As metamorfoses de Washington

As metamorfoses de Washington

Fernando Goldsztein*

15 de junho de 2021 | 04h30

Fernando Goldsztein. Foto: CRISTIANO SANTANNA/INDICEFOTO

Nunca houve e nem haverá tantos acontecimentos relevantes em Washington como neste primeiro semestre de 2021. Ficará marcado na história da cidade. Um inverno muito rigoroso como não se via há décadas; as restrições do coronavirus; a polêmica derrota de Donald Trump; a inimaginável invasão do Capitólio; a tensão generalizada que fez com que todos os prédios e lojas da região central fossem protegidos com painéis de madeira e, finalmente, a posse de Joe Biden que contou com a maior operação já realizada pelo exército americano dentro do país. Foi um período difícil.

Mas, mesmo superados todos os eventos descritos acima, a natureza ainda iria demonstrar toda a sua graça e força. Já tive a oportunidade de ver muitos fenômenos naturais nesta região dos Estados Unidos, tais como a espetacular coloração das folhas das árvores com a chegada do outono (“fall foliage”), o mar congelado da nova Inglaterra, as impressionantes tempestades de neve em Boston e a espetacular e curta floração das “Cherry Blossoms” (cerejeiras) de Washington.

Mas, jamais pensei em deparar-me com algo tão insólito e extraordinário como as “Periodical Cicadas’, ou cigarras. Trata-se de um fenômeno único no planeta que ocorre apenas a cada dezessete anos e em alguns locais específicos do nordeste americano. Repito, ocorre somente a cada dezessete anos. A última vez foi em 2004 e a próxima será apenas lá em 2038. São bilhões de cigarras que emergem da terra simultaneamente, sobem até a copa das árvores, acasalam-se, põe os ovos nos galhos e, depois de quatro a seis semanas, perecem. Já os óvulos, amadurecem, caem no solo e transformam-se numa espécie de larva que entra para dentro da terra e lá permanece por longos dezessete anos. Impressionante! Um inseto com ciclo de vida tão longo e cronologicamente tão perfeito. Os cientistas ainda não conseguem explicar tal fenômeno que, segundo eles, ocorre há milhares de anos. O que mais caracteriza as cicadas é o som emitido pelos machos para atrair as fêmeas. Pode chegar a atingir os 105 decibéis, o equivalente a buzina de um carro. Impossível passar pelos parques da cidade sem escutar o som fascinante destes insetos.

Testemunhei muitas transformações nestes meses em Washington. O rigor do inverno na agradável primavera. A tensão do radicalismo e da intolerância na tranquilidade da democracia. O medo do vírus na alegria da imunização. E, finalmente, as larvas subterrâneas nas agitadas e ruidosas cicadas. Foram tantas e tão espetaculares estas transformações que certamente  causariam inveja ao nosso saudoso Raul Seixas, o qual sabiamente  “preferia ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

*Fernando Goldsztein, empresário

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