As incertezas da sociedade e o mercado de ações em 2019

As incertezas da sociedade e o mercado de ações em 2019

Agostinho Celso Pascalicchio*

18 Janeiro 2019 | 06h00

Agostinho Celso Pascalicchio. FOTO: DIVULGAÇÃO

A bolsa de valores muda o seu comportamento frequentemente e, por vezes, este desempenho gera altas ou baixas abruptas nos preços dos títulos financeiros transacionados neste mercado em um mesmo dia. Em 2 de janeiro de 2019, primeiro pregão do ano, a “B3”, considerada a bolsa de valores oficial do Brasil, apresentou alta de 3,56%. O mercado financeiro considerou que esta taxa de variação foi um “salto abrupto positivo” nos valores das ações. Esta data e sua variação nos preços dos títulos financeiros serão lembrados por representar o primeiro dia das negociações da bolsa de valores na “Era Bolsonaro”.

O comportamento financeiro nesta data foi resultado da formação de expectativas favoráveis para toda a sociedade, principalmente relacionadas ao processo de aprovação dos procedimentos de privatizações das diversas empresas estatais e cujas ações são negociadas na bolsa de valores.

Também entraram alimentando estas expectativas favoráveis as certezas relacionadas às reformas previdenciárias, ajustes fiscais, crescimento da atividade econômica, redução do desemprego, aumento da renda da população e ao andamento de diversas outras medidas que ao todo promoverão o desenvolvimento do país. Talvez tenha se formado um ambiente de negociação que alimentou o mercado financeiro com todos os fatores esperados e favoráveis para os investidores compradores de ações. O resultado do ambiente resultou no “salto abrupto positivo”, ou na alta significativa nos preços dos principais ativos financeiros negociados durante o pregão. Aparentemente, efeitos externos, como a guerra comercial entre os Estados Unidos e China, não causaram efeitos sobre os preços dos títulos neste dia.

As reformas, ajustes e privatizações certamente acontecerão durante este governo. Caso sejam rotuladas de “adequadas” ou “insuficientes”, os investidores perceberão imediatamente, avaliarão a intensidade das providências, os seus efeitos, e os preços das ações refletirão, com alguma intensidade, o resultado das medidas. O mercado acionário deverá agir com imediatismo aos anúncios das medidas do governo. Em 2019, este mercado funcionará como um espelho dos múltiplos eventos que acontecerão tanto no Brasil como no ambiente internacional. No mercado interno, os investidores estarão atentos aos valores que devem ser exigidos pelo processo de ajuste e serão conhecedores das restrições que podem existir. A realização das medidas esperadas no ano pelos investidores causará mudanças nos padrões de correlação dos retornos acionários e os preços mudarão drasticamente e repentinamente. Podem haver movimentos abruptos nos valores dos ativos transacionados.

O resultado do primeiro dia de negociação do ano mostrou haver uma dinâmica natural, esperada e até intuitiva da sociedade dentro do processo requerido de ajuste. É presumível supor que o ambiente que existiu nesta data tenha capturado um efeito racional, já esperado, de todas as medidas a serem adotadas pelo governo. Talvez tenha sido capturado pelos preços dos títulos o resultado final de uma tendência de longo prazo, com todas as reformas já aprovadas e com todos os ajustes em andamento.

Quem sabe o mercado de ativos financeiros tenha fluido na linha de dois ganhadores de Prêmio Nobel – Eugene Fama e Lars Hansen – que contribuíram com pesquisas nas áreas de precificação de ativos financeiros considerando o uso de uma previsão racional dos movimentos esperados nos preços dos títulos no longo prazo. Os preços são corrigidos considerando a formação de expectativas racionais, conhecidas pelos investidores.

Distinto das expectativas racionais, as variações nos preços podem ter origem em um comportamento diferente. Dois outros ganhadores do Prêmio Nobel – Robert Shiller e Richard Thaler – mostraram que a psicologia dos investidores afeta as decisões financeiras e que estas podem até ter implicações no marketing das empresas. Campanhas de mercado e de produtos que são desenvolvidos em períodos com domínio de expectativas pessimistas são diferentes das criadas nos períodos mais otimistas. As empresas organizam seus investimentos e produção de forma diferenciada a partir de expectativas oriundas de comportamentos não-racionais. Os preços das ações reagem a um comportamento não racional como o “efeito de manada” dos investidores. Eles compram ou vendem os títulos financeiros porque todos os demais fazem o mesmo.

Pode até haver erro na tomada de decisão, mas o erro acontece de forma conjunta. Não ocorre um processo de avaliação individual do erro por alguém ter vendido um ativo por preço considerado muito “barato”, pois todos os investidores do mercado fizeram o mesmo. Não há o comprometimento de ninguém. Movimentos abruptos nos preços podem ocorrer decorrente deste comportamento.

As oscilações no preço dos ativos financeiros transacionados no mercado de ações têm reflexo imediato no mercado de câmbio, nas decisões de investimento das empresas do setor industrial, de serviços e no agronegócio.

A equipe econômica do atual governo é excelente. Existe a determinação em implantar as mudanças necessárias. Entretanto, as expectativas dos investidores acompanharão e reagirão aos acontecimentos e ao risco representado pelo processo necessário para aprovação. Existe o “tempo operacional” para que as reformas e ajustes sejam implantadas. Este tempo inclui os anúncios e as aprovações das medidas até as suas adoções. Por incluir possibilidades de mudanças nas propostas inicialmente apresentadas pelo poder executivo, podem dar origem aos boatos, que são decorrentes de mudanças que eventualmente sejam tomadas por todas as esferas de poder do governo.

O preço da ação “sobe no boato e desce no fato”. Esta é uma expressão trivial na bolsa de valores. Quando os boatos, que possuem uma alta relação com as expectativas, começam a circular e passam a ter mais credibilidade, os investidores começam a comprar as ações estimulando a alta no preço das mesmas. No momento que o boato vira fato, o movimento do mercado acabou. A ação pode ter encontrado o preço correto ou justo. A expectativa exagerada, resultando em oscilação abrupta decorre do boato e não do fato. Os boatos podem determinar diferentes informações e diversos cenários corporativos no curto, médio e de longo prazo.

As criações destes cenários são resultados das incertezas ou demoras no tempo operacional de aprovação dos ajustes, criação ou existência de boatos e das expectativas geradas. Podem ocorrer muitas e repentinas oscilações nas valorizações dos títulos financeiros, seja pelo comportamento racional ou pelo psicológico dos investidores. Estas oscilações poderão causar “quedas” ou “saltos” abruptos nos preços dos papéis financeiros.

As oscilações poderão fazer com que tenhamos pela frente situações repletas de abalos e agitações sobre o mercado da bolsa de valores e com isso poderá haver a formação de diferentes e diversas expectativas no tempo. Um ditado chinês lembra que “se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o machado”.

O ambiente na bolsa poderá ser muito volátil, repleto de expectativas, cheio de incertezas, sendo necessário tomar providências adequadas para que este processo de oscilações seja bem reduzido com o anúncio e aprovações rápidas das reformas e ajustes, evitando que efeitos indesejados se propaguem para o mercado de câmbio e sobre as decisões a serem tomadas pelos diversos segmentos produtivos da sociedade.

*Agostinho Pascalicchio é mestre em Teoria Econômica pela University of Illinois at Urbana-Champaingn/USA, doutor em Ciências pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo. É professor universitário nas áreas de Economia e Engenharia Econômica na Universidade Presbiteriana Mackenzie. É responsável pela avaliação financeira de projetos na Comunidade Europeia

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