As formigas, o gado e as cigarras

As formigas, o gado e as cigarras

João Linhares*

04 de julho de 2021 | 13h51

João Linhares. Foto: Divulgação

Quisera eu ser como as formigas,
indiferentes ao governo,
à moeda,
às intrigas,
à perversidade,
às fofocas…
Seria inatingível veleidade?
Elas seguem suas sendas,
perseguem seu incrível projeto,
mesmo diante das tormentas.
Instinto de inseto?
Pra elas, o impossível é inexistente.
Não se intimidam,
valentes!
Não desanimam,
persistentes,
não se separam.
Formigas se ajudam,
formigas veem o todo,
formigas trabalham em prol das outras,
ainda que diante de qualquer malogro.
Seriam loucas?
São pacientes,
não gastam tempo com pantomimas,
não destroem;
são construtoras.
E guardam uma à outra estima.
Como eu as aprecio!
Tão desafiadoras que eu desanimo.
Simplesmente percorrem seus caminhos,
avançam ao norteamento.
Porém as formigas
são pisoteadas por tal alheamento.
Consumidas pelo andar humano
ligado à moeda, ao governo e à intriga.
Isso gere o mundo, a política,
elogios e a crítica.
Pensando bem,
depreendo que estou no mundo dos ruminantes.
São seres que vivem em manada,
pouco interessantes.
De luz, têm quase nada…
E são pouco rutilantes.
Bovinos vivem num cercadinho,
felizes, bobinhos…
Ludibriados,
tolinhos!
Bastam-lhes mão na cabeça,
um aceno
e carinhos.
Soem atacar furiosamente,
com os seus poderosos chifres,
armas perigosas e afiadas,
repletas de tolices,
aqueles que fazem a seu pastor
quaisquer chistes,
Tudo em nome da manada,
Tudo em nome do SENHOR.
Assim, a guerra é santa,
passa-se a boiada!
Todavia, usam pouco a massa encefálica.
Formigas são mais inteligentes…
Constatação tardia
e nada prática?
O gado,
crente,
não sabe que ele mesmo será sacrificado,
no primeiro instante,
por quem lhe deu,
num rompante,
grama para comer,
ao seu puro talante.
O gado é totalmente guiado,
e seu destino é virar churrasco
ou guisado,
no prato de quem o cercou…
O dono do gado parece carrasco
e velhaco?
Ele, contudo, é adorado!
Por ora, fito as formigas.
E vivo como as cigarras,
Farto-me e encho a barriga,
descurando-me da fábula de Esopo…
Cigarras são boêmias,
apreciam festas.
Cantam, encantam,
enganam-se
e desencontram-se;
eu me acalento
e me espanto!
Faço amigos
e formigo…
Outros nem tanto…
Será apenas comigo?
Depois das cantigas da cigarra,
cai a chuva,
lava a alma!
E que venha muita água,
Cigarra,
me garro,
nos garramos todos,
pois que a salvação é essa…

*João Linhares, Promotor de Justiça do Ministério Público de MS, Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona – Espanha, especialista em Controle de Constitucionalidade e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ. Membro da Academia Maçônica de Letras de MS.

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