As empresas e a liderança estão preparadas para lidar com um profissional com depressão?

As empresas e a liderança estão preparadas para lidar com um profissional com depressão?

Whiny Fernandes*

30 de setembro de 2020 | 04h30

Whiny Fernandes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se você não teve depressão, provavelmente conhece alguém próximo que já teve essa doença. Cansaço, falta de motivação, dificuldade nas relações com os colegas, insegurança e queda drástica na produtividade, esses são apenas alguns dos sintomas de uma pessoa com depressão. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima-se que 6% da população tenha depressão. Ou seja, mais de 300 milhões de pessoas sofrem desse mal.

No mês Setembro Amarelo é comum ver empresas falando sobre saúde mental, promovendo ações de prevenção e até apresentando novos benefícios que ajudam na prevenção da doença. Isso é incrível, mas será que as empresas e os líderes estão preparados para lidar com um profissional com depressão?

A liderança provavelmente vai perceber que o funcionário está com problemas de saúde mental apenas quando uma pessoa da equipe já está com o desempenho abaixo do esperado. Mas poucas realmente pensam ou executam medidas para uma identificação antecipada desse quadro.

Segundo estudo de 2016 da London School of Economics, feito em oito países, é estimado um prejuízo de US$ 246 bilhões (cerca de R$ 800 bilhões) por ano no mundo todo, de funcionários doentes, que consequentemente produzem menos. O Brasil é o segundo com maior valor em perdas ligadas à depressão no trabalho, com US$ 63,3 bilhões (R$ 206 bilhões), atrás apenas dos EUA, com US$ 84,7 bilhões.

Com a queda da produtividade é comum o desligamento, mas será esse mesmo o caminho? Você como líder está preparado para lidar com um profissional com depressão? O ano de 2020 intensificou o desafio dos líderes, com a pandemia, trabalho remoto e uma economia instável, isso trouxe incerteza, gerando ainda mais  ansiedade em tempos difíceis.

Novos benefícios como incentivos a psicólogos, comunicação frequente e treinamentos são boas maneiras de prevenção, mas o que quero trazer são insumos de como um líder pode ajudar um profissional com a doença.

Alguns primeiros passos que podem ajudar a liderança e as empresas:

Fale com a pessoa liderada, ao invés de falar delas

Muitas vezes, você como líder já começou a perceber mudanças no comportamento e impacto nos resultados. Crie uma relação de confiança e momentos propícios para falar sobre esse tema, é provável que a pessoa primeiro fale com você antes de falar com o time de RH. São temas complexos e desconfortáveis, mas sua comodidade não importa nesse momento.

Desenterre o que não é dito

Muitas vezes o colaborador não entende o que está passando consigo próprio, e como líder você é responsável direto por buscar o que não é falado. Faça perguntas profundas, se interesse pelo outro, vá além do “Como você está”, você é capaz.

Seja referência de um modelo saudável

Compartilhe com a equipe o que você faz para buscar um equilíbrio entre saúde física e mental, e como concilia com o trabalho. Compartilhe momentos de pausa no trabalho por conta de levar o filho no médico, ir a terapia, ou simplesmente por levar o cachorro passear no meio do dia. E em uma matéria da Harvard Business Review, escrita pela Kelly Greenwood e Natasha Krol, por exemplo, elas compartilham algumas ações que os líderes podem adotar nesse sentido.

Flexibilidade

Não espere que o funcionário compartilhe o que precisa, seja proativo. Veja se faz sentido horário flexíveis, talvez começar a trabalhar mais tarde, garantindo que está cumprindo a carga horária. Lembre-se que depressão tem impacto no sono, e em alguns casos aparece a dificuldade de sair da cama. Flexibilizar vai diminuir a pressão e pode ser uma forma de ajudar a pessoa conseguir fazer suas entregas. Tente reformular as metas, talvez um acompanhamento mais próximo, metas faseadas, ou até mesmo mudança de projetos, mas claro, com tudo alinhado.

O cenário não é simples e não existe fórmulas para o sucesso, o que existe são pessoas com empatia e líderes vulneráveis. René Brown, em seu livro diz: É preciso coragem para ser vulnerável, não tenha medo, você pode impactar diretamente na vida do outro.

*Whiny Fernandes é cofundadora do grupo Employer Branding Brasil e especialista em marketing estratégico

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