As dores (e as alegrias) de empreender sendo mulher

As dores (e as alegrias) de empreender sendo mulher

Rochane Soubhie*

08 de março de 2021 | 04h15

Rochane Soubhie. FOTO: DIVULGAÇÃO

Comecei cedo, muito cedo, a trabalhar. Muitas mulheres não se dão conta, mas empreender faz parte de suas rotinas desde sempre. Quando tinha 14 anos, eu e minha mãe começamos a confeccionar jóias e bijuterias e produzíamos peças dentro de casa. Em seis meses, juntamos dinheiro suficiente para reformar a casa e montar uma loja na garagem. Mas meu pai não queria e, ao longo do tempo, paramos a produção.

Com 16 anos, passei a dar aulas de inglês para crianças. Eu saía da escola, ia para casa, almoçava, tomava banho, pegava minha bicicleta – em uma época que nem havia ciclofaixa em São Paulo – e ia da Vila Mariana até uma travessa da Brigadeiro Luís Antônio, me encontrar com meus alunos. No ano seguinte, precisei deixar as aulas para estudar para o vestibular e, durante as madrugadas, comecei a ganhar dinheiro trabalhando como tradutora.

Na faculdade, mudei minha carreira empreendedora para entrar no mundo corporativo e passei por bancos, pela Editora Abril, Visanet (a antiga Cielo) e Telefônica. Porém, em 2015, dois anos após o nascimento da minha filha, entendi a difícil realidade do mercado brasileiro com as mulheres que se tornam mães – vi outra pessoa mais nova e mais barata ocupando minha vaga e passei a ser vista como alguém com quem a empresa não poderia mais contar a qualquer momento. Então, com apenas 38 anos, eu entrei para o grupo dos funcionários sêniors, no pior sentido da palavra e acabei deixando meu emprego de lado. D

Durante meu tempo em casa fiz cursos e conversei com muitas outras mulheres e, principalmente, mães que me contaram que haviam passado pela mesma situação que eu. Via as mesmas angústias, inseguranças e os desafios de ficar em casa com um filho.

A grande virada

Dois anos mais tarde, relembrei da força que carrega uma mulher empreendedora e me juntei ao meu marido, atual sócio, em uma nova empreitada. Ele saía do mundo corporativo para entrar no ecossistemas de startup e inovação e fundar uma Venture Builder que transforma ideias em negócios sólidos e sustentáveis. No começo,fiquei distante, tentando entender o que ele estava construindo e onde ele queria chegar.

Com o tempo, a empresa foi se encorpando e, em 2018, eu já estava lá com ele, completamente workaholic de novo. Fui ajudá-lo em um projeto relacionado a Call Centers, pois já havia trabalhado nessa área por um bom tempo, e, meses depois, eu estava ajudando na estratégia e no contato com as startups que entravam. Mas, foi neste ano de 2020 que pude me encontrar como mulher e empreendedora.

Estar atuando com outras empresas, tendo a minha, me desafiou a ir além e me aprofundar na área de marketing. Hoje, o mercado não tem nada a ver com o que aprendi na faculdade, precisei estudar muito, aprender e me informar para ficar por dentro das novas demandas e, principalmente, me redescobrir como profissional. Por isso, acredito que nós, mulheres, realmente somos surpreendentes quando decidimos empreender. Não importa a idade, a localização, o background. A determinação, resiliência e autoconfiança nessas condições precisam ser extremas.

Conheci muitas guerreiras no mundo corporativo, sem dúvidas. Quando é você quem empreende, é a dona da ideia, a pessoa do front, do backstage, do atendimento, da venda, do suporte técnico, é a gestora das redes sociais, a redatora, a fotógrafa, você realmente precisa se posicionar em um nível acima e a visão para o todo muda. Apesar de já sermos muitas, o número de mulheres empreendendo, comparado com homens, ainda é baixo. A última edição da principal pesquisa de empreendedorismo do mundo (2018), a Global Entrepreneurship Monitor, mostrou que o Brasil se destacava em sétimo lugar no ranking de mulheres empreendedoras. Já segundo IBGE, já são quase 10 milhões liderando negócios. Mesmo assim, o caminho ainda pode parecer solitário para nós. Ficamos isoladas fazendo a roda girar, o chão tremer, a roupa de casa lavar, o carrinho de compras encher, o cartão de crédito aprovar, os likes surgirem e os aplausos serem ouvidos.

Como mulher, entendo porque isso acontece dessa forma com a gente. Empreender se torna um ato quase orgânico já que passamos por isso desde pequenas. Fomos e continuamos sendo desafiadas a construir coisas, relações e serviços. É intuitivo para uma mulher cuidar de si mesma e dos outros e, esse olhar do “cuidado” se transporta para os negócios sem percebermos. Para as mulheres, um negócio nunca é simplesmente um negócio: ele tem foco em pessoas independentemente da jornada, tem construção de histórias independentemente dos atores e deseja ser inesquecível independentemente de quem seja o cliente.

*Rochane Soubhie, COO e co-fundadora da Sevensete

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