As faces da solidão

As faces da solidão

Maria Francisca Mauro*

17 de setembro de 2020 | 06h30

Maria Francisca Mauro. FOTO: DIVULGAÇÃO

O isolamento social, imposto pela pandemia de COVID-19, revelou novas faces da solidão, seja para aqueles que se viram fisicamente sozinhos, ou para os que estão mais afastados mesmo dentro de suas próprias casas. Porém, antes mesmo da quarentena, esse já alcançava níveis mundiais. Na Inglaterra, por exemplo, o problema foi considerado uma questão de Estado: nove milhões de britânicos vivem só – quase 1/5 da população. Outros países, como os Estados Unidos e a Nova Zelândia, também priorizam o tema como ordem de saúde pública.

Primeiro, é preciso desbancar a ideia de que a solidão é, simplesmente, estar sozinho e/ou não ter ninguém. A questão não é somente a presença física de pessoas, mas a falta da construção de uma conexão emocional com elas, da sensação de troca e de suporte. É uma emoção negativa por não receber amparo, e isso pode ser experimentado mesmo quando se está acompanhado.

Apesar de associada ao completo isolamento, a solidão pode se manifestar por três frentes: de forma íntima, quando a pessoa se sente colocada de lado; de forma relacional, que consiste na ausência de apoio emocional mesmo quando há um grupo próximo de convívio (família, amigos); e de forma coletiva, que é sobre a falta de troca afetiva significativa dentro de contextos sociais amplos, como no trabalho e em grupos por onde circula.

Dentro do espectro da vulnerabilidade, destacam-se nos estudos clínicos populacionais: as mulheres, os mais jovens (que se inserem de forma digital, mas não conseguem ter relações mais profundas emocionalmente), os que estão solteiros, as pessoas com menor poder aquisitivo e/ou que não têm emprego, e os grupos que estão envelhecendo sem uma inserção social ou familiar. Portanto, é possível perceber que muitas pessoas em situação de vulnerabilidade social estão mais propensas a sentir mais solidão.

Alguns quadros psiquiátricos também podem contribuir para que o indivíduo se mantenha em isolamento, seja pelas dificuldades que atravessa emocionalmente (depressão, ansiedade social, alcoolismo, transtornos alimentares), ou pela gravidade das alterações do seu comportamento (esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline), que geram obstáculos para a convivência.

Com frequência, a solidão leva a um comportamento de desvalorização própria muito grande. A mistura de vergonha, medo e o sentimento de não pertencimento fazem com que a pessoa não procure ajuda, por sentir que não valerá à pena, pois nada fará diferença.

Também pode se desdobrar para outra grave consequência: a busca por medidas paliativas para lidar com os sentimentos negativos.Artifícios como comida, bebida e sexo podem ser subterfúgios para conseguir tolerar o sofrimento de se sentir tão só. Na maioria das vezes, por não causarem grandes prejuízos e serem feitos sem companhia, esses abusos podem passar despercebidos a quem está próximo. Quanto mais prolongado for o apoio nesses artifícios, maior o risco de viver uma vida em modo automático, sem que se consiga perceber quais são os reais incômodos ou limites emocionais.

Ao invés de querer ‘tapar o buraco’, é preciso entender quais são as bases que causaram esses danos. Isso vem por meio do autoconhecimento, da reflexão, da psicoterapia e, quando necessário, de medicamentos. Comportamentos de escape podem ser acessados para suportar alguns sintomas emocionais de depressão, ansiedade, fobia social ou mesmo para encobrir alguma dificuldade no relacionamento. Por isso que é fundamental buscar ajuda profissional.

O tratamento para solidão precisa se pautar no reconhecimento desta como algo que precisa ser cuidado em quem isso representa desconforto emocional. Se a pessoa se sente à margem e está passando por sofrimento, é necessário entender se aquilo é algo que envolve algum quadro psiquiátrico e, então, tratá-lo dentro de sua especificidade. Já se a solidão traduz alguma falta de habilidade social, é possível lançar mão de treinamentos para ampliar a capacidade de interação, seja por meio de psicoterapia ou intervenção medicamentosa breve.

Algumas dicas para esse cuidado incluem buscar práticas de autoconhecimento, como leitura, meditação e exercício físico. Outro hábito possivelmente simples e importante é tentar conversar com amigos próximos ou alguém com quem possa ter trocas mais substanciais. Entenda o seu próprio valor e tente ampliá-lo na forma como se relaciona com o seu núcleo social.

Parar de ignorar os sentimentos e a agonia de se sentir só é o maior obstáculo para sair do caminho do isolamento. A melhor forma de ultrapassar algum limite emocional que incomoda é procurar entendê-lo e não simplesmente ignorá-lo. Nesse sentido, os profissionais da saúde mental podem ser uma ferramenta muito útil, pois o medo ou vergonha de procurar ajuda são uma grande parte do problema na hora de cuidar de quem precisa.

*Maria Francisca Mauro, psiquiatra e psicanalista

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