As ditaduras pitorescas que ainda sobrevivem no mundo

As ditaduras pitorescas que ainda sobrevivem no mundo

Ulisses Carvalho*

10 de dezembro de 2020 | 12h00

Ulisses Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Aqueles que pensam que haverá democracia neste país, podem pensá-lo em outro mundo”, disse o ditador da Eritréia, Isaias Afewerki, durante um discurso, de acordo com o Repórter sem Fronteiras, organização não-governamental que tem o objetivo de defender a liberdade de imprensa.

A frase ridícula e difícil de acreditar, é somente uma das tantas loucuras que comete Afewerki, até hoje o único presidente na história da pequena Eritréia, país africano que realiza fronteira com a Etiópia, Sudão e Djibouti. O ditador ocupa a presidência da nação desde 1993, além de abolir toda a mídia independente em 2001.

Esse pobre país africano com pouco mais de 5 milhões de habitantes, tem o serviço militar obrigatório, e muitas vezes, os soldados são utilizados para a construção de estradas e pontes. Nenhum cidadão do próprio país pode circular em outra cidade sem autorização prévia do governo, e de acordo com a União Internacional de Telecomunicação das Nações Unidas, apenas 1% da população tem acesso à internet, pois, além de ser proibida nas residências, só pode ser utilizada em cibercafés. Outra curiosidade é que os poucos turistas que visitam o local, não podem utilizar o precário transporte público.

Muitas vezes o mundo volta a atenção para a Coréia do Norte, mas se esquece de outros países, que assim como os asiáticos, sofrem com um regime igual. Ou até pior. Segundo relatório de 2019 da unidade de inteligência do The Economist, atualmente 54 países ainda vivem regimes ditatoriais. Destes, o continente em que a população mais sofre ainda continua sendo a África, com quase 30 países.

O Brasil é apenas o 10° país na América Latina no quesito de liberdade e está entre as 107 nações que perderam qualidades democráticas, ao lado de Hungria, Turquia e Sérvia, sendo classificado como democracia falha ou imperfeita. Apenas para comparação, em 1950 existiam apenas 25 democracias no planeta.

O relatório aponta apenas 22 países com democracias plenas, como Noruega, Islândia, Suécia, Finlândia, Nova Zelândia, Austrália, Uruguai, Chile, Costa Rica e apenas um país no continente africano, Maurício. Falando em repressão, o Turcomenistão, uma pequena nação, rica em gás natural, apelidada como a Coréia do Norte da Ásia Central e pouco conhecida para nós brasileiros, tem um dos mais pitorescos ditadores no comando desde 2006. Seu nome, Gurbanguly Berdimuhammedow.

Na TV estatal, é comum assistir o presidente cantando rap, levantando peso, cavalgando, já que tem uma grande paixão por cavalos, e escrevendo livros. No início da pandemia foi destaque no mundo todo após banir a palavra ‘Coronavírus’, determinando que o cidadão que fosse pego na rua falando sobre o vírus, seria preso.

Recentemente, inaugurou uma estátua dourada de seis metros de altura de um cachorro na capital Asgabate. Aliás, essa não é primeira, pois, em 2015, mandou construir uma estátua de si mesmo, montado em um cavalo, toda de ouro e com 20 metros de altura. Berdimuhammedow é apenas o segundo presidente a comandar o Turcomenistão, pois seu antecessor era Saparmurat Niyazov, que morreu de parada cardíaca em 2006.

Berdimuhammedow era dentista de Niyazov, sendo convidado para o cargo de Ministro da Saúde, antes de assumir a presidência. Se o atual ditador é um louco, o antecessor era igual, e promovia um culto à personalidade, com seu retrato em fachadas de edifícios, almofadas, garrafas de vodca, cadernos escolares e rebatizou os meses do ano com o nome de seus familiares, além de proibir jovens de utilizar cabelos compridos, barba, bigode e abolir o balé.

O atual tirano não ficou para trás, e proibiu a circulação de carros de outra cor que não fosse o branco e o dourado na capital do país, que, segundo o relatório da consultoria Mercer, é a segunda cidade mais cara do mundo para se viver, atrás apenas de Hong Kong.

No continente africano, há ainda o ditador com maior tempo no poder. Teodore Obiang Nguema, que governa com mão de ferro a Guiné Equatorial desde 1979, após derrubar em um golpe de estado o seu próprio tio, Francisco Macias Nguema, fuzilado dois meses depois de deixar o cargo.

O ditador mais velho também é africano. Paul Biya tem 87 anos e comanda Camarões desde 1982, sendo que em 2008 eliminou o limite de mandatos na constituição para permanecer mais tempo no poder. Exemplo parecido com Paul Kagame, que comanda a Ruanda desde 2000, e que em 2015, após um referendo, conseguiu alterar a constituição para disputar mais duas eleições, podendo permanecer no cargo até 2034.

Mesmo diante de tanta evolução que vimos no planeta, tanto social como tecnologicamente falando, principalmente nos últimos 50 anos, ainda sofremos com regimes que têm total controle sobre a vida das pessoas, convivemos com a pobreza, pois um em cada dez indivíduos no planeta vive abaixo da linha da pobreza, um número que deve aumentar ainda mais com a pandemia provocada pela Covid-19. E ainda temos indivíduos que acreditam que ocupar cargo é um direito e não uma prestação de serviços para ajudar a população.

*Ulisses Carvalho é bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Guarulhos

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