As escolas fake

As escolas fake

Fernando Goldsztein*

14 de abril de 2022 | 12h15

Construção de escola em Inhumas (GO): obra parada desde 2020. FOTO: RODRIGO SALVIANO/ESTADÃO

São tantas os escândalos com o dinheiro público no Brasil que, infelizmente, estamos há muito  anestesiados. As noticias de corrupção e malversação do dinheiro público, que brotam das páginas dos jornais e das telas de TV,  já não despertam a nossa a atenção.

Não faço aqui nenhuma apologia a partido político ou corrente ideológica. Evidente que houve épocas da nossa história recente em que o rio da corrupção esteve bem mais caudaloso. Desta época não temos nenhuma saudade. Porém, engana-se quem pensa, ou apregoa, que estamos livres desta chaga. Longe, muito longe, disso.

Apesar de também anestesiado, choquei-me com a notícia estampada na capa do Estadão do último Domingo sobre as “escolas fake”.  Sim, a desfaçatez de alguns políticos não tem limite. Em ano eleitoral, ávidos por agradar os seus currais eleitorais, prometem construir escolas com verba do FNDE (Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação). Foram duas mil escolas prometidas à centenas de municípios. Ocorre que, o custo destas novas escolas é de 5,9 bilhões de reais, enquanto que o FNDE só tem 117 milhões de reais no seu orçamento. Ou seja, menos de 2% do valor necessário para execução destas obras. Segundo a reportagem do Estadão, os politicos alardeiam a noticia de que conseguiram a verba para escola, mesmo sabendo que a mesma não é suficiente nem mesmo para os projetos da obra. Cria-se então no Brasil o fenômeno agora chamado de “escolas fake”.

Como se isso já não bastasse, existe hoje no Brasil outras três mil e quinhentas escolas cujas as obras estão paradas por falta de recursos. Bilhões de reais estão simplesmente apodrecendo ao tempo. Portanto, mesmo que houvesse a verba para construir as duas mil novas escolas prometidas, o que não existe, ainda assim teria-se que priorizar as obras que estão inacabadas. Ao não fazer isso, afronta-se a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Ditas leis determinam claramente que os recursos do governo devem ser destinados prioritariamente aos projetos em andamento. Portanto, mais uma vez, e como sempre na nossa história, trata-se do dinheiro público com desprezo e descaso. Nunca é demais lembrar que o dinheiro desviado pela corrupção ou desperdiçado em obras que nunca serão entregues, é o mesmo dinheiro da consulta médica não realizada, da merenda escolar não consumida ou da casa popular não construída. Situação que só faz aumentar a desigualdade social no país.

Fatos como este das “escolas fake” atestam de forma inequívoca, infelizmente,  o quanto ainda estamos distantes de sermos uma sociedade madura, capaz de eleger representantes verdadeiramente interessados em transformar o país.

*Fernando Goldsztein, empresário. Fundador, www.mbinitiative.org

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