As novas gerações de paulistanos e sua relação com as culturas

Sabrina Generali*

25 de janeiro de 2020 | 03h00

Ao caminhar por bairros de São Paulo, conseguimos reconstituir uma série de ondas migratórias ao longo de seus 466 anos: italiana, japonesa, judaica, mais recentemente boliviana, dentre tantas outras. Hoje, talvez possamos dizer que estamos em meio a uma onda multicultural de migração, em que vemos chegando à cidade venezuelanos, haitianos, congoleses e pessoas de diversas outras nacionalidades em busca de melhores condições de vida, de emprego, de educação.

Alguns estão por aqui somente de passagem, mas muitos permanecem, se misturam e se integram a essa imensa cidade. Há aqueles que vêm com a família, outros a constituem por aqui e, assim, vemos florescer e crescer na cidade uma nova geração que pode ser tão rica em vivências, experiências e trocas culturais. Mas, quantos de nós, paulistanos nascidos e criados aqui, realmente dedicamos nossa atenção e tempo com a finalidade de promover a interculturalidade com aqueles que estão chegando? Como recebemos e acolhemos as crianças com as quais passamos a compartilhar o território? Há uma proposta de integração delas à sociedade? E de integração dos que já estão por aqui com aqueles que chegam? O que vislumbram os jovens migrantes para seu futuro? Seria um futuro nesta cidade?

Precisamos, a cada dia mais, pensar em uma São Paulo cosmopolita não apenas por seus negócios internacionais e grandes edificações, mas também pelas diversas influências culturais estrangeiras que enraizam no asfalto, ocupam os bairros, recitam novas sonoridades pelos passeios, nos apresentando novos aromas e, assim, constroem uma nova São Paulo.

Essa rica diversidade soa poética, especialmente quando associamos a cultura ao turismo ou ao lazer. Mas presencio nos noticiários diariamente, em minhas pesquisas, em visitas a escolas e pelas ruas do centro da cidade algo bem diferente. Existe uma experiência extenuante no processo migratório: da escassez no país de origem à dificuldade de comunicação em outra língua; da obtenção de documentação à conquista de uma acomodação digna; do preconceito étnico-racial sofrido no dia a dia à matrícula das crianças em uma escola; da busca por um emprego à integração à sociedade.

São Paulo foi construída por pessoas nascidas aqui e também por muitos migrantes – brasileiros e estrangeiros –, e será movida nos próximos anos pela participação de diversas crianças e jovens oriundos de diferentes países que aqui crescerão. A cidade em que viveremos é, definitivamente, multicultural. Mas vivo a me questionar sobre o que podemos fazer para torná-la mais intercultural, para todos termos maior percepção das trocas e dos laços culturais que estabelecemos quase que imperceptivelmente no dia a dia. Para mim, não restam dúvidas de que nossos olhares, vozes e ouvidos devem estar voltados aos mais jovens, gerações que, por meio da leitura de conteúdos jornalísticos e literários podem avançar para uma leitura de mundo mais crítica e atuante, pautada na promoção da cidadania e dos direitos humanos.

Se o aniversário é o início de um ano novo, também é um momento para refletir e fazer promessas de que seremos melhores. Neste 466º ano novo de São Paulo, pensemos na cidade que queremos e como nós mesmos podemos contribuir para cuidarmos da nossa própria casa.

*Sabrina Generali, gerente de Marketing do jornal Joca e Doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM), onde pesquisa a relação entre jornalismo e interculturalidade em escolas da cidade de São Paulo

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