As eleições de 2022 e o tema da corrupção

As eleições de 2022 e o tema da corrupção

Rodrigo Augusto Prando*

10 de janeiro de 2022 | 05h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

O ano que ora se inicia traz, em seu bojo, eleições para Presidente, Governadores, Deputados Federais e Estaduais e Senadores. A temperatura política, no Brasil, não diminuiu após a última eleição, em 2018; e, por isso, tudo leva a crer que a eleição vindoura será assaz disputada e, não raro, com elementos claros de violência retórica e simbólica.

Provavelmente, o tema da corrupção estará no rol das preocupações dos eleitores, bem como nos planos de governo e nos discursos dos candidatos. Contudo, terá menos importância do que em 2018, visto que teremos, no cotidiano, múltiplas consequências da pandemia, no campo da saúde pública, da economia ou da educação de crianças e jovens, para ficarmos nas principais delas. Por isso, cabe, sempre, rememorar que as eleições são primordiais para definirmos o que queremos para o país, para a sociedade brasileira. A democracia tem, nas eleições, sua festa cívica, o momento de plenitude do exercício da cidadania, da conjugação de direitos e deveres. Mas, se a democracia tem nas eleições sua festa cívica, a democracia não se limita ao processo eleitoral. A democracia – tão combalida nos últimos tempos – reclama mais do que uma escolha eleitoral, reclama uma participação ativa do cidadão antes, durante e depois das eleições. Ou seja: agir democraticamente na condição de cidadão implica consciência crítica e, neste caso, a responsabilidade social de todos nós no que tange à vida coletiva, com nossos acertos e erros, com felicidade e agruras.

No já distante ano de 2001, Marco Aurélio Nogueira, Professor Titular de Teoria Política da Unesp, publicou um livro que reputo fundamental para a compreensão do fenômeno político: Em defesa da política (Editora Senac). Peço, aqui, licença para citar e, depois, situar algumas ideias de Nogueira. Segundo o autor:

“Auditórios do Brasil inteiro fazem seguidas declarações de decepção e cansaço em relação à política. Em inúmeros plateias de executivos, de engenheiros e servidores públicos, de jovens e donas-de-casa, de médicos e assistentes sociais, até mesmo de professores e advogados, é comum alguém se erguer para propor que se liquide pelo um político por dia como forma de resolver os problemas do país. O quadro geral é de descrença e desilusão. A grande maioria simplesmente se deixa levar. Perde a fé na vida pública, entrega-se ao fatalismo e à resignação, ao deslumbramento perante o poder, caindo nos braços dos ilusionistas de plantão”

E, acerca dos políticos, acrescenta:

“Os políticos profissionais são intermediários, representantes, lideranças. Vivem e agem no interior de um sistema. A boa ou a má qualidade deles depende da qualidade dos que são por eles representados, dos valores que prevalecem e da armação institucional em que operam.”

E, ainda segundo Nogueira, por isso que:

“Sair em defesa da política, portanto, não é algo que se confunda com a defesa dos políticos ou das instituições que nos governam; é, ao contrário, uma operação destinada a defender a hipótese mesma da vida comunitária. Corresponde à necessidade vital de manter abertas as comportas de oxigênio, para que possamos continuar a respirar.”

Estas ideias são de 2001 e, depreende-se de sua leitura, são, ainda, atuais para a realidade do país. Houve, em muitos casos, o ataque sistemático à política e aos políticos, entendidos como males absolutos em nossa sociedade. Todavia, Nogueira nos lembra que “a boa ou a má qualidade deles (dos políticos) depende dos que são por eles representados, dos valores que prevalecem e da armação institucional em que operam”. É frequente que, ao tratarmos da corrupção, muitos ataquem os políticos e o espaço institucional onde a política é conduzida: partidos, Congresso Nacional, Senado da República e os ministérios afeitos à gestão junto ao Presidente da República. O ponto fulcral, neste caso, é a questão: quem os elegeu? A qualidade da representação política – no Legislativo e no Executivo – é ruim? Decerto que, em muitos casos, é bem ruim, no entanto, do mais virtuoso político ao pior picareta existe algo em comum: ambos foram referendados pelas urnas, foram, democraticamente, escolhidos em eleições livres; conseguiram apresentar sua candidatura e foram vitoriosos após a escolha do eleitor.

Em outubro iremos, novamente, às urnas e votaremos em candidatos para o Executivo (Governadores e Presidente da República) e para o Legislativo (Deputados Estaduais e Federais e Senadores). Desde 1989, votamos e elegemos aqueles que acreditamos serem os melhores para nos representar. São nossos representantes. Políticos são oriundos de nossa sociedade e seus valores, crenças e ideologias estão presentes em nossa realidade social. Em termos mais claros e objetivos podemos realizar um exercício de reflexão: qual a trajetória deste candidato? Depois, pode-se, por temas, questionar: quais suas ideias para a economia? Para a educação? E, sempre importante, qual sua visão de mundo e sua conduta em relação ao bem público, à separação de interesses privados e públicos? Numa sociedade em rede, hiperconectada, a vida atual e pregressa dos candidatos pode ser pesquisada e tal investigação implica em se afastar de fake news, pós-verdades, teorias da conspiração e negacionismo.

A responsabilidade do cidadão, portanto, consiste em, antes das eleições, conhecer a trajetória de seu candidato; comparecer e votar no escolhido; e, por fim, acompanhar o mandato daquele que confiei meu voto, meu representante. A consciência e atuação crítica dá trabalho, especialmente, numa sociedade politicamente polarizada e constantemente submetida às crises institucionais. A política não pode ser espaço de ódio, de ataques, de fake news. A política deve, sempre, ser a instância organizadora da vida social. A política e os políticos não são perfeitos e nunca serão. Na sociedade – com indivíduos, grupos e classes sociais – há vícios e virtudes; na política também.

Que possamos, todos, avançar neste ano eleitoral com o arrefecimento da pandemia e capacidade de equacionar e resolver os problemas gerados nestes anos pandêmicos. E, para isso, a escolha ponderada, refletida, dos atores políticos é fundamental. Que sejamos capazes de superar os discursos fáceis e, não raro, falsos, de salvacionismo, messianismo, daqueles que se apresentam como puros, absolutamente éticos e, por conta disso, realizadores de uma ação de “limpeza” de toda a sujeira política.

O INAC – Instituto Não Aceito Corrupção – estará, mais uma vez, atento ao cenário eleitoral e, desta forma, contribuindo com discussões teóricas e ações práticas cuja centralidade está no combate às inúmeras dimensões do fenômeno corrupção.

Um ótimo ano para todos nós!

*Rodrigo Augusto Prando, graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia. Professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Conselheiro do Instituto Não Aceito Corrupção

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Acesse aqui todos os artigos, que têm publicação periódica

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