As lições de uma greve na qual todos perderam

As lições de uma greve na qual todos perderam

Fernando Valente Pimentel*

02 Junho 2018 | 12h00

Fernando Valente Pimentel. FOTO: DIVULGAÇÃO/ABIT

A greve dos caminhoneiros, que chega ao fim às duras penas, com radicais resistências, de intenções obscuras, teve um único aspecto positivo: expôs com ênfase alguns dos graves problemas do Brasil. No mais, a meu ver, o movimento não teve vitoriosos, pois a Nação perdeu! E quando isso ocorre, a sociedade é a maior derrotada, mesmo que aparentemente haja ganhos para um ou outro segmento.

A paralisação estendeu-se por muito tempo, extrapolando o limite do razoável, principalmente em se tratando de atividade crucial para o País. Foram imensos os prejuízos, a começar pelo inaceitável cerceamento do direito constitucional de ir e vir. Foram apenadas as cadeias produtivas de todos os setores, incluindo as empresas de transporte, a saúde e a segurança pública, abastecimento de alimentos, combustíveis, exportações e matérias-primas.

O Brasil parou, com significativos ônus para os seus 209 milhões de habitantes.

O primeiro grande problema evidenciado pelo movimento refere-se à questão tributária. Os impostos não oneram demasiadamente apenas os combustíveis e os transportes, mas todas as atividades produtivas e a população. Assim, fica muito clara a mensagem: não se pode postergar mais a reforma tributária, que estamos esperando há 30 anos, desde que a Constituição de 1988 foi promulgada.

Outro gargalo grave exposto pela paralisação diz respeito à precariedade da infraestrutura de transportes e de logística. O País depende umbilicalmente de rodovias e caminhões para a mobilidade de cargas. A quase inexistência de ferrovias e hidrovias e a incipiência dos sistemas aeroviário e portuário denunciam um modelo completamente equivocado de desenvolvimento do setor. São urgentes, portanto, investimentos em modais menos poluentes, nos quais os fretes sejam mais baratos e que reduzam de modo significativo a dependência ao transporte rodoviário.

Excesso de impostos e infraestrutura precária, incluindo aqui os riscos referentes à energia e o seu alto preço, expõem duas causas estruturais da baixa competitividade de nosso país. Este problema é agravado pela prática permanente de juros elevados, a burocracia exacerbada e insegurança jurídica. Ou seja, questões relativas às políticas públicas e à ineficiência ou eficiência do Estado.

E por que a greve nos fez lembrar tanto disso? Ora, porque a ineficácia e a morosidade do setor público retardaram a adoção de medidas contingenciais para o enfrentamento das consequências do movimento, que apenas amplificou os mesmos obstáculos que enfrentamos no dia a dia para trabalhar e produzir, como a deficiência logística e de infraestrutura e os ônus de todos os componentes do “custo Brasil”.

Finalmente, a paralisação evidenciou a dispersão de lideranças, a ponto de numerosos caminhoneiros ignorarem a formalização do acordo oficial entre as autoridades e os sindicatos da categoria. E, frise-se, foi uma negociação muito desfavorável aos setores produtivos, à economia e à sociedade, à medida que as concessões com as quais o governo concordou agravam o já imenso rombo fiscal. Tais medidas dificultam ainda mais a retomada do crescimento, pois abalam a confiança de investidores e consumidores. Assim, fechou-se com chave de lata (enferrujada!) um episódio no qual todos os brasileiros perderam.

Para não agravar essa derrota e conseguir uma virada rumo ao desenvolvimento, é premente solucionar os gargalos fundamentais que a greve escancarou ao nosso próprio país e ao mundo, por meio de investimentos privados e públicos e marcos regulatórios que propiciem segurança jurídica e estimulem esse aporte de capital!

*Fernando Valente Pimentel é o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit)

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