As provas da JBS contra a ‘lavanderia de dinheiro’ do operador de Cunha

As provas da JBS contra a ‘lavanderia de dinheiro’ do operador de Cunha

'Planilha Lucio' entregue por Joesley Batista registra R$ 173 milhões repassados para Lucio Bolonha Funaro, entre 2011 e 2014, que tinha parte do montante destinado ao ex-presidente da Câmara, preso pela Lava Jato; investigadores receberam ainda contrato fictício e notas fiscais

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Luiz Vassallo

01 de junho de 2017 | 05h00

Da esquerda para a direita: Lúcio Funaro e Eduardo Cunha. Foto: Estadão

Os delatores da J&F entregaram para a força-tarefa da Operação Lava Jato a planilha de controle da “conta-corrente” mantida com o lobista Lucio Bolonha Funaro, apontado como o operador de propinas do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O material, chamado pelos delatores de “planilha do Lúcio”, tem os registros de repasses pela atuação do peemedebista em favor da empresa, no Congresso, no Ministério da Agricultura, na Caixa Econômica Federal e no Fundo de Investimentos do FGTS – áreas onde mantinha influência política.

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“As operações foram realizadas e a propina foi paga, por meio de um sistema de conta-corrente criada para registar as entradas decorrentes da liberação dos financiamentos e as saídas, que se davam ora por meio de pagamentos em espécie em reais ou dólares, ora contra notas fiscais emitidas a empresas do grupo, por empresas titularizadas por Lucio Funaro ou por outras empresas indicadas por Funaro, titularizadas por terceiros”, informa o anexo entregue por Joesley aos investigadores.

Na “planilha Funaro” consta um total de R$ 173 milhões de pagamentos, entre 2011 e 2014. Joesley Batista explicou que esse foi o valor repassado ao operador de propinas de Cunha. Parte do dinheiro, segundo o delator, era para o ex-presidente da Câmara – que recebeu ainda outros R$ 20 milhões pela aprovação de incentivo para setor de carnes.

No resumo final da contabilidade paralela da empresa, consta quanto cada empresa do Grupo J&F pagou para Funaro, entre elas a JBS, a Eldorado Celulose, a Flora Distribuidora de Produtos e de Higiene e Limpeza, a Vigor e a própria J&F. Segundo os delatores, os pagamentos eram por meio de contratos fictícios e também foi entregas de dinheiro em espécie.

Como provas de corroboração, os delatores entregaram ainda contratos feitos para justificar os repasses de propinas e as notas fiscais dos pagamentos para empresas de Funaro.

“O Lucio Funaro é o operador financeiro do Eduardo do esquema PMDB da Câmara. O esquema PMDB da Câmara é composto pelo presidente Michel (Temer), Eduardo, enfim, e alguns outros membros”, afirmou o delator. O lobista está preso desde junho do ano passado na Penitenciária da Papuda, em Brasília. Nesta terça, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou um pedido de liberdade para o investigado.

Uma das empresas usadas por Funaro ara receber dinheiro da J&F era a Viscaya Holding Ltda. Os delatores entregaram para os investigadores da Lava Jato os contratos com a empresa. Um deles é de 2012 que previa o pagamento de R$ 100 milhões, de forma parcelada. O objeto do contrato está relacionado à compra da Bertin, em 2010, pelos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista.

Referente ao mesmo negócio, os delatores entregaram um segundo contrato entre a Viscaya, a J&F e a Serra da Carioca Comercializadora de Energia Elétrica Ltda, também do lobista. É um termo de cessão de direitos creditórios, em que a Viscaya cede R$ 40 milhões para a Serra, dos R$ 100 milhões que ela tem a receber dos irmãos Batista. Outras empresas usadas por Funaro são a Araguaia Comercializadora de Energia e a Gallway Energia.

 

“De 2001 a 2013 eu tratava só com o Lucio. Depois em conheci o Cunha.”

O delator afirma que Cunha e Temer eram o “grupo da Câmara dos Deputados do PMDB”. E que os valores pagos para Funaro, também tinham como destinatário o ex-presidente da Câmara – que nega. “Foram R$ 170 milhões no total”, afirmou Joesley, sobre os pagamentos para o lobista. (ouça aos 17 mi e 50 seg)

A delação do empresário e outros seis nomes ligados à J&F desencadearam a Operação Patmos, no dia 18, que encurralou Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), sob suspeita de envolvimento com crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução à Justiça.

