As incertezas político-econômicas e a tomada de decisões empresariais

As incertezas político-econômicas e a tomada de decisões empresariais

Wanderlei Passarella*

09 Outubro 2018 | 08h40

Wanderlei Passarella. Foto: Arquivo Pessoal

No contexto de grandes incertezas que estamos vivenciando no país, um subproduto perverso é a paralisação do processo de tomada de decisões nas empresas. Investimentos, projetos, novos negócios, inovações, entre outros pontos importantes, estão sendo deixados de lado.

Em alguns casos, o olhar é desviado para as “formigas”, enquanto os “elefantes” passam, numa alusão a que pequenas questões cotidianas ganham mais atenção em relação às grandes questões que poderiam melhorar o desempenho dos negócios.

A experiência em Governança Corporativa com dezenas de empresas mostra que a mitigação desse problema passa pelo estabelecimento de um processo de tomada de decisões profissionalizado, lastreado por um conjunto de pessoas, de dentro da organização e de fora dela, os chamados Conselhos Administrativos ou Consultivos.

Em estudo conduzido pelo World Competitiveness Yearbook, editado pelo IMD (International Institute of Management Development), da Suíça, contemplando dados de 59 países, ao longo de 18 anos de pesquisa, constatou que empresas com Conselhos de Administração efetivos promovem 55,7% de aumento em sua eficiência produtiva e 52,3% de melhoria na sua capacidade de se adaptar às mudanças de mercados.

As empresas de capital fechado, pequenas e médias, em sua maioria, ainda não compreenderam que a adoção da Governança traz a solução para diversos problemas que elas não conseguem endereçar só com a gestão, tal como o processo decisório em tempos de incertezas, com um investimento baixo, cujo custo-benefício é amplamente compensador.

O fato é que governar uma empresa é diferente de gerenciá-la. Enquanto a gestão tem foco nas questões ligadas ao bom andamento cotidiano dos negócios, um governo deve priorizar os direcionamentos, os valores e os pilares que a conduzem para sua saúde (financeira, de inovação, por exemplo).

No Brasil, temos um pouco mais de 800 conselheiros certificados (dados do site do IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). No Reino Unido são em torno de trinta mil (dados obtidos no Congresso do IBGC, de 2015), evidenciando que, nos países desenvolvidos, já está adiantada a corroboração da realidade construtiva da abordagem de Governança.

Em diversos processos de instalação de Governança é possível perceber que a mudança no processo decisório, pela presença de conselheiros externos independentes, pela polinização de melhores práticas trazidas de outras empresas e setores e pela mediação de ideias conflitantes entre sócios, permite que essa perda de foco com questões pequenas seja resolvida. Além disso, a falta de percepção das verdadeiras ameaças e oportunidades é mitigada.

Isso tudo acontece porque o convívio constante com as idiossincrasias da organização, realizada por quem conduz a gestão, por mais competente que seja, acaba limitando a sua perspectiva mais ampla. Profissionais que estão conectados com realidades diferentes, em outras empresas e conselhos, podem trazer os novos ângulos de visão necessários para a boa tomada de decisão.

O resultado de tudo isso, como constatado pela pesquisa conduzida pelo IMD, é uma melhoria significativa dos resultados. É tempo de compreendermos que governar uma organização é tão ou mais importante do que gerenciá-la e, então, começarmos a difundir como fazê-lo para empresas de porte pequeno e médio. O fortalecimento da capacidade empresarial como nação tem uma real dependência disso.

*Wanderlei Passarella é mestre em Administração de Empresas e Bacharel em Economia pela FEA-USP, engenheiro mecânico pela Escola Politécnica da USP e pós-graduado na Abordagem Transdisciplinar Holística, pela Unipaz/FSJT. Dirige a Synchron Participações

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