As marcas psíquicas eternas de uma travessia perigosa

As marcas psíquicas eternas de uma travessia perigosa

Renata Bento*

06 Julho 2018 | 06h00

CBP/Handout via REUTERS

Com a notícia das separações das crianças de seus pais na fronteira do México com os Estados Unidos, reedita-se emocionalmente a sensação do horror à época desumana e cruel dos Navios Negreiros, uma das mais comoventes histórias onde os traficantes de escravos africanos mantinham crianças separadas de seus pais que seriam comercializados. E não tão pretérito assim nos remete ao nazismo experimentado pelos judeus nos campos de concentração que não além de toda crueldade ainda submetiam as crianças a separação de seus pais.

Fazemos um salto agora para a então chamada modernidade, e nos deparamos com a recente notícia. O que vimos nos últimos dias foram imagens chocantes nos Estados Unidos de crianças cobertas, deitadas em colchonetes sobre o chão em modernos campos de concentração como se fossem gaiolas, cercadas de policiamento e arame.

Fala-se que esta política está em vigor desde o governo anterior de Barack Obama, entretanto, a tolerância zero foi adotada desde abril pelo atual governo, o então presidente Donald Trump. E que, seu objetivo seria o de dissuadir estrangeiros que desejam transgredir as regras e cruzar as fronteiras.

A despeito de seus objetivos, é importante ressaltar, que a infância passa, que viramos adultos e que a criança que fomos nos acompanha por toda a vida. É preciso pensar numa forma diferente de lidar com este cenário, ao invés de proporcionar prejuízos psicológicos com graves consequências ao desenvolvimento físico e emocional contra quem não tem sequer chances de se defender.

Nessa situação perigosa, os adultos são levados a centros de detenção e ali, presos, passam a responder por crime federal. As crianças, como não podem ser detidas, são separadas de seus pais. E deste modo no âmago de seu desamparo, chorando e apavoradas são encaminhadas a abrigos do governo. Especula-se que existam hoje cerca de mais de 2000 crianças estrangeiras vivendo este tipo de situação. Destas, 48 são brasileiras. Anteriormente em situações como estas, os estrangeiros entravam, pediam refúgio ou eram deportados.

A triste notícia é que com tanta modernidade, o que por um lado é muito bom, ainda se observa que não há espaço mental para se pensar em como se dá o psiquismo humano que tem início em tenra idade. Pouco se fala sobre isso, pouco se protege as nossas crianças que são o futuro da humanidade.

Onde estão as autoridades, os chefes de Estado?

Penso ser importante ressaltar que essas crianças estão em sofrimento duplo; primeiro por não serem protegidas por quem deveria protegê-las, no caso, seus próprios pais. Que, no desespero transgressor por ausência de recursos emocionais e econômicos, alto índice de destrutividade ou não se sabe bem o porquê, experimentam esse perigoso jogo de azar que mais parece uma roleta russa; em seguida, ou pela segunda vez, caem novamente no colo nem um pouco macio e confortável e tampouco acolhedor de um país que embora tenha todos os recursos materiais, os trata como animais, engaiolando em abrigos e os separando de seus pais, suas principais referências.

Ao falarmos de mundo mental e em termos de economia psíquica, o trauma caracteriza- se por uma onda de excitação excessiva, relativamente à tolerância do indivíduo e a sua capacidade de dominar e de elaborar emocionalmente tais excitações. Na infância, a criança por possuir um ego incipiente e necessitar de segurança externa, ainda não possui capacidade emocional para digerir mentalmente tamanho impacto. Tudo isso para dizer que o terror experimentado por essas crianças deixará marcas para sempre em seu psiquismo, que poderão ser notados posteriormente em forma de sintomas físicos e emocionais. A criança, como ser humano que é, precisa de seus pais, ou cuidador adulto que a ampare em sua vulnerabilidade e seu desamparo primordial, que a ajude a reconhecer e lidar com seus sentimentos e que atue de forma viva no processo de desenvolvimento físico, emocional e educacional.

E exatamente por tudo isso, fica aqui um apelo: se alguns pais por uma série de fatores não conseguem perceber a gravidade de seus atos e colocam as crianças em situação de risco, ao menos as autoridades quando implicadas poderiam ter compreensão mínima para não tratar o assunto como abuso emocional.

*Renata Bento, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada à Internacional Psychoanalytical Association, à Federación Psicoanalítica de América Latina e à Federação Brasileira de Psicanálise

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