As mídias sociais inflamam a destruição da Amazônia

As mídias sociais inflamam a destruição da Amazônia

Charles Davis, Goia Lyra, Caio Silva, Mariana Guimarães, Jean Wyllys e Aaron Ellison*

17 de abril de 2020 | 09h50

Os seres humanos sempre alteraram o meio ambiente, mas hoje a natureza enfrenta um novo inimigo nas mãos da humanidade. As mídias sociais e a Internet revolucionaram nossas vidas de muitas maneiras positivas, mas também têm um lado sombrio. As mesmas ferramentas tecnológicas que se tornaram armas usadas para espalhar desinformação e influenciar eleições têm agora como alvo o nosso mundo natural. Em nenhum lugar essa campanha viral foi mais desenfreada ou preocupante do que no Brasil.

Neste último ano, apoiadores do novo governo de direita liderado por Jair Bolsonaro queimaram vastas áreas da Floresta Amazônica para uso do agronegócio em larga escala. Essa devastação da Amazônia – que abriga mais de um terço das espécies do mundo – agravou os impactos destrutivos da exploração madeireira, mineração, agricultura e urbanização no coração da diversidade biológica da Terra, acelerando o recente aumento na taxa de desmatamento na Amazônia.

As mídias sociais têm sido o principal meio pelo qual Bolsonaro e seus apoiadores justificam e perpetuam essas atrocidades ambientais. No Facebook e no Twitter, eles negaram repetidamente que a floresta esteja sendo desmatada e queimada, apesar das evidências em contrário, que foram verificadas de maneira independente e apresentadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Bolsonaro foi ainda mais longe. Ele acusou os cientistas de falsificação de dados e, por fim, demitiu o diretor do INPE, Ricardo Galvão, listado entre os dez cientistas mais importantes de 2019 pela revista Nature.

As chamas dos incêndios foram ainda mais atiçadas nas mídias sociais. Em 10 de agosto do ano passado, dezenas de proprietários de terras e trabalhadores no estado do Pará se uniram via grupos do WhatsApp para promover um “Dia do Fogo” para queimar vastas extensões de floresta, sinalizando seu apoio aos esforços de Bolsonaro para eliminar multas por crimes ambientais. Essas atividades criminosas já levaram à derrubada e ao incêndio de uma área do tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Além disso, esses incêndios foram facilmente visualizados do espaço e a poluição do ar adentrou a Bolívia por centenas de quilômetros. Apesar da identificação clara e pública dos incendiários que os iniciaram – nenhum dos quais ainda foi processado – a campanha de desinformação on-line de Bolsonaro foi mobilizada com força total: ele chegou a usar o Facebook para acusar o ator de Hollywood Leonardo DiCaprio de ter patrocinado os incêndios!

Em um golpe final inconcebível, Bolsonaro desumanizou os índios da Amazônia, que há milênios têm nessas florestas o seu lar. Recentemente, em uma de suas transmissões semanais no Facebook, Bolsonaro declarou que “índio está evoluindo” e “cada vez mais é um ser humano igual a nós.” Degenerar e desmoralizar os povos indígenas é um meme de séculos de justificação da exploração e degradação ambiental, e é surpreendente que, em nosso mundo interconectado de hoje, os líderes cheguem a níveis tão baixos para perpetuar o caos ambiental.

Vivemos um momento interessante, mas estranho, em que as informações são espalhadas em massa para o mundo em questão de minutos. Até o momento, o uso das mídias sociais e da Internet como armas tem sido direcionado principalmente às pessoas e à sociedade civil. A fumaça desaparece da Amazônia enquanto testemunhamos em primeira mão o impacto devastador dessas tecnologias sobre o meio ambiente. Ações individuais, que antes seriam pouco mais do que uma gota em um oceano muito grande, agora são amplificadas e reforçadas pelas plataformas de mídia social em um tsunami de dano irreversível a diversos ecossistemas que evoluíram e se desenvolveram ao longo de milhões de anos. Devemos interromper o avanço dessa onda com a renovação do compromisso com a produção e disseminação de conhecimentos cientificamente embasados, e com a luta pelos direitos de todos os seres vivos neste pequeno planeta azul que chamamos de lar.

Esta é uma versão expandida de artigo publicado na revista científica Nature em 16 de abril de 2020 (versão online disponível em 14 de abril).

*Charles Davis é professor no Departamento “Organismic and Evolutionary Biology” na Universidade de Harvard e curador dos Herbários da Universidade de Harvard

*Goia Lyra é pós-doutoranda na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora no grupo de estudos em Fenologia de Plantas e Mudanças Climáticas da Universidade de Harvard

*Caio Silva é professor adjunto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília e atualmente faz pós-doutorado na Universidade de Harvard

*Mariana Guimarães é pesquisadora assistente no Programa Zofnass na Escola de Pós-Graduação em Design de Harvard e mestre em Saúde Pública e Planejamento Urbano pela Universidade de Harvard

*Jean Wyllys foi membro do Congresso Nacional brasileiro, é jornalista e ativista de direitos humanos, exilado sob ameaça de morte por suas visões políticas. Ele é ALARI Scholar at Risk na Universidade de Harvard

*Aaron Ellison é pesquisador sênior em Ecologia na Universidade de Harvard e vice-diretor da Harvard Forest

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