Caixa. Os negócios da Eldorado, uma das fontes pagadoras, foram alvos da Operação Sépsis, um desdobramento da Lava Jato que prendeu Funaro. Ele foi acusado pelo ex-vice presidente da Caixa Fábio Cleto por receber propinas para liberação de empréstimos do FI-FGTS, o fundo que usa recursos do FGTS para investir em projetos de infraestrutura. Funaro seria um preposto de Cunha.

“O Lucio sempre falava em nome do Eduardo Cunha. Eu nunca tinha ouvido falar. Um tal de deputado Eduardo Cunha, Eduardo Cunha. Eu nunca tinha visto um deputado tão relevante quanto a importância que ele dava para esse deputado”, explicou Joesley, ao falar de sua aproximação com Funaro.

Na delação dos irmãos Batista eles detalham a relação com Funaro e o episódio dos financiamentos na Caixa e do FI-FGTS, com ajuda de Cleto, que seria apadrinhado no esquema. De acordo com Joesley, em oito transações envolvendo empresas do grupo e o banco estatal, entre 2011 e 2014, o operador de Cunha recebeu ao menos R$ 89,9 milhões – pagamentos estão registrados na planilha de R$ 173 milhões.

Batista contou aos procuradores que conheceu Funaro, em 2011, atendendo a um pedido do empresário Paulo Sergio Formigoni de Oliveira. O operador financeiro, disse Joesley, teria informado que atuava em conjunto com o ex-deputado Eduardo Cunha com o “respaldo político” do então vice-presidente, Michel Temer.

O delator narra, no depoimento, um jantar em que foi pela primeira vez na casa de Funaro, onde estava o ex-presidente da Caixa. Funaro teria prometido ajuda na liberação de valores da Caixa uma vez que ao lado de Cunha teria indicado o Fabio Cleto para a vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias da Caixa. No cargo, Cleto também era representante do banco no Conselho Curador do FGTS.

 

O delator disse que acertou com Funaro o pagamento de 3,5% do valor de quase R$ 1 bilhão do empréstimo que seria concedido para a construção da fábrica da Eldorado. O mesmo negócio, segundo os delatores, teve empréstimo ainda de R$ 2 bilhões do BNDES, com pagamento de US$ 30 milhões de propina para a “conta corrente” Dilma Rousseff – que era um acerto com o ex-ministro Guido Mantega.

“Ele (Funaro) sempre dizia ‘eu falo em nome do Eduardo e Eduardo é da turma do Michel'”, afirmou Joesley. Foram pagamentos mensais pagos pela Eldorado, por meio de notas frias.”

Agricultura. À partir de 2013, Joesley conta que seus contatos com Cunha aumentaram, em especial por negócios no Ministério da Agricultura. O delator citou o repasse de R$ 7 milhões.

“Esse grupo Lucio Eduardo vinham encampando setores, ministérios. Depois de encamparem FI-FGTS, encamparam a Caixa e aí acharam… Acho que estavam com bastante relacionamento conosco, estavam ganhando muito dinheiro de propina na época, acho que vislumbraram no Ministério da Agricultura uma possibilidade de fazer muito dinheiro ali, porque somos umbilicalmente ligados ao ministério.”

Helicóptero. Essas transações por negócios relacionados ao Ministério de Agricultura também envolveram o repasse de helicóptero para Funaro, como forma de pagamento de propina.

O primeiro pagamento na Agricultura ocorreu quando houve a liberação para a exportação de despojos animais. De acordo com Joesley, a JBS nem havia pleiteado a medida, mas foi cobrada em R$ 2 milhões por Funaro.

“E teve um que eu pedi que era sobre vermífugos. Isso era muito importante para o Brasil, tanto que depois até mudou a norma nos Estados Unidos. Esse eu paguei R$ 5 milhões. Eu tinha um helicóptero lá e entrou como meio de pagamento”, acrescentou.

A ajuda financeira a Cunha e Funaro continuou mesmo após a prisão deles, por meio do pagamento a intermediários para que permanecessem calados, segundo os delatores.

A defesa de Cunha informou que ainda iria analisar os elementos de prova antes de comentar.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LUCIO FUNARO

O advogado de Lucio Funaro, Bruno Espiñeira, afirmou que a delação de Joesley será tratada como mais uma delação. “Existe sim um contrato lícito do Lúcio com o grupo dele e essa coisa de transformar tudo em vala comum, receber propina para silenciar, não se sustenta e será esclarecido”, afirma o advogado

 

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