As mulheres precisam opinar mais

Silvina Ana Ramal*

03 de outubro de 2017 | 05h15

Os casos recentes de abuso sexual nos ônibus do Rio e São Paulo deixou um sentimento na maioria das mulheres de que a sociedade não as protege como deveria. Como podemos mudar isso? Muito simples, temos que participar mais.

Os órgãos de poder e tomada de decisão no Brasil estão dominados por homens, então não estranha que as leis muitas vezes transpareçam o desconhecimento dos desafios enfrentados pelas mulheres.

Vamos ver os números. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2016, 7.800 mulheres se elegeram vereadoras no Brasil. Isso representa 13,5% do total dos cargos. As 659 prefeitas eleitas nesse ano representam 11,5% do total do País.

Em nível estadual estamos ainda pior: de todos os Governadores eleitos em 2014, apenas uma é mulher, Suely Campos, em Roraima.

No nível federal, a situação não muda. Embora representem mais da metade dos eleitores brasileiros, as mulheres ocupam 45 das 513 cadeiras do Congresso Nacional e cinco lugares dos 27 no Senado. Isso representa, respectivamente, 8,8% e 18,5%.

Esses números se repetem na maioria das instâncias, mostrando que o Brasil ainda precisa trabalhar muito pela equidade de gênero. Não é à toa que, na pesquisa realizada pela União Interparlamentar em 193 países, sobre representatividade feminina de mulheres no Congresso, o Brasil ocupa a 155ª posição, atrás de países como Afeganistão e Arábia Saudita.

Como queremos ter leis, sistemas e políticas que nos protejam se não participamos ativamente de sua elaboração e implementação?

Os partidos brasileiros, atentos ao problema, têm tentado atrair lideranças femininas para seus quadros.

No entanto, a própria estrutura de poder dos partidos, com cúpulas dominadas por homens, funciona como um freio à participação das mulheres. É claro que os próprios pilares de nossa cultura, a organização familiar e o papel que usualmente se atribui às mulheres, também trabalham contra sua participação na política.

Outro freio, sem dúvida, é a própria visão que a mulher tem dela mesma, os objetivos de vida que se propõe e suas crenças de quão longe pode chegar dada sua capacidade e inteligência. Em geral, a mulher se considera muito menos inteligente e capaz do que é na verdade.

Um estudo realizado nos Estados Unidos mostra que com 15% de participação feminina já é possível aprovar leis favoráveis não só à mulher, mas também às famílias.

Nesse país, mais avançado que o nosso em questões de equidade de gênero, foi criado o Congressional Caucus for Women’s Issues, um organismo que reúne senadoras e deputadas de todos os partidos que ignoram suas diferenças para debater, criar e aprovar leis favoráveis às mulheres. Entre suas conquistas estão leis referentes à violência contra a mulher, discriminação da gravidez, apoio a empreendedoras.

Que este organismo inspire um movimento parecido no Brasil, unindo congressistas mulheres de todos os partidos e ideologias em torno de nossa causa única.

*Mestre em Administração pela PUC-Rio

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