também apontaram alguns fatos novos sobre as obras e levantaram suspeitas de que o ex-presidente Lula e sua mulher Marisa Letícia teriam orientado diretamente a reforma da cozinha do imóvel, que ficou em R$ 252 mil. Confira abaixo os principais pontos envolvendo o ex-presidente e seus familiares:

1-  O projeto da reforma da cozinha do sítio, feito pela empresa Kitchens a pedido do arquiteto da OAS Paulo Gordilho, foi encaminhado via e-mail para o dono do imóvel, Fernando Bittar em 10 de março de 2014. Sete minutos depois, o material foi encaminhado a Sandro Luis Lula da Silva, filho do ex-presidente.

laudolula1

laudolula2

2 – Em mensagens encontradas no celular de Paulo Gordilho, o arquiteto admite a familiares que iria participar de um churrasco com o então presidente da OAS Léo Pinheiro com o ex-presidente e a ex-primeira-dama no sítio em Atibaia, que ele chama de “fazenda do Lula”.

O arquiteto não apenas pede a familiares que mantenham sigilo sobre seu encontro com o casal, como ainda deixa claro que vai tratar de obras no sítio com Lula e Marisa, que tinham discordâncias sobre mudanças no imóvel, segundo o arquiteto.

laudolula3laudolula4

3 – Paulo Gordilho também conversa com Leo Pinheiro sobre a criação de dois centros de custos na OAS específicos para cuidar das obras do imóvel em Atibaia e da reforma no tríplex no Guarujá – onde a família de Lula adquiriu uma cota no empreendimento, que pertencia a Bancoop, mas depois desistiu, sem nunca ter morado no local – também feita pela empreiteira.

4-  Além dos centros de custo específicos para acada uma das obras, a Polícia Federal identificou em um dos diálogos de Gordilho com Léo Pinheiro que o então presidente da empresa informa que será enviada uma equipe da OAS de Salvador para cuidar das obras do sítio a pedido da “dama”, que a PF suspeita ser Marisa Letícia.

“A reforma executada na cozinha não exigia nenhuma mão de obra altamente qualificada que justificasse a vinda de uma equipe específica de Salvador, ainda mais considerando a proximidade de Atibaia a São Paulo”, assinalam os peritos.

 

laudolula6

5 – Além de apontar que o ex-presidente e a ex-primeira-dama teriam orientado na reforma da cozinha do sítio, a Polícia Federal destaca também que foram encontradas notas fiscais das obras no imóvel na residência de Lula.

laudolula8

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LULA:

“Em relação às reportagens sobre um laudo elaborado pela Polícia Federal sobre o sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), com referências ao ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os seus advogados esclarecem que:

1. A realidade incontestável é que Lula não detém a propriedade do sítio em questão. Ignoram-se provas existentes nos autos que demostram ter sido a compra da propriedade feita por Fernando Bittar com recursos doados por seu pai, Jacó Bittar. Se a propriedade é de um terceiro, nada do que se disser muda essa situação. Lança-se mão, assim, mais uma vez, de subterfúgios de diferentes naturezas e formas com a finalidade de, misturando fatos que não de comunicam, criar versões manifestamente incorretas com a finalidade central de inventar um ilícito para ser atribuído a Lula;

2. O juiz Sergio Moro – antes de qualquer apuração dos fatos – prejulgou o assunto tratado no laudo em 29/03/2016, ao encaminhar ofício ao Supremo Tribunal Federal, para instruir a Reclamação 23.457/DF, afirmando, sem qualquer base real, que Fernando Bittar seria “proprietário formal” do sítio. No mesmo documento, Moro assumiu o papel de acusador e por doze vezes atribuiu a prática de crime a Lula, em conduta incompatível com a imparcialidade que deve ser observada pelo julgador, de acordo com a Constituição Federal e as leis internacionais. Essa questão é central na comunicação feita por Lula à ONU na data de ontem (28/07/2016);

3- É reprovável que a mídia faça jornalismo sensacionalista em cima de um laudo policial inconclusivo e elaborado sem observância das provas existentes nos autos. Demonstra – como também exposto no comunicado à ONU -, sua parcialidade como fonte noticiosa, dando guarida ao prejulgamento já realizado pelo juiz Sérgio Moro em 29/03/2016, para atacar a imagem e a honra de Lula;

O ex-Presidente Lula não praticou qualquer ato ilegal antes, durante ou após o seu mandato e por isso não teme qualquer investigação. Mas, como qualquer cidadão, exige que sejam observadas as garantias previstas na Constituição Federal, bem como aquelas asseguradas em Tratados Internacionais que o Brasil subscreveu e se obrigou a cumprir. E não deixa de causar estranheza que o referido laudo policial – em procedimento conduzido pelo juiz Sergio Moro – tenha vindo a público exatamente no mesmo dia em que os advogados do ex-Presidente protocolaram perante a Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, uma reclamação por graves violações ao Pacto de Direitos Civis e Políticos, cometidas pelo citado magistrado. Não deixa de configurar ato reprovável de retaliação por parte de agentes do Estado.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.