As minas de Mafra Carbonieri

As minas de Mafra Carbonieri

Caetano Lagrasta*

15 de novembro de 2021 | 10h30

Caetano Lagrasta. FOTO: DIVULGAÇÃO

I – Chegança

Quatermain apresentou a Winchester de repetição, com balas ocas, fazendo o rei Twala sentir comichões nos dedos e às partes pudendas, com sangue aos olhos e o gosto acre à boca, enquanto recolhiam restos do jovem assassinado por deixar cair, naquele silêncio de tiranos, seu pobre escudo.

Melhor, e mais no jeito, foi em seguida, o tiro na parte espalhada da lâmina da azagaia e que se espatifou no solo como grãos de brilhantes, enfeitiçando os olhos e acalentando os ouvidos do rei e daquele amontoado de soldados – como todos – ridículos pasmados, com o sol a amolecer-lhes o que lhes restava de miolos obedientes.

Na releitura de Haggard, distraía meus cansados olhos embaçando os óculos, nesta tarde de novembro e já repleta de bafios mornos, a espiar por vezes o sol reflexo em outros prédios – horizonte minúsculo, às vezes enfeitado por algum vulto de mulher. E eis que, senão quando, recebo volumes recentíssimos de Poesia Reunida, em feixe, dos idos de 50 a dois mil e 20. Semelhante ao tesouro das minas de Salomão, a ser desbravado, mostrando o Carbonieri explorador de terras e mares, tensões e tesões, que tempos atrás em concurso de contos – relegara os meus, parcos e em mal traçados sonhos, a breve diploma de menção, enquanto os dele, flutuavam em prêmio por sobre bem contadas aventuras.

Entre as imagens e palavras do colonialismo tardio e ofensivo de ingleses, invadem-me o quarto as incomensuráveis estampas atrozes de Goya, em outras palavras que repetem desgraças da realidade, sorrisos e esgares, olhos que se plantam aos céus e bocas abertas todas que contam da loucura gritada: Saturno devorando a seu filho  ou o Coloso: Pantagruel que investe aos céus dominando as idiotices e traições de caravanas ou de acampamentos e seus animais, prontos para historiar derrotas onde a Morte sempre se sagrará vencedora. 

II – Versos

Quinhentas páginas, piu ò meno (cosí si dice?), que sei eu.

E se disser que vou ler todos, minto; se não ler nada, traio. Escolho o meio da virtude: um pouco de cada volume, com ou sem destaque, mesmo porque o Autor dispensa comentários de qualquer um (ou será: de um qualquer?) no acalentar a beleza de seus versos.

E precisa? Alguém irá ler ou deixar de folheá-los por culpa de infeliz comentário e com base em qual? – conhecimento do autor; desconhecimento absoluto? – ah, por fim a sentença: nem se deu ao trabalho de selecionar versos ou poema inteiro… que cafajeste.

Se fosse um romance então, contaria a história inteira e deixaria de fora o final ou desvendaria, como se fosse um investigador dos anos 60, que sabia dos mortos e desaparecidos, mas manteve o suspense de não lhes dizer o nome ou em que pântano merdoso afundara o corpo, aos buracos de balas e queimaduras outras, quase duro, enquanto os mosquitos e vermes lhes mastigavam o tornozelo.

Conto seria melhor: tudo menor e – se o caso – bem contado. Fácil, lido aos trancos sem precisar ler tudo, basta o início e o final adivinhado, em resenha imprevisível, para notar que o freguês sorria satisfeito…

Mas, guardo palavras que ao arrasto, me invadem:

Há os que não escrevem

(profanam)

Há os que não contam

(não contam)

Outras põem em nós, todos, sorrisos de mentira:

Ela não veio

por minha biblioteca

(atordoou-a o escritório).

Como decifrar o mistério das lombadas?

Aos arrancos soletrou Conrado Honório.

Desprezou Balzac. Temeu O Corvo.

Só chegou a folhear Lady Chatterley’s Lover

(talvez entendesse de jardinagem).

Por fim, pra não me mostrar às custas do Poeta:

Um dia. Agonia. Um ano.

Me enterrem com aviso de recebimento.

Não quero vagar no limbo

por desengano ou incúria. 

III – Encontrados e Perdidos

Biografia de sentimentos, espalhados por heterônimos, uma italianada dos diabos, mais Conrado Honório e Roque Rocha, todos tão repletos de imagens a formar butim de diamantes; tesouro não mais da juventude, antes de venturosa e incompreendida velhice:

Atingiu a razão e a maturidade com relutância”: 

Agora,

soltando lentamente esse cabresto,

escorregando a crina,

no olho branco o cintilar da foice,

morda o freio, mulher,

e me dê um coice.

E, ao cabo, a confissão:

Acabo de escrever

um romance de seiscentas vaginas. 

P.S. – As presas do grande macho que matou o pobre Khiva foram colocadas no saguão aqui, sobre o par de chifres de búfalo que você me deu, e ficaram magníficas. E o machado com que cortei a cabeça de Twala está pendurado acima de minha escrivaninha. Queria que pudéssemos ter trazido as cotas de malha. Não vá perder o cesto da pobre Foulata, que você usou para carregar os diamantes.

*Caetano Lagrasta, magistrado desde 1975, aposentado compulsoriamente desembargador, depois de 38 anos de carreira, em razão dos 70 anos de idade, em 2013; contínuo, em 31 de março de 1964, no Tribunal de Alçada Civil e, depois de 12 anos, diretor de seu Departamento de Jurisprudência; árbitro nos últimos cinco anos, advogado formado na Faculdade do Largo de São Francisco, onde ocupa na Academia de Letras, a Cadeira Graciliano Ramos

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