‘As obras que ganhamos sempre houve propina’, diz Ricardo Pessoa

Empreiteiro delator, dono da UTC Engenharia, disse que pagava a dirigentes da Petrobrás e que tratava dos pagamentos com executivo da Odebrecht

Redação

03 de setembro de 2015 | 15h10

Ricardo Ribeiro Pessoa, presidente da UTC. Foto: Marcos Bezerra/Futura Press

Ricardo Ribeiro Pessoa, presidente da UTC. Foto: Marcos Bezerra/Futura Press

Por Ricardo Brant, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

O empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, declarou na audiência em que são réus o presidente e executivos da Odebrecht que havia um ‘pacto de não agressão’ entre as empreiteiras que formaram cartel na Petrobrás. Ele citou, uma a uma, as obras em refinarias que a UTC Engenharia, da qual é o presidente, ganhou na estatal – segundo Pessoa, 70% dos negócios da UTC estão na Petrobrás.

“As obras que ganhamos sempre houve propina”, afirmou ao juiz federal Sérgio Moro.

O juiz da Lava Jato perguntou se havia dificuldades com os contratos se não houvesse pagamento de propinas.

“Na verdade isso era automático, passou a ser um fato levando a outro. Não se discutia mais se tinha que pagar ou não. Discutia-se quanto ia pagar”, respondeu o empreiteiro.

“Alguma vez o sr se recusou a pagar?”, indagou o juiz.

“Não me recordo de ter recusado nenhum, talvez diminuído,redução (do valor).”

Eu depositava oficialmente numa conta do PT, diz delator sobre propina

Ele apontou, por exemplo,o contrato da REPAR (Refinaria Getúlio Vargas do Paraná). “Um caso mais claro é o da REPAR. Ficamos encarregados de pagar a Diretoria de Abastecimento e a Odebrecht ficou encarregada de resolver o problema da Diretoria de Serviços. Como um depois não falava com o outro eu não tenho como afirmar se alguém pagou. Nós pagamos o que nós combinamos de pagar. Foi tratado entre a UTC e a Odebrecht e a OAS também,”

Ao falar de propinas no âmbito do Consórcio TUC no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o empreiteiro foi taxativo. “É uma história um pouco mais longa, mas também houve pagamento de propina. Nesse caso ficamos encarregados de pagar a Diretoria de Serviços (comandada por Renato Duque, elo do PT na Petrobrás), o sr. João Vaccari e o ao (Pedro) Barusco. Fizemos esses pagamentos, consta do meu termo de colaboração. (Nesse caso) não ficamos com a Diretoria de Abastecimento, não ficou a nosso cargo, ficou a cargo do Márcio (Faria, executivo da Odebrecht) resolver o que fazer.”

O juiz Sérgio Moro indagou do empreiteiro. “Essa negociação de pagamento de propinas era pactuada entre todos os participantes?”

“Sim, mesmo porque o custo era do consórcio”, respondeu Ricardo Pessoa.

O juiz da Lava Jato quis saber com quem da Odebrecht o empreiteiro tratou sobre propinas. “Tratou com algum executivo da Odebrecht nesse contrato (Consórcio TUC no Comperj)?”

“Com Márcio Faria.”

“Com nenhum outro?”, insistiu o juiz.

“Não.”

“Minhas tratativas eram com Márcio Faria”, declarou o empreiteiro delator.

“Márco Faria tinha autonomia ou se reportava a algum superior?”, questionou o juiz da Lava Jato.

“Sempre teve autonomia”, respondeu Ricardo Pessoa.

O juiz quis saber se alguma vez Márcio Faria mencionou necessidade de tratar da propina com algum superior. “Não”, disse o empreiteiro.

O juiz perguntou se ele conhece o presidente da Odebrecht. “Conheço, estive com ele duas vezes, não tratei com ele esses assuntos, absolutamente.”

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

“O depoimento de Ricardo Pessoa derruba a tese simplista de um clube de empresas que funcionava como cartel nas licitações da Petrobrás. O delator também deixou claro que pode falar apenas pelos próprios atos e não responde sobre terceiros.”

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