As pandemias e a batalha por dados precisos

Diogo Rosanelli*

30 de agosto de 2020 | 12h00

Estamos passando pela maior crise pandêmica mundial desde a gripe espanhola em 1918, que teve um impacto devastador e, durante dois anos, infectou cerca de 500 milhões de pessoas (um terço da população mundial da época) e matou entre 25 a 50 milhões entre 20 e 40 anos. E no começo deste ano, fomos surpreendidos com um surto de gripe causada pelo novo coronavírus (covid-19), que em janeiro levou a OMS a declarar nível de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Estas crises pandêmicas foram importantes para a valorização dos sistemas de saúde pelos países, mas ainda existem algumas atividades que realizamos de forma arcaica e que poderiam nos trazer maior agilidade no processo de cadastro, análise e divulgação dos dados.

O inverno é a época em que as regiões sudeste e sul do Brasil têm altos índices de Síndrome Respiratória Aguda (SRAG), causados pelas diversas doenças respiratórias (asma, rinite, sinusite, bronquite, tuberculose, pneumonia) e potencializadas nesta época do ano devido ao clima. Ao se somar os casos de SRAG com os casos de covid-19, as instituições de saúde precisam ser ágeis no processo de registro e análise das informações de casos, para fornecer uma visão ampla, permitindo que os governantes possam tomar as devidas providências, evitando o aumento no número de casos e óbitos, mantendo sempre o foco em salvar vidas.

Cerca de 100 anos após a gripe espanhola, ainda executamos no Brasil, e em outros países pelo mundo, algumas atividades de forma manual. Um exemplo são as fichas de cadastro de pacientes nos hospitais, que ainda são feitas em papel. Consultando o portal do coronavírus na Plataforma IVIS (Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde), temos acesso aos dados abertos relacionados a SRAG. Nas informações compartilhadas, vemos as fichas utilizadas nos hospitais para registro de pacientes com casos da síndrome, hospitalizados ou que vieram a óbito.

Há hoje no Brasil 315 mil estabelecimentos de saúde ativos, sendo 221 mil privados, 86 mil públicos e 7 mil sem fins lucrativos. A grande parte das instituições está localizada na região sul e sudeste do país. Diante desse cenário, algumas perguntas são importantes: como coletar e analisar rapidamente os dados de todas estas unidades de saúde? Como saber se uma doença está se espalhando pelo país e quais regiões mais críticas? Como ser transparente com a população divulgando frequentemente dados reais?

Com estes desafios em mãos, e analisando o cenário de transformação digital que vivemos já há algum tempo no mundo, temos que pensar em informatizar e integrar cada vez mais os processos, sejam eles em instituições governamentais ou privadas. É necessário aprimorar algumas atividades do Sistema Único de Saúde (SUS) para resolvermos um problema crítico no Brasil, potencializado com a pandemia: a falta, atraso ou distorções nos dados estatísticos divulgados para os casos de coronavírus e que, também, ocorrem para todo tipo de atendimento realizado nas unidades de saúde pelo país.

Vivemos em uma época em que dados são gerados aos milhões a cada segundo e nossa vida está cada dia mais digital. Fazemos praticamente todas as transações bancárias, pedimos comida, remédios, acessamos filmes, ouvimos as músicas mais recentes através de aplicativos e dispositivos móveis. Todo este movimento aproximou muito as pessoas e potencializou a geração de dados. O conhecimento não está mais centralizado em pequenos locais, ele é global e você pode acessá-lo rapidamente.

Para solucionar estes problemas de integração entre os diversos atores neste sistema complexo do Ministério da Saúde e empoderar mais os usuários de cada ponta, a tecnologia GIS (Geographic Information System, ou Sistema de Informações Geográficas) entra como uma forte solução a se aplicar para orquestrar componentes na organização, focado em quatro pilares:

  • Sistema de engajamento: toda ferramenta ou solução que afeta diretamente a vida das pessoas envolvidas em todo o processo de negócio.
  • Sistema de automação: soluções que fornecem a capacidade de integrar o GIS a sistemas ou processos no mundo real dos usuários.
  • Sistema de registro: ferramentas que fornecem o suporte operacional para que os processos de negócio sejam operacionalizados.
  • Sistema de insights: ferramentas que lhe fornecem capacidade de análise de dados apoiando o processo decisório dos usuários.

Com estes quatro pilares como sustentação, pode-se então estruturar a arquitetura de uma solução GIS com ferramentas que darão todo o apoio na integração de todas as pontas envolvidas na hierarquia do Ministério da Saúde.

Converter o formulário de registro para o formato digital, para que possa ser preenchido considerando algumas regras de validação de dados, seria apenas o começo do processo de transformação digital na área de saúde, que pode chegar à coleta de dados e apresentação de resultados, em tempo real, através de painéis de indicadores. Tudo isso tornaria o processo de trabalho mais simples, além de fornecer a capacidade de acesso às informações coletadas em tempo real, agilizando o processo de tomada de decisão.

*Diogo Rosanelli é Desenvolvedor Fullstack da Imagem Geosistemas, distribuidora oficial da Esri no Brasil

